Há poucos dias publiquei um artigo sobre a transformação do consumo de vinho na Itália. A análise partia de um dado cuja dimensão costuma passar despercebida. Segundo a Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV), o consumo mundial recuou para um dos menores níveis registrados desde o início da década de 1960. O dado torna-se ainda mais expressivo quando comparado ao crescimento da população mundial. Nesse mesmo período, a população do planeta mais que dobrou, enquanto o consumo global de vinho permaneceu praticamente estagnado e hoje se encontra em um dos menores patamares das últimas seis décadas. Em termos per capita, a perda de espaço do vinho é muito mais significativa do que os números absolutos sugerem.

Naquele artigo procurei mostrar como os spritz, os vinhos brancos, os espumantes e outras bebidas vínicas passaram a dialogar com as novas gerações. Bordeaux amplia essa reflexão. O que hoje se observa na mais célebre região vinícola da França ultrapassa uma simples mudança de hábitos de consumo e alcança a própria estrutura econômica que, durante séculos, organizou o mercado internacional do vinho.

A decisão do governo francês de financiar a erradicação de milhares de hectares de vinhedos em Bordeaux simboliza essa mudança. A medida busca reduzir uma produção que já não encontra mercado na mesma velocidade de décadas anteriores. O Conseil Interprofessionnel du Vin de Bordeaux (CIVB) registra sucessivas quedas nas vendas da região. Somam-se a isso o aumento dos custos de produção, o acúmulo de estoques, a desaceleração das exportações e um clima cada vez menos previsível. Nenhum desses fatores, isoladamente, explica a situação atual. Em conjunto, colocam sob pressão uma estrutura econômica construída ao longo de quase novecentos anos.

A história ajuda a compreender por que Bordeaux alcançou uma posição que nenhuma outra região vitivinícola conseguiu preservar por tanto tempo. Em 1152, o casamento de Leonor da Aquitânia com Henrique Plantageneta, futuro Henrique II da Inglaterra, integrou Bordeaux ao maior mercado consumidor da Europa medieval. Durante quase três séculos, o vinho bordalês abasteceu regularmente a Inglaterra, criando uma corrente comercial sem precedentes. A geografia completou essa vantagem. O estuário da Gironde, formado pelos rios Garonne e Dordogne, estabeleceu uma ligação privilegiada entre o interior francês e o Atlântico, reduzindo custos de transporte e facilitando o acesso aos mercados do norte da Europa.

Nem mesmo a paisagem foi obra exclusiva da natureza. No século XVII, engenheiros holandeses drenaram extensas áreas alagadas do Médoc, ampliando a superfície cultivável e criando condições para o surgimento de alguns dos mais prestigiados vinhedos do planeta. Muito do que hoje se atribui ao terroir de Bordeaux resulta também de engenharia hidráulica, investimento privado e visão comercial de longo prazo. Pouco depois, comerciantes ingleses, holandeses e franceses consolidaram uma rede mercantil que transformaria Bordeaux em um dos primeiros grandes centros internacionais de distribuição de vinhos.

A consolidação desse prestígio ocorreu em 1855, quando Napoleão III determinou a classificação oficial dos grandes châteaux para a Exposição Universal de Paris. Aquela lista, elaborada a partir da reputação construída ao longo de décadas e dos preços praticados pelo mercado, permanece praticamente inalterada até hoje. Não se tratava apenas de classificar vinhos. Estabelecia-se um sistema permanente de confiança, capaz de orientar comerciantes, investidores e consumidores em praticamente todos os continentes. Poucos setores da economia convivem com uma referência de mercado que atravesse cento e setenta anos preservando tamanha influência.

Essa confiança sustentou uma arquitetura comercial singular. Os courtiers aproximavam produtores e negociantes. A chamada Place de Bordeaux, formada pelas tradicionais casas de comércio, distribuía os vinhos para dezenas de países e transformou a região em uma verdadeira bolsa internacional do vinho. Mais tarde consolidou-se o sistema en primeur, pelo qual determinadas safras eram vendidas ainda durante o amadurecimento em barricas. O mecanismo antecipava receitas aos produtores, reduzia a necessidade de capital de giro e permitia aos compradores adquirir vinhos antes mesmo do engarrafamento.

Durante décadas, esse sistema funcionou de maneira exemplar. Nos últimos anos, porém, diversas safras passaram a ser negociadas no mercado secundário por valores inferiores aos preços praticados no lançamento. A consequência foi uma perda gradual de confiança, levando importadores, colecionadores e investidores a rever estratégias que durante muito tempo pareciam inquestionáveis. A discussão em Bordeaux deixou de girar apenas em torno da qualidade das safras. Passou a envolver o próprio funcionamento do sistema comercial que fez da região a capital mundial do vinho.

A expansão da economia chinesa prolongou esse ciclo de prosperidade. Grandes vinhos de Bordeaux transformaram-se em símbolos de prestígio para empresários, colecionadores e investidores asiáticos. Diversos châteaux passaram ao controle de grupos chineses, enquanto a demanda daquele mercado sustentava parte importante da valorização dos rótulos mais prestigiados. A desaceleração da economia chinesa, as mudanças no perfil de consumo e um ambiente geopolítico mais complexo retiraram um dos pilares que sustentavam esse ciclo de expansão.

Seria simplista atribuir essa reconfiguração apenas à economia. O consumidor também mudou. As novas gerações continuam apreciando bebidas derivadas do vinho, mas preferem produtos mais leves, menor graduação alcoólica e consumo menos ritualizado. Crescem os brancos, os rosés, os espumantes e os aperitivos vínicos. Um dos exemplos mais interessantes nasceu justamente em Bordeaux.

Criado em 1872, em Podensac, o Lillet é elaborado a partir de vinhos bordaleses enriquecidos com macerações de frutas cítricas. Durante décadas ocupou um nicho relativamente discreto. Hoje, servido com água tônica, gelo e frutas frescas, tornou-se um dos aperitivos mais populares dos verões europeus. A imagem é reveladora. O vinho continua presente na taça. O ritual é que mudou. A garrafa destinada ao envelhecimento em adegas divide espaço com bebidas concebidas para um consumo imediato, descontraído e social.

As mudanças climáticas acrescentam outro fator de pressão. Estudos conduzidos pelo Instituto Nacional de Pesquisa para Agricultura, Alimentação e Meio Ambiente da França demonstram que as colheitas vêm sendo antecipadas em razão do aumento das temperaturas médias. O maior acúmulo de açúcar nas uvas altera o equilíbrio entre álcool, acidez e frescor, características que historicamente definiram o perfil dos grandes Bordeaux. Em resposta, o Instituto Nacional da Origem e da Qualidade autorizou, em caráter experimental, a introdução de novas variedades mais resistentes ao calor. Para uma região cuja identidade sempre esteve profundamente ligada às castas tradicionais, trata-se de uma mudança histórica. Pela primeira vez, a preservação da tradição depende, em parte, da capacidade de inovar.

Essa mudança não se limita à França. Enquanto Bordeaux adapta uma estrutura construída ao longo de séculos, outras regiões consolidam posição no mercado internacional. Toscana, Rioja, Douro, Napa Valley, Mendoza, os vales chilenos e importantes regiões da Austrália deixaram de ser apenas alternativas para se tornarem referências em seus próprios estilos. O mercado do vinho tornou-se muito mais plural, reduzindo naturalmente o protagonismo quase absoluto que Bordeaux exerceu durante boa parte da história moderna.

O Brasil participa desse movimento de forma cada vez mais consistente. Durante décadas, o país foi visto com desconfiança pelos apreciadores de vinho fino. Essa percepção mudou rapidamente. A Serra Gaúcha consolidou sua reputação internacional, especialmente pelos espumantes e pelos vinhos produzidos no Vale dos Vinhedos, primeira Denominação de Origem brasileira. A Campanha Gaúcha ganhou notoriedade pelos tintos favorecidos pelo clima mais seco e pela maior amplitude térmica. A Serra Catarinense demonstrou que a altitude pode produzir vinhos de grande elegância, acidez e longevidade. O Vale do São Francisco rompeu paradigmas ao mostrar que a vitivinicultura de qualidade também pode prosperar no semiárido, com a possibilidade singular de duas safras anuais. A Serra da Mantiqueira, em Minas Gerais e São Paulo, revolucionou a produção nacional com a técnica da dupla poda, permitindo colher uvas durante o inverno e alcançando resultados reconhecidos pela crítica especializada. Ao mesmo tempo, a Serra do Sudeste, os Campos de Cima da Serra, o Cerrado Goiano e áreas do Distrito Federal começam a atrair investimentos crescentes, enquanto o enoturismo transforma diversas vinícolas em polos de gastronomia, hotelaria, cultura e desenvolvimento regional.

Essa expansão demonstra que o conceito de terroir deixou de ser um patrimônio quase exclusivo das regiões clássicas europeias. Hoje ele se manifesta em diferentes continentes, adaptando-se a climas, altitudes e solos muito distintos. O conhecimento científico, o melhoramento genético das videiras, a pesquisa agronômica e a tecnologia de vinificação reduziram barreiras que durante séculos pareciam intransponíveis. O mundo do vinho tornou-se mais rico justamente porque a excelência passou a surgir em lugares antes considerados improváveis.

Se a vitivinicultura brasileira ainda não cresce na velocidade que seu potencial permitiria, a explicação dificilmente está na qualidade do produto. Como ocorre em tantos outros setores da economia nacional, o principal obstáculo continua sendo o custo Brasil. A elevada carga tributária, a burocracia, os custos logísticos, o crédito caro, a complexidade regulatória e a dificuldade para competir em igualdade de condições com produtos importados limitam um setor que reúne clima, diversidade geográfica, capacidade técnica e empresários dispostos a investir. O avanço da produção nacional ocorreu apesar desses entraves, e não graças a um ambiente econômico favorável.

Nada disso diminui a importância histórica de Bordeaux. A região sobreviveu à filoxera no século XIX, às duas guerras mundiais, às crises econômicas, às fraudes que levaram ao fortalecimento das denominações de origem e às sucessivas transformações do comércio internacional. Continua reunindo alguns dos mais importantes centros de pesquisa em viticultura do planeta, mantém um patrimônio técnico extraordinário e produz alguns dos vinhos mais admirados do mundo.

A questão colocada no título deste artigo, portanto, não admite uma resposta simples. O modelo de Bordeaux nunca se resumiu à produção de grandes vinhos. Ele combinava uma classificação praticamente imutável desde 1855, uma sofisticada rede de courtiers e négociants, a força comercial da Place de Bordeaux, um mercado de futuros que durante décadas serviu de referência para o setor e uma reputação construída ao longo de quase nove séculos. Alguns desses pilares permanecem sólidos. Outros já mostram sinais inequívocos de desgaste.

A história recomenda prudência antes de anunciar o fim de qualquer instituição que atravessou quase um milênio. Ao mesmo tempo, seria difícil ignorar que o centro de gravidade da vitivinicultura mundial se tornou muito mais distribuído. Bordeaux continua sendo um dos grandes símbolos do vinho, mas já não ocupa sozinho o lugar de referência absoluta que exerceu durante tanto tempo. Se durante séculos ensinou o mundo a produzir, classificar, comercializar e consumir grandes vinhos, o próprio mundo passou a demonstrar que a excelência pode florescer em muitos outros lugares. Não se trata da decadência de Bordeaux. Trata-se da maturidade do vinho como patrimônio universal. Essa é, provavelmente, a maior contribuição que Bordeaux poderia deixar para a história: ter ajudado a construir um mundo em que a excelência deixou de ter um único endereço.

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