Durante muitos anos, bastava a previsão de temperaturas negativas para que a Serra Catarinense voltasse ao noticiário nacional. O frio, a geada e, ocasionalmente, a neve transformavam a região em destino obrigatório durante algumas semanas do inverno. Esse tempo passou. O frio continua sendo um excelente cartão de visitas, mas deixou de ser a principal razão da viagem. A Serra Catarinense passou a transformar seu maior patrimônio — a combinação entre altitude, clima e uma forte herança cultural — em uma economia baseada em vinhos de altitude, azeites extravirgens, gastronomia de excelência, hotelaria de experiência e turismo ao longo de todo o ano.

Costumo começar o roteiro por Rancho Queimado. Não apenas por ser a porta de entrada da serra para quem sobe pela BR-282, mas porque é nesse trecho da viagem que essa nova realidade começa a se revelar. Situada em torno de 800 metros de altitude, a cidade já apresenta um clima tipicamente serrano, com invernos frios e verões agradáveis. Aos poucos, as araucárias substituem a vegetação litorânea, surgem os primeiros olivais, aparecem os vinhedos e percebe-se uma italianidade que ultrapassa os sobrenomes. Durante as comemorações dos 150 anos da Grande Imigração Italiana em Santa Catarina voltou a ganhar força a estimativa de que mais de 50% dos catarinenses tenham ascendência italiana. Embora não seja um levantamento censitário oficial, essa influência aparece naturalmente na arquitetura, na religiosidade, na gastronomia, na forma de cultivar a terra e na hospitalidade.

A primeira parada é a Osteria Villa Marini. A palavra osteria costuma ser traduzida simplesmente como restaurante italiano, mas isso está longe de explicar seu verdadeiro significado. Tradicionalmente, trata-se de uma casa familiar, onde o anfitrião recebe os clientes como convidados, o cardápio acompanha a sazonalidade dos ingredientes e o tempo da refeição é determinado pela conversa, não pelo relógio. É exatamente essa atmosfera que Franco Marini, chef genovês, conseguiu reproduzir em Rancho Queimado. A vista da colina prepara o visitante para uma cozinha sem artifícios, baseada em massas artesanais, antepastos, pizzas de longa fermentação, nhoque alla romana gratinado e sobremesas clássicas italianas. Em uma época em que muitos restaurantes procuram surpreender pela cenografia, a Villa Marini continua apostando naquilo que realmente permanece na memória: boa comida, boa conversa e tempo para desfrutar ambas.

Poucos quilômetros adiante encontro uma das expressões mais interessantes dessa nova vocação econômica. A Quinta do Vienzo ajudou a consolidar a olivicultura como atividade de excelência na Serra Catarinense. Pioneira na produção e no processamento de azeite de oliva extravirgem em Santa Catarina, cultiva sete variedades de oliveiras — Arbequina, Arbosana, Koroneiki, Picual, Manzanilla, Frantoio e Grappolo — das quais nascem monovarietais e blends premiados em concursos internacionais. A experiência vai muito além da degustação. Jester Macedo conduz os visitantes pelos olivais e pelo lagar, explicando desde a implantação dos pomares até a extração a frio. Em seguida, Patrícia Macedo conduz uma análise sensorial que ensina a reconhecer aromas, frutado, amargor, picância, persistência e equilíbrio, além de identificar os principais defeitos encontrados em azeites de baixa qualidade. A comparação entre diferentes varietais evidencia como solo, clima e material genético influenciam profundamente o resultado final. Durante a colheita, o visitante ainda acompanha a moagem das azeitonas e prova o azeite recém-extraído, ainda não filtrado.

Entre Rancho Queimado e Bom Retiro faço uma parada obrigatória no Quintal di Catarina. Mais do que um empório, funciona como uma síntese da produção serrana. O visitante encontra queijos artesanais, embutidos, mel, geleias, frutas, conservas, azeites, vinhos e dezenas de produtos elaborados por pequenos produtores rurais. Não é raro encontrar chefs de cozinha abastecendo suas despensas antes de seguir viagem. O espaço revela um aspecto frequentemente esquecido quando se fala da Serra Catarinense: a boa gastronomia começa muito antes da cozinha, apoiada em agricultores, pecuaristas, apicultores, queijeiros e artesãos que encontraram no turismo um mercado disposto a reconhecer qualidade, origem e identidade.

Em Bom Retiro, a Vinícola Thera representa uma das expressões mais completas do enoturismo catarinense. Arquitetura contemporânea, vinhedos, vinícola, restaurante, wine bar e hospedagem foram concebidos como partes de um mesmo projeto. O visitante acompanha o percurso do vinho desde a videira até a taça, harmonizando a produção própria com uma cozinha que privilegia ingredientes regionais e uma paisagem cuidadosamente integrada ao empreendimento. Mais do que visitar uma vinícola, vive por algumas horas o cotidiano de uma propriedade dedicada ao vinho.

Já em Urubici, situada a aproximadamente 915 metros de altitude, começo sempre pela Vinícola Serra do Sol. Seus eventos entre os vinhedos aproximam produtores, chefs, empresários e visitantes, enquanto a já conhecida tábua de frios valoriza queijos, embutidos e outros produtos regionais harmonizados com os vinhos da casa. Em conversa com seus proprietários, recebi valiosas indicações de hospedagens e novos empreendimentos da região. Foi nessa ocasião que compreendi que o enoturismo vai muito além da taça. Ele cria conexões entre vinícolas, restaurantes, hospedagens e produtores locais, fortalecendo toda a cadeia turística da Serra Catarinense.

Neste fim de semana, pretendia almoçar no Montês. A equipe, entretanto, estava em férias depois da intensa temporada de inverno. Ao saber que a casa permaneceria fechada, perguntei por alternativas e elas vieram prontamente: o Green Barn Bistrô e outras boas opções da cidade. Segui a sugestão. Foi um gesto simples, mas revelador. Em um setor normalmente marcado pela concorrência, encontrei empresários que compreendem que pertencem ao mesmo destino turístico. Quando um restaurante recomenda outro porque está temporariamente fechado, transmite confiança ao visitante e fortalece a reputação de toda a região. O Green Barn confirmou a boa indicação. Integrado ao hotel homônimo, oferece uma cozinha contemporânea de inspiração europeia, executada com técnica e forte valorização dos ingredientes serranos. Antes de regressar, ainda passei pelo Sêmola, onde massas frescas, pizzas artesanais e receitas de inspiração italiana preservam, com simplicidade, a tradição trazida pelos imigrantes.

A evolução da gastronomia acompanha o amadurecimento da vitivinicultura de altitude. Os Vinhos de Altitude de Santa Catarina deixaram de representar uma aposta de poucos pioneiros para formar um dos segmentos mais dinâmicos do agronegócio catarinense. A associação que reúne os produtores congrega atualmente dezenas de vinícolas distribuídas pelos municípios de maior altitude, como São Joaquim, Urubici, Bom Retiro, Urupema, Campo Belo do Sul, Água Doce, Videira e Rancho Queimado. Em pouco mais de uma década, a área cultivada multiplicou-se, a produção aproximou-se de um milhão de garrafas anuais e o crescimento do faturamento demonstrou que o setor passou a competir menos por volume e mais por valor agregado. O vinho tornou-se um indutor de desenvolvimento regional, impulsionando restaurantes, pousadas, hotéis, projetos arquitetônicos, transporte, comércio especializado e pequenos produtores rurais, consolidando uma economia que hoje movimenta visitantes muito além da temporada de inverno.

Há, contudo, um desafio que acompanha essa nova etapa de desenvolvimento. Santa Catarina figura entre os estados brasileiros com maior participação proporcional de veículos eletrificados em circulação, reflexo de uma população que tradicionalmente incorpora novas tecnologias com rapidez. Apesar disso, quem percorre o roteiro entre Rancho Queimado, Bom Retiro, Urubici, Bom Jardim da Serra e São Joaquim ainda encontra uma infraestrutura de recarga aquém da importância turística da região. Os eletropostos permanecem relativamente escassos e, quando existem, muitos oferecem apenas carregadores de menor potência, insuficientes para percursos mais longos com a agilidade esperada por quem viaja. Assim como a Serra Catarinense soube investir em vinícolas, olivais, gastronomia e hotelaria de excelência, a expansão de uma rede de carregadores rápidos ao longo desse circuito surge como um passo natural para acompanhar a eletrificação crescente da frota brasileira e consolidar uma infraestrutura compatível com a qualidade do destino.

Esse amadurecimento também aparece na qualidade dos vinhos. O centro de Urubici situa-se em torno de 915 metros de altitude, Bom Retiro aproxima-se dos 900 metros, São Joaquim supera os 1.300 metros e Bom Jardim da Serra está acima de 1.200 metros. Essa sucessão de altitudes cria um corredor climático singular. Os verões costumam ser quentes durante o dia, mas as noites permanecem frescas, enquanto o inverno registra geadas frequentes e, nas áreas mais elevadas, episódios ocasionais de neve. Essa amplitude térmica favorece uma maturação lenta das uvas, preservando acidez, aromas e equilíbrio. Espumantes e vinhos brancos consolidaram o reconhecimento nacional da Serra Catarinense, enquanto castas como Cabernet Sauvignon, Merlot, Cabernet Franc, Pinot Noir, Sangiovese e Montepulciano vêm produzindo tintos cada vez mais elegantes, frequentemente premiados em concursos nacionais e internacionais. Guardadas as diferenças entre o clima mediterrâneo da Toscana e o clima subtropical de altitude catarinense, ambos compartilham características particularmente favoráveis à vitivinicultura e, mais recentemente, à produção de azeites extravirgens de alta qualidade. Não por acaso, vinhedos e olivais passaram a dividir a mesma paisagem em diversas propriedades da região.

Nem tudo, naturalmente, acompanha esse mesmo ritmo. A BR-282, principal acesso à serra, ainda necessita de investimentos para recuperar trechos que já não fazem justiça ao destino que conduz. Em compensação, a SC-110 e a SC-390, entre Bom Jardim da Serra e São Joaquim, apresentam excelente conservação. Sempre sigo por esse caminho. É ali que costumo situar a minha milha do vinho, um percurso em que vinhedos e vinícolas se sucedem ao longo da estrada, transformando o deslocamento em parte da própria viagem. O retorno ao litoral pela Serra do Rio do Rastro completa um dos circuitos rodoviários mais agradáveis do Brasil, especialmente para quem aprecia viagens de motocicleta ou prefere percorrer estradas em que o caminho é tão interessante quanto o destino.

A comparação com a Toscana nasce quase naturalmente. Naquela região, vinhedos e olivais convivem com extensas pinetas de Pinus pinea, cujas pinhas fornecem os famosos pinoli, ingrediente indispensável ao pesto genovês e presença constante na confeitaria e na culinária italianas. Na Serra Catarinense, vinhedos, olivais e araucárias compartilham a mesma paisagem. Das sementes das araucárias nasce o pinhão, ingrediente que há séculos ocupa lugar de destaque na culinária serrana, seja na paçoca de pinhão, no entrevero ou em tantas outras receitas tradicionais. Se os italianos transformaram os pinoli em um dos símbolos de sua cozinha, a Serra Catarinense fez o mesmo com o pinhão. Em ambos os casos, a paisagem não é apenas contemplada: chega à mesa, fortalece a identidade regional e impulsiona uma economia construída sobre aquilo que a terra produz de melhor.

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