PERSPECTIVA POLÍTICA

Entre slogans que ganham vida própria nas redes sociais, famílias que passam a disputar simultaneamente diferentes cargos e conflitos internos que chegam ao espaço público, a campanha mostra que na política a forma de comunicar também produz consequências.

Quando o slogan deixa de pertencer à campanha

A criatividade das redes

As redes sociais possuem de tudo.

Informação, criatividade, humor, sátira e ironia convivem no mesmo ambiente com agressões, desinformação, notícias falsas e inúmeras outras práticas bem menos recomendáveis.

Durante as eleições, tudo isso ganha ainda mais intensidade.

Uma frase pronunciada pela manhã pode virar meme à tarde e alcançar milhões de pessoas antes do final do dia.

Agora, um slogan da campanha presidencial oferece mais um exemplo dessa dinâmica.

“O Brasil pronto para mais”

A campanha do presidente Lula escolheu como slogan a frase “O Brasil pronto para mais”.

Foi o suficiente.

Nas redes sociais começaram a aparecer complementos produzidos por críticos e adversários: “para mais déficit primário”, “para mais rombos nas estatais”, “para mais impostos”, entre inúmeras outras variações.

A campanha criou a frase.

A internet apropriou-se dela.

E certamente Lula não será o único.

À medida que os demais candidatos apresentarem slogans, peças publicitárias e frases de campanha, adversários e usuários das redes provavelmente encontrarão maneiras de transformá-los também.

O marketing perdeu o controle da mensagem

Durante muito tempo, campanhas políticas conseguiam controlar razoavelmente suas mensagens.

Um slogan era produzido por profissionais de marketing, repetido na televisão, no rádio, nos comícios e nos materiais eleitorais.

As redes sociais mudaram completamente essa lógica.

Hoje, a campanha controla aquilo que publica.

Não controla aquilo que o público fará com o conteúdo depois da publicação.

Uma frase pensada para produzir determinada percepção pode rapidamente ser transformada em ironia, crítica ou humor.

E muitas vezes a versão criada espontaneamente nas redes alcança repercussão semelhante ou até superior à mensagem original.

Que o humor consiga sobreviver

A política brasileira vive há alguns anos um ambiente excessivamente agressivo.

Adversários passaram muitas vezes a ser tratados como inimigos e divergências políticas transformaram-se em conflitos pessoais.

Nesse ambiente, o humor e a sátira ainda podem oferecer uma maneira menos pesada de manifestar crítica e discordância, desde que permaneçam dentro dos limites do respeito e da verdade.

Certamente teremos momentos muito mais tensos quando a campanha avançar.

Ataques virão de todos os lados.

Acusações também.

Infelizmente, tudo indica que teremos uma eleição bastante confrontativa.

Enquanto isso, pelo menos ainda conseguimos rir de algumas coisas.

Na era das redes sociais, uma campanha pode criar o slogan. Mas, depois que ele entra na internet, ninguém mais consegue controlar aquilo que a criatividade — ou a ironia — dos eleitores fará com ele.


Quando a política também vira assunto de família

Um fenômeno antigo com uma característica nova

Famílias participando da política brasileira não representam qualquer novidade.

Nossa história possui inúmeros exemplos de pais, filhos, irmãos, esposas, maridos e outros parentes que construíram trajetórias na vida pública.

Durante muito tempo, entretanto, esse fenômeno esteve bastante associado à ideia de sucessão.

Um integrante encerrava ou diminuía sua participação e outro aparecia para dar continuidade ao grupo político.

Nos últimos anos, uma característica diferente tornou-se mais visível.

Os familiares passaram a disputar eleições simultaneamente e, em muitos casos, para cargos diferentes.

Santa Catarina oferece vários exemplos

As eleições de 2026 apresentam situações desse tipo também em Santa Catarina.

Carlos Bolsonaro disputa uma vaga no Senado, enquanto seu irmão Jair Renan Bolsonaro, atualmente vereador em Balneário Camboriú, busca uma cadeira na Câmara dos Deputados.

A deputada federal Ana Paula Lima concorre à reeleição enquanto seu marido, Décio Lima, disputa uma vaga ao Senado.

Julia Zanatta também busca novo mandato na Câmara dos Deputados, enquanto seu marido participa da disputa por uma cadeira na Assembleia Legislativa.

O deputado federal Valdir Cobalchini concorre à reeleição, enquanto seu filho João Cobalchini, atualmente vereador de Florianópolis, busca chegar à Assembleia Legislativa.

E existe ainda o casal Amin.

O senador Esperidião Amin disputa a reeleição, enquanto sua esposa, Angela Amin, concorre a uma vaga na Câmara dos Deputados.

São famílias diferentes, partidos diferentes e trajetórias diferentes.

O ponto comum é a participação simultânea de parentes no mesmo processo eleitoral.

Nada existe de irregular

É importante fazer uma distinção.

Não existe qualquer problema democrático no fato de integrantes de uma mesma família disputarem eleições.

Cada candidatura precisa cumprir as exigências legais.

E, principalmente, cada candidato precisa conquistar individualmente os votos necessários para ser eleito.

Sob esse aspecto, a decisão pertence exclusivamente ao eleitor.

Um sobrenome conhecido pode ajudar eleitoralmente.

Mas não substitui a urna.

Da sucessão à participação simultânea

O que merece registro é justamente a transformação do fenômeno.

A política familiar brasileira não desapareceu.

Ela apenas ganhou novas características.

Em vez de necessariamente existir uma passagem de geração para geração, começamos a observar com maior frequência integrantes de uma mesma família construindo carreiras políticas paralelas.

Alguns poderão ser eleitos.

Outros não.

Como sempre, quem determinará isso será o eleitor.

Famílias na política não representam novidade no Brasil. A diferença é que, cada vez mais, não estamos falando apenas de sucessão. Estamos falando de diferentes integrantes da mesma família buscando, simultaneamente, seu próprio espaço nas urnas.


Conflitos existem. A exposição é uma escolha

Uma imagem diferente

Imagem gerada por IA

As gravações do Partido Liberal em Brasília para os programas eleitorais produziram uma imagem que chamou atenção.

Michelle Bolsonaro participou das atividades ao lado de Flávio Bolsonaro poucos dias depois de um confronto público entre os dois.

O episódio anterior ganhou enorme repercussão e expôs divergências familiares e políticas dentro de um dos principais grupos da direita brasileira.

Agora, ao aparecerem juntos novamente, a sinalização pública foi outra.

A de recomposição.

Divergências fazem parte

Michelle Bolsonaro adotou uma postura bastante objetiva ao tratar do assunto.

Não negou que o conflito tenha existido.

Apenas lembrou que divergências acontecem dentro de qualquer família.

E realmente acontecem.

Também ocorrem dentro de partidos, governos, empresas e grupos políticos.

O problema raramente está na existência da discordância.

Está na forma como ela é administrada.

Adversários agradecem

Quando conflitos internos são levados para entrevistas, redes sociais e declarações públicas, deixam de pertencer apenas aos envolvidos.

Passam imediatamente a ser utilizados pelos adversários políticos.

Uma frase gera reação.

A reação produz novas manchetes.

E aquilo que poderia ser resolvido internamente transforma-se em combustível para quem está do outro lado da disputa.

Em campanha eleitoral, esse custo tende a ser ainda maior.

Política também exige disciplina

Correlegionários não precisam concordar em tudo.

Aliás, partidos sem divergências provavelmente não existem.

Mas existe uma diferença entre discutir internamente e oferecer ao adversário um conflito pronto para ser explorado publicamente.

Pelo menos neste momento, Michelle e Flávio Bolsonaro passaram uma mensagem diferente: divergências existiram, mas a campanha segue.

Essa talvez seja a parte mais importante do episódio.

Na política, conflitos são inevitáveis. Transformá-los em espetáculo público é uma escolha — e normalmente quem mais lucra com ela está do outro lado.


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