Uma eleição decidida pelas acusações, não pelas propostas

Polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro está consolidada, enquanto o debate sobre projetos para o país perde espaço para uma campanha baseada na desconstrução do adversário

Algumas realidades da eleição presidencial de 2026 já estão suficientemente claras.

A principal delas é a polarização.

Salvo algum acontecimento absolutamente extraordinário, a disputa está concentrada entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro e deverá permanecer assim até outubro.

A chamada terceira via não aconteceu.

Existem outras candidaturas, evidentemente, e elas cumprem seu papel dentro do processo eleitoral. Mas, diante do quadro consolidado nas pesquisas, possuem também uma importância estratégica para seus partidos: manter presença nacional, fortalecer palanques estaduais, ajudar nas disputas proporcionais e tentar ampliar bancadas na Câmara e no Senado.

Quanto maior a bancada, maior será o peso político dessas legendas depois da eleição.

Não existe grande novidade nisso.

O pragmatismo sempre fez parte da política brasileira. Partidos buscam eleger deputados e senadores, ampliar sua força parlamentar e, depois, estabelecer relações com quem estiver no poder.

Pode-se concordar ou discordar dessa forma de fazer política.

Mas ela existe há décadas.

O problema da eleição de 2026 é outro.

E muito mais preocupante.

Estamos assistindo a uma campanha na qual as acusações ocupam o espaço que deveria pertencer às propostas.

Não é preciso acompanhar muitas entrevistas, debates, pronunciamentos ou redes sociais para perceber.

A estratégia predominante é desconstruir o adversário.

Um lado tenta transformar determinado episódio em desgaste para o outro, enquanto o adversário procura responder apresentando algum fato capaz de devolver o ataque.

E assim a campanha avança.

Naturalmente, candidatos precisam responder por seus atos.

O eleitor possui o direito de conhecer a trajetória daqueles que pretendem governar o país.

Nada disso está sendo contestado.

O problema começa quando isso praticamente se transforma na campanha.

Projetos de país deveriam ocupar o centro da eleição.

Não ocupam.

O Brasil possui problemas suficientes para produzir um debate eleitoral extremamente qualificado, mas eles acabam soterrados pelo enfrentamento político diário.

E existe uma razão eleitoral para isso.

Em uma disputa tão polarizada, não basta conquistar votos.

Também é importante aumentar a rejeição do adversário.

A lógica passa a ser simples: quanto mais difícil tornar o voto no outro candidato, maiores são as possibilidades de vencer.

Com isso, a eleição deixa gradativamente de ser uma disputa para convencer o brasileiro sobre quem possui o melhor projeto e passa a ser uma batalha para convencê-lo sobre quem representa o maior risco.

Essa mudança é profunda.

O eleitor deixa de ser estimulado a escolher.

Passa a ser estimulado a rejeitar.

Em vez do voto pela esperança, cresce o voto pelo medo.

Em vez da comparação entre propostas, prevalece a comparação entre acusações.

Em vez de discutir o futuro, discute-se permanentemente o adversário.

E talvez seja exatamente assim que chegaremos a outubro.

Não necessariamente escolhendo aquele que conseguiu apresentar o melhor caminho para o Brasil.

Mas aquele que conseguiu sobreviver melhor à campanha de desconstrução.

Lula tentará convencer o eleitor de que Flávio Bolsonaro representa aquilo que o país não pode ter.

Flávio Bolsonaro tentará convencer o eleitor exatamente do contrário em relação a Lula.

E cada novo episódio será utilizado para alimentar uma dessas duas construções.

Esse é o funil para o qual a campanha está caminhando.

Primeiro, consolidou-se a polarização.

Depois, praticamente desapareceu a possibilidade de uma alternativa competitiva.

Agora, com dois campos políticos disputando voto a voto, a rejeição tornou-se uma das principais armas eleitorais.

E as propostas foram ficando para trás.

Talvez seja possível chegar ao final da campanha conhecendo profundamente todas as acusações feitas contra Lula e Flávio Bolsonaro.

O que não sabemos é se chegaremos ao mesmo dia conhecendo, com a mesma profundidade, o projeto de Brasil de cada um deles.

Essa deveria ser a principal preocupação do eleitor.

Porque acusações podem ajudar alguém a ganhar uma eleição.

Mas não governam um país.

Quando as urnas forem fechadas e a campanha terminar, o Brasil continuará com exatamente os mesmos problemas que possui hoje.

E alguém terá de enfrentá-los.

Por isso, uma eleição presidencial não deveria ser vencida apenas pela capacidade de destruir politicamente o adversário.

Deveria ser vencida pela capacidade de convencer a população de que existe um caminho melhor para o país.

Até agora, infelizmente, estamos vendo muito mais a primeira opção do que a segunda.

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