PERSPECTIVA POLÍTICA – Na política também existem limites
Ataque contra Raquel Lyra mostra que existem limites que uma eleição não deveria ultrapassar, Lula e Flávio Bolsonaro levam novos capítulos da disputa ao TSE e ausência em debates também entra no cálculo estratégico das campanhas.

Uma eleição pode — e deve — ser uma disputa dura.
Candidatos precisam ter seus governos, trajetórias, propostas, contradições e decisões submetidos ao escrutínio público.
Mas existem limites.
E o que aconteceu neste fim de semana em Pernambuco ultrapassou qualquer fronteira razoável da disputa política.
Cartazes apócrifos foram espalhados pelo Recife associando a governadora e candidata à reeleição Raquel Lyra à morte de seu marido, Fernando Lucena, ocorrida em 2022.
Uma acusação gravíssima, sem qualquer elemento apresentado que lhe dê sustentação.
Não estamos mais falando de crítica política.
Estamos falando da utilização de uma tragédia familiar para atingir uma candidata.
O gesto que também precisa ser registrado
Se o ataque merece nossa mais absoluta reprovação, a reação de João Campos, principal adversário de Raquel Lyra na eleição pernambucana, também merece espaço nesta coluna.
João repudiou publicamente os cartazes e classificou o episódio como um completo absurdo.
Há ainda uma circunstância pessoal que torna sua manifestação especialmente significativa.
João Campos perdeu seu pai, Eduardo Campos, em um acidente aéreo durante a campanha presidencial de 2014. Raquel perdeu o marido durante a eleição de 2022.
São adversários numa eleição.
Mas existem dores que não pertencem à disputa política.
A autoria dos cartazes precisa ser identificada e os responsáveis, submetidos às consequências previstas pela legislação.
Quanto a nós, podemos deixar uma posição muito clara:
disputa política se faz com ideias, propostas, realizações, críticas e cobranças. Tragédia familiar não pode ser transformada em arma eleitoral.
E João Campos fez aquilo que se espera de um adversário democrático:
discordou na política e respeitou a dor no campo humano.
A campanha também acontece no TSE
A campanha eleitoral recém começou, mas a guerra de narrativas, acusações e disputas judiciais já está a todo vapor.
Neste fim de semana, a coligação do presidente Lula acionou o Tribunal Superior Eleitoral pedindo a cassação do registro da candidatura de Flávio Bolsonaro e sua inelegibilidade por suposto abuso de poder econômico durante sua participação na Festa do Peão de Barretos.
Para a campanha de Lula, a estrutura do evento teria sido utilizada eleitoralmente em benefício do candidato, configurando uma espécie de “showmício disfarçado”.
Do outro lado também existe judicialização.
Em fevereiro, após Lula participar do Carnaval do Rio de Janeiro, quando foi homenageado pelo samba-enredo da Acadêmicos de Niterói, o PL acionou o TSE alegando possíveis abusos de poder político e econômico e pediu a produção antecipada de provas sobre o financiamento e a realização do desfile.
E a campanha segue para os tribunais
Caberá à Justiça Eleitoral analisar cada caso e decidir se houve ou não alguma irregularidade.
Para esta coluna, porém, existe outra questão.
A eleição mal começou e parte da disputa política já está sendo transferida para os tribunais.
Barretos de um lado.
Carnaval do outro.
Ações, representações, acusações e pedidos para que a Justiça Eleitoral interfira na disputa.
Enquanto isso, aquilo que temos cobrado desde o início da campanha continua ocupando espaço muito menor:
propostas e projetos para o Brasil.
Talvez seja mais fácil construir uma narrativa contra o adversário do que explicar como equilibrar as contas públicas, melhorar a saúde, enfrentar a violência, aumentar a produtividade, gerar empregos e fazer o país crescer.
Mas é justamente sobre essas respostas que uma eleição presidencial deveria tratar.
A campanha pode até continuar sendo disputada no TSE. O Brasil, porém, continuará esperando propostas.
Presença ou ausência também é estratégia
Esta coluna já defendeu a importância dos debates eleitorais.
São oportunidades para o eleitor comparar candidatos, propostas, conhecimento, capacidade de argumentação e comportamento diante do contraditório.
Mas existe outro lado dessa história.
Participar ou não de um debate também faz parte da estratégia eleitoral.
Para candidatos que aparecem com ampla vantagem nas pesquisas, a ausência pode representar uma decisão calculada.
Quem lidera uma eleição naturalmente se transforma no principal alvo daqueles que precisam crescer.
Quem está atrás precisa criar oportunidades
A lógica é relativamente simples.
O candidato que ocupa uma posição confortável precisa preservar sua vantagem.
Seus adversários precisam modificar o cenário.
E um debate oferece justamente a oportunidade para confrontar diretamente o favorito, explorar suas fragilidades, provocar erros e produzir acontecimentos capazes de alterar a dinâmica da campanha.
Para quem está atrás, portanto, o debate pode representar uma oportunidade.
Para quem está muito à frente, pode representar um risco.
É por isso que algumas campanhas colocam na balança as vantagens e as desvantagens da participação antes de confirmar presença.
E o eleitor?
Existe, porém, alguém que pode perder com essa estratégia:
o eleitor.
Quando um candidato não comparece, desaparece a possibilidade de vê-lo confrontado diretamente pelos adversários e obrigado a responder questões fora do ambiente controlado de sua própria campanha.
Esse custo também precisa entrar no cálculo.
Não cabe à coluna decidir qual estratégia um candidato deve escolher.
Mas podemos compreender a lógica política envolvida.
Quem está atrás precisa encontrar caminhos para crescer. Quem está na frente precisa avaliar os riscos de oferecer essa oportunidade aos adversários.
No meio desse cálculo eleitoral está o eleitor, que gostaria — e mereceria — conhecer melhor todos aqueles que pretendem governá-lo.
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