A FRANÇA TORNOU-SE HOSTIL AO VINHO

Volto ao tema do vinho francês, já abordado em outros artigos desta coluna, provocado desta vez por uma entrevista de Axel Heinz ao Gambero Rosso, publicação italiana especializada em vinho e gastronomia, fundada em Roma em 1986 e transformada ao longo das décadas em referência no setor. Sua principal publicação dedicada aos vinhos italianos, Vini d’Italia, e a distinção Tre Bicchieri estão entre as referências mais conhecidas da crítica e do mercado italiano. É nesse ambiente que Heinz fala sobre a crise de Bordeaux e sobre a mudança na relação dos franceses com o vinho. Publicada semana passada, a entrevista ganha especial interesse pela trajetória de seu protagonista, que tem dupla cidadania francesa e alemã e passou quase 18 anos na Itália antes de retornar a Bordeaux.
A trajetória de Heinz dá particular peso à comparação. Depois de formar-se em agricultura e enologia em Bordeaux, iniciou a carreira profissional na França e chegou à Toscana em 2005, aos 32 anos, para assumir a direção da Ornellaia, em Bolgheri. Durante quase 18 anos, esteve à frente de Ornellaia e Masseto, dois dos grandes nomes da vitivinicultura italiana contemporânea. Em 2023, deixou a Toscana e retornou a Bordeaux para assumir o Château Lascombes, em Margaux. Conhece, portanto, por dentro as duas culturas vitivinícolas e pode comparar não apenas seus vinhos, mas a maneira como franceses e italianos se relacionam com eles.
Sua experiência em Bolgheri é particularmente significativa. Ornellaia e Masseto estão entre os grandes representantes dos chamados Supertoscanos, expressão que designa vinhos que romperam com regras tradicionais das denominações italianas e incorporaram também castas internacionais, sobretudo francesas. Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc e Merlot encontraram na Toscana outro clima, outros solos e outra cultura. O resultado foi uma categoria que se tornou uma das expressões mais valorizadas da vitivinicultura italiana. Bolgheri não tentou ser Bordeaux: absorveu referências francesas e as transformou em algo próprio.
É justamente esse contraste que dá força à entrevista do Gambero Rosso. Heinz retornou à França depois de quase duas décadas na Itália e encontrou, segundo sua percepção, uma relação com o vinho diferente daquela que conheceu no início da carreira. Sua preocupação não é simplesmente afirmar que os franceses deixaram de beber. O problema é o lugar que o vinho ocupa na sociedade.
O consumo francês vem caindo há décadas, especialmente entre os mais jovens. O vinho continua presente, mas perdeu parte da centralidade que tinha na vida cotidiana. Tornou-se mais ocasional, menos natural à mesa e menos associado ao hábito diário.
Heinz não atribui isso simplesmente à falta de interesse dos jovens. Ele próprio lembra que, aos 18 ou 20 anos, também não era grande consumidor de vinho. As condições econômicas mudaram, sobretudo com o peso crescente da moradia sobre a renda. O vinho passou a disputar espaço com outras prioridades.
Também não aceita a ideia de que a nova geração queira necessariamente vinhos leves, simples e fáceis de beber. Na entrevista, relata o caso de uma mulher de 35 anos que lhe disse preferir um vinho potente, rico e estruturado. Masseto é outro exemplo: um Merlot de concentração, estrutura e longevidade que contraria o estereótipo do vinho destinado ao consumidor jovem e, ainda assim, continua despertando enorme interesse.
Há, porém, uma dimensão política e cultural na observação de Heinz que vai além da queda do consumo. O vinho francês passou a ser cercado por um ambiente regulatório e sanitário que o apresenta cada vez mais sob a ótica do risco, restringindo sua publicidade e afastando-o do discurso público. A mudança é significativa justamente porque se trata de uma bebida que durante séculos esteve integrada à alimentação, à sociabilidade e à identidade francesa.
O contraste com a Itália é evidente. Ali, o vinho ainda é tratado como parte da cultura nacional, da gastronomia e do território. A diferença não está apenas no número de garrafas vendidas, mas na maneira como cada sociedade olha para aquilo que produz e consome.
Bordeaux também precisa lidar com as consequências de um modelo que durante décadas transformou grandes vinhos em ativos de prestígio, investimento e especulação. Pontuações, classificações e mercados internacionais elevaram determinados rótulos a valores extraordinários. Para Heinz, esse sistema perdeu parte de sua força. Um grande vinho precisa voltar à mesa, acompanhado da comida e integrado à convivência. Uma garrafa cara pode continuar encontrando comprador quando é adquirida para ser bebida e compartilhada; o que perdeu força é a lógica de pagar preços extraordinários simplesmente porque determinada garrafa se tornou objeto de especulação.
A crise também expõe uma deficiência de comunicação. Durante anos, os grandes vinhos de Bordeaux falaram sobretudo com críticos, negociantes, colecionadores e investidores. Faltou estabelecer uma relação direta com consumidores que poderiam descobrir o vinho sem necessariamente conhecer previamente os grandes nomes da região. O futuro passa novamente pelo consumidor que abre a garrafa, coloca-a sobre a mesa e bebe o vinho.
A região enfrenta ainda dificuldades climáticas e produtivas. Temperaturas chegaram a 44 graus e os incêndios na Gironda destruíram dezenas de milhares de hectares. A superfície vitícola vem diminuindo, e a arrancada de vinhedos levou a área cultivada a níveis que não eram vistos desde o século XIX. Cerca de um quarto dos vinhedos bordaleses já é conduzido segundo princípios de agricultura orgânica.
Mas reduzir Bordeaux a uma viticultura atrasada seria tão errado quanto ignorar sua crise. A região desenvolve pesquisas, recupera variedades históricas, procura alternativas para o futuro do Merlot e experimenta novas formas de condução dos vinhedos. O próprio clima está mudando: Bordeaux tornou-se mais quente, aproximando-se em determinados aspectos das condições que Heinz conheceu em Bolgheri. O desafio não é preservar uma fotografia do passado, mas adaptar-se sem perder a identidade.
Heinz também desmonta a ideia de que os jovens simplesmente não gostam de vinho. Ele próprio não era grande consumidor aos 18 ou 20 anos. A diferença está nas condições em que as novas gerações chegam à idade adulta. A moradia absorve parcela muito maior da renda e o vinho disputa espaço com despesas que se tornaram mais pesadas. Isso não significa, porém, que o jovem consumidor rejeite vinhos de personalidade. A mulher de 35 anos que lhe declarou preferência por vinhos potentes, ricos e estruturados vale, nesse sentido, mais do que qualquer estereótipo geracional.
A questão ultrapassa a economia. Bordeaux, Borgonha, Champagne, Rhône, Loire e as demais regiões francesas construíram uma civilização do vinho. A vinha moldou paisagens, cidades, famílias, profissões, gastronomia e hábitos sociais.
Como já escrevi nesta coluna ao tratar de Vinho e Guerra, de Don e Petie Kladstrup, a resistência dos viticultores franceses durante a ocupação alemã não dizia respeito apenas ao valor das garrafas. Produtores esconderam vinhos e protegeram suas adegas para impedir que os ocupantes se apropriassem de um patrimônio pertencente às famílias e aos territórios. Havia ali algo maior do que mercadoria: memória, tradição e aquilo que os franceses entendiam como “ser francês”.
É difícil não pensar nisso diante da França contemporânea. Se naquela época a ameaça à identidade nacional vinha de uma ocupação militar estrangeira, hoje a transformação ocorre por meios inteiramente diferentes: a imigração muçulmana em larga escala, a baixa natalidade dos franceses e o progressivo afastamento de tradições que durante séculos definiram a vida do país. Há quem veja nesse processo uma estratégia deliberada de substituição demográfica promovida pela esquerda.
Há ainda uma diferença cultural objetiva que não pode ser ignorada. O Islã proíbe o consumo de álcool, e essa proibição ocupa lugar claro na tradição religiosa islâmica. Isso estabelece um contraste direto com uma sociedade cuja cultura foi profundamente moldada pelo vinho. Na tradição francesa, beber à mesa, harmonizar o vinho com a comida e compartilhá-lo com amigos fazem parte de uma longa tradição social; na tradição islâmica, o álcool é proibido.
Quando a composição de uma sociedade muda profundamente, seus costumes também podem mudar. Uma cultura se transforma quando aquilo que antes era cotidiano deixa de ser praticado, transmitido e considerado natural por parte crescente da população. O vinho, por estar tão profundamente ligado à identidade francesa, torna-se um dos lugares em que essa transformação pode ser percebida.
O savoir-vivre francês nasceu também dessa relação. Comer bem, beber bem, conversar à mesa e receber amigos constituíram durante séculos uma forma de vida. Pode estar ocorrendo na França uma transformação cultural mais profunda, na qual o vinho é atingido não apenas pela mudança dos hábitos, mas também pela revisão de valores associados à tradição. O avanço de uma cultura política que desconfia da distinção, da “herança burguesa”, dos antigos rituais sociais e de determinadas manifestações do prazer ajudou a criar um ambiente menos receptivo àquilo que antes era simplesmente considerado bom e belo.
O contraste com a Itália é revelador. O país também enfrenta dificuldades demográficas e econômicas, mas conserva uma relação afirmativa com sua cultura gastronômica e vitivinícola. Sob Giorgia Meloni, esse sentimento ganhou uma dimensão política mais evidente. O chamado efeito Meloni expressa a recuperação de um orgulho nacional que não se envergonha da própria história, da família, da cultura, da gastronomia, dos monumentos e das tradições italianas. Ao mesmo tempo, o governo italiano conseguiu reduzir drasticamente a chegada de imigrantes ilegais, alterando de maneira significativa o fluxo migratório que havia se tornado um dos grandes problemas políticos do país. A Itália de Meloni não pede desculpas por ser italiana. Na bella Italia, a alegria viceja.
Até mesmo o ambiente dos aeroportos parece refletir essa diferença. No Charles de Gaulle, a atmosfera pode ser pesada, tensa, quase hostil; há momentos em que se tem a impressão de estar diante das portas do umbral. No Fiumicino, a sensação é outra: o ambiente é festivo, leve, solar, mais próximo daquilo que ainda se percebe nas ruas e nas mesas italianas. São impressões pessoais, mas também dizem alguma coisa sobre o espírito de um lugar. Há uma França que parece ter perdido a alegria de ser francesa e uma Itália que voltou a demonstrar orgulho de ser italiana.
A diferença também aparece na maneira como a Itália incorporou influências estrangeiras. Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc e Merlot, originalmente francesas, foram acolhidas na Toscana e transformadas em parte de uma nova identidade italiana. A influência externa não destruiu a cultura local porque foi absorvida por ela. Bolgheri mostra que inovação e tradição podem conviver sem que uma precise destruir a outra.
Foi nesse ambiente que Heinz passou quase 18 anos. Sua experiência em Ornellaia e Masseto representa justamente essa capacidade de combinar tradição e inovação sem transformar uma em inimiga da outra. Mais do que os vinhos, ele leva dessa experiência uma compreensão do vínculo entre território, paisagem e identidade. Em Bolgheri, o vinho não existe separado do lugar: a vinha, os ciprestes, o mar, a gastronomia e o modo de vida formam uma mesma paisagem cultural.
Agora, em Bordeaux, Heinz tenta aplicar parte dessa experiência ao Château Lascombes. Sua proposta passa por recuperar a identidade de Margaux, reduzir intervenções excessivas e deixar que o território volte a aparecer no vinho. Não se trata de retornar ao passado, mas de recuperar aquilo que não deveria ter sido perdido.
A França ainda produz alguns dos maiores vinhos do mundo. Bordeaux continua possuindo terroirs extraordinários. Seu problema não está na qualidade das garrafas, mas na distância crescente entre elas e uma sociedade que durante séculos fez do vinho parte de sua própria maneira de viver.
A questão é saber se uma nova geração continuará desejando o vinho francês e reconhecendo nele uma parte da própria história. A França pode recuperar consumidores, hectares de vinhedos e participação de mercado. O que é muito mais difícil recuperar é uma cultura depois que ela deixa de ser vivida.
