PERSPECTIVA POLÍTICA – Começou como temíamos
A propaganda eleitoral começa repetindo a estratégia de desconstrução dos adversários, encontro de Flávio Bolsonaro com nomes da Faria Lima provoca reação no Planalto e entrevistas presidenciais deixam propostas em segundo plano.
Na sexta-feira (28), começou a propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão.
Na última edição, esta coluna deixou registrada uma expectativa e também uma preocupação.
Esperávamos que os candidatos utilizassem esse importante espaço para apresentar propostas e projetos para o Brasil.
Ao mesmo tempo, manifestamos nosso ceticismo de que isso realmente aconteceria.
Infelizmente, pelo menos na largada, prevaleceu aquilo que temíamos.
Os dois principais candidatos à Presidência escolheram dedicar parte importante de suas mensagens à desconstrução do adversário.
Um atacando o outro

A campanha de Flávio Bolsonaro direcionou seus ataques a Lula, explorando a relação histórica do presidente com o chavismo e os financiamentos brasileiros destinados a obras em outros países.
A campanha de Lula seguiu caminho semelhante na direção contrária.
Escolheu associar Flávio Bolsonaro ao caso Banco Master e explorar seus contatos e diálogos com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
Dois candidatos.
Duas estratégias.
E uma característica em comum:
o adversário ocupou espaço que poderia ter sido utilizado para apresentar o próprio projeto de país.
Ainda esperamos mais
A campanha está apenas começando.
Existem semanas de propaganda pela frente e haverá tempo suficiente para que Lula, Flávio Bolsonaro e os demais candidatos apresentem suas propostas.
O Brasil possui problemas enormes esperando respostas.
Contas públicas.
Endividamento das famílias e das empresas.
Saúde.
Segurança.
Educação.
Infraestrutura.
Emprego.
Produtividade.
Competitividade.
O eleitor precisa saber o que cada candidato pretende fazer diante deles.
Na última coluna fizemos uma pergunta:
propostas ou mais do mesmo?
O primeiro dia ofereceu uma resposta provisória.
Por enquanto, mais do mesmo.
Esperamos sinceramente poder escrever algo diferente nas próximas semanas.
Efeito Faria Lima
A chamada “Faria Lima” sempre ocupou espaço importante nas análises das eleições presidenciais brasileiras.
A expressão tornou-se uma representação do mercado financeiro nacional, reunindo banqueiros, investidores, gestores e grandes empresários com peso relevante na economia e influência no debate nacional.
O presidente Lula conhece bem esse ambiente e, ao longo de seu governo, manteve interlocução com importantes representantes desse segmento. Alguns deles, inclusive, integram o Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável, o chamado Conselhão.
Na quinta-feira (27), porém, quem esteve sentado à mesa com nomes importantes desse universo foi o candidato Flávio Bolsonaro.
Além de reunião com a direção do Bradesco, Flávio participou de um jantar em São Paulo que reuniu banqueiros, investidores e empresários.
O sinal que chegou ao Planalto
O encontro não passou despercebido pelo governo.
Segundo relatos publicados pela imprensa, Lula e integrantes de seu entorno demonstraram forte incômodo com a presença de alguns empresários e executivos que mantinham interlocução frequente com o governo.
A reação chegou ao ponto de integrantes do governo tratarem o episódio como uma quebra de confiança, especialmente em relação a nomes considerados próximos do presidente.
É justamente aí que aparece o componente político do encontro.
Flávio Bolsonaro conseguiu estabelecer uma interlocução direta com um segmento importante da economia brasileira e, ao mesmo tempo, provocou uma reação dentro do núcleo político de seu principal adversário.
Em uma eleição presidencial equilibrada, sinais também fazem parte da disputa.
E o sinal emitido pela Faria Lima na quinta-feira certamente não foi positivo para a campanha de Lula.
E as propostas ficaram onde?
Terminada a série de entrevistas da TV Globo com os candidatos à Presidência da República, ficou para esta coluna uma sensação de oportunidade parcialmente desperdiçada.
Pela abrangência da emissora, pelo tamanho de sua audiência e pela importância de uma eleição presidencial, aquelas entrevistas representavam uma excelente oportunidade para que milhões de brasileiros conhecessem melhor os projetos daqueles que pretendem governar o país pelos próximos quatro anos.
Não foi exatamente o que vimos.
A pauta escolhida privilegiou problemas já conhecidos, episódios envolvendo os candidatos, contradições e acusações que fazem parte da disputa política.
Como consequência, uma parcela importante do tempo foi consumida pelos entrevistados respondendo, explicando e se defendendo.
O passado importa. Mas e o futuro?
Investigar o passado de quem pretende governar o Brasil é tarefa do jornalismo.
Mas existe outra igualmente importante:
perguntar o que pretende fazer com o futuro.
O Brasil enfrenta problemas enormes nas contas públicas, saúde, educação, segurança, infraestrutura, produtividade, geração de empregos e competitividade.
Quais são as propostas?
Quanto custarão?
De onde virão os recursos?
Quais serão as prioridades?
O que poderá efetivamente ser entregue em quatro anos?
Era uma oportunidade excepcional para colocar essas perguntas diante dos candidatos e permitir que o eleitor comparasse respostas.
Terminadas as entrevistas, conhecemos um pouco mais das explicações de cada candidato sobre aquilo que já aconteceu.
Faltou conhecer melhor o Brasil que cada um pretende construir.
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