PERSPECTIVA POLÍTICA – Em quem acreditar?
A crise institucional deixa o brasileiro diante de versões conflitantes, os 204 anos da Independência convidam a refletir sobre conquistas que ainda faltam ao país e uma nova pesquisa mostra os diferentes desafios das principais candidaturas ao Governo de Santa Catarina.
Talvez esta seja hoje uma das perguntas mais difíceis para o brasileiro responder.
Em quem acreditar?
A crise institucional está posta.
Um problema que deveria ser tratado essencialmente no campo técnico e jurídico foi politizado.
Saiu dos limites do Judiciário.
Chegou ao Executivo.
Alcançou o Legislativo.
E, em pleno período eleitoral, entrou definitivamente na campanha.
Desde então, fatos, acusações, investigações, decisões, vazamentos e versões passaram a disputar espaço diariamente.
Um lado apresenta sua verdade.
O outro apresenta outra.
Autoridades se contradizem.
Políticos escolhem suas versões.
Nas redes sociais, cada informação rapidamente encontra milhares de pessoas dispostas a defendê-la ou contestá-la.
E o cidadão comum acompanha tudo isso tentando fazer algo que deveria ser muito mais simples:
conseguir saber em que acreditar.
Talvez o brasileiro esteja cansado
Não se trata apenas de uma impressão.
Pesquisas realizadas sobre a polarização brasileira já identificaram tristeza, cansaço e medo entre os principais sentimentos provocados por esse ambiente político.
Outros levantamentos mostram baixos níveis de confiança justamente em instituições centrais da vida política brasileira.
Isso deveria preocupar todos os lados.
Porque talvez estejamos chegando a um estágio em que uma parcela da população já não procura primeiro saber se determinada informação é verdadeira.
Procura saber de qual lado ela veio.
Se prejudica o adversário, acredita.
Se prejudica alguém do próprio campo político, desconfia.
Se determinada decisão beneficia quem apoiamos, encontramos argumentos para defendê-la.
Se a mesma decisão beneficia o outro lado, encontramos motivos para contestá-la.
A torcida começa a ocupar o espaço da análise.
E o fato passa a valer menos do que a identidade política de quem o recebe.
Quando cada um escolhe a sua verdade
É aqui que o problema deixa de pertencer apenas aos políticos ou às instituições.
Uma sociedade pode conviver perfeitamente com interpretações diferentes sobre os mesmos fatos.
O que se torna perigoso é quando grupos diferentes passam a trabalhar com fatos diferentes.
Sem uma realidade minimamente compartilhada, desaparece a base sobre a qual poderíamos discordar racionalmente.
E talvez seja exatamente essa base que estejamos perdendo.
A técnica precisa voltar a ser técnica
Investigações precisam seguir provas.
Decisões precisam seguir leis.
Acusações precisam ser demonstradas.
Defesas precisam ser respeitadas.
E as mesmas regras precisam valer para todos.
Independentemente de quem seja beneficiado ou prejudicado.
Instituições dependem de confiança.
E confiança não se impõe por discursos ou decisões.
É conquistada com transparência, coerência, respeito às regras e capacidade de demonstrar à sociedade por que determinada decisão foi tomada.
Talvez as investigações em andamento consigam esclarecer aquilo que hoje permanece confuso.
Talvez ainda tenhamos muitos capítulos pela frente.
Mas existe algo que precisa ser recuperado antes que a divisão se torne ainda maior:
a confiança do brasileiro nos fatos.
Porque, quando ninguém mais sabe em quem acreditar, sobra apenas a torcida.
E quando a preferência política determina previamente aquilo que cada pessoa aceita como verdade, ganha quem possui a narrativa mais eficiente.
Não necessariamente quem possui razão.
E aí existe um único perdedor.
O Brasil.
As independências que ainda precisamos conquistar
Ontem o Brasil comemorou 204 anos de sua Independência.
Mais de dois séculos se passaram desde aquele 7 de setembro de 1822 que marcou a separação política de Portugal e se transformou em uma das principais referências da nossa história.
É uma data para celebrar.
Mas também para pensar.

Porque talvez, 204 anos depois, existam outras independências que o Brasil ainda precise conquistar.
A independência da pobreza.
Da violência.
Da ignorância.
Da corrupção.
Da irresponsabilidade política.
E, principalmente,
da falta de esperança.
Temos muito para celebrar
Isso não significa diminuir o Brasil.
Muito pelo contrário.
Somos um país extraordinário.
Uma nação continental, construída pela mistura de povos, culturas, histórias e tradições.
Possuímos riquezas naturais imensas, capacidade produtiva, agricultura, indústria, ciência, tecnologia, criatividade e um povo que já demonstrou inúmeras vezes sua capacidade de trabalhar, reconstruir e superar dificuldades.
Existem milhões de brasileiros que acordam todos os dias e fazem este país funcionar.
Empresários que investem.
Trabalhadores que produzem.
Professores que ensinam.
Médicos e profissionais da saúde que cuidam.
Agricultores que alimentam.
Pesquisadores que desenvolvem conhecimento.
Empreendedores que criam oportunidades.
Servidores públicos que cumprem suas responsabilidades.
Gente anônima que dificilmente aparecerá numa manchete, mas que constrói o Brasil todos os dias.
Temos, sim, muito do que nos orgulhar.
Amar também é querer melhorar
Patriotismo não significa ignorar nossos problemas.
Amar o Brasil também é querer transformá-lo.
É reconhecer nossas conquistas sem fechar os olhos para aquilo que ainda precisa ser feito.
É desejar que um país com tantas riquezas consiga oferecer condições melhores para sua população.
É querer educação de qualidade.
Segurança.
Saúde.
Emprego.
Renda.
Oportunidades.
E esperança.
Depois de 204 anos, talvez nosso grande desafio seja justamente aproximar o Brasil que temos do Brasil que sabemos que podemos construir.
O Brasil merece mais
Nenhum governo construirá sozinho esse país.
Nenhum partido.
Nenhum presidente.
Nenhuma instituição.
Essa construção pertence a milhões de brasileiros.
O Brasil merece mais.
Seu povo merece mais.
E nossas autoridades precisam compreender que ajudar a fazer esse Brasil acontecer não é um favor.
É a responsabilidade que receberam do próprio povo.
Os números e os desafios
O grande fato político de Santa Catarina durante o feriadão veio do Instituto Veritá.

A pesquisa divulgada no domingo (6) mostrou Jorginho Mello (PL) com 58,5%, João Rodrigues (PSD) com 17,2% e Gelson Merísio (PSB) com 11,9% das intenções de voto.
Os números completos, metodologia e demais informações do levantamento já foram apresentados em matéria do DMA Notícias.
Aqui interessa outra questão:
o que esse retrato da eleição mostra como desafio político para as principais candidaturas?
Uma ampla vantagem
Para Jorginho Mello, o levantamento registra uma vantagem expressiva nesta etapa da campanha.
Se considerados apenas os votos válidos, seus 58,5% representariam aproximadamente 63,5%.
É um cenário que, se reproduzido nas urnas, definiria a eleição no primeiro turno.
Pesquisa não é resultado de eleição.
Mas é o retrato daquele momento.
E o retrato apresentado pelo Veritá mostra o governador bastante à frente de seus adversários.
João e as dissidências
Para João Rodrigues, existe um desafio que vai além dos números.
Sua candidatura possui oficialmente uma ampla aliança partidária.
Na prática, porém, candidatos e lideranças pertencentes a partidos dessa própria coligação apoiam abertamente Jorginho Mello.
O episódio recente dentro do PP tornou essa realidade ainda mais evidente.
João precisa buscar crescimento enquanto parte de uma estrutura política que formalmente está ao seu lado trabalha pela eleição de seu principal adversário.
É uma dificuldade concreta de qualquer campanha.
Merísio e a mudança de campo
Gelson Merísio enfrenta um desafio diferente.
Em 2018, quando disputou o Governo de Santa Catarina, apoiou Jair Bolsonaro na eleição presidencial.
Hoje está no PSB e disputa o governo pelo campo político que apoia Lula.
Mudanças de posicionamento fazem parte da política e podem produzir consequências eleitorais — favoráveis ou desfavoráveis.
Quem decide como recebê-las é o eleitor.
Existe ainda outro dado para observar.
Os 11,9% registrados por Merísio estão distantes de votações que candidaturas identificadas com a esquerda já alcançaram em Santa Catarina.
Isso não significa que uma eleição possa simplesmente ser transportada para outra.
Mas mostra o tamanho do espaço eleitoral que Merísio ainda precisa buscar dentro do próprio campo que hoje representa.
A pesquisa Veritá, portanto, não apresenta apenas uma fotografia da disputa.
Também ajuda a mostrar os diferentes desafios que cada candidatura possui pela frente.
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