O início das obras do Parque Urbano e Marina Beira-Mar representa um dos acontecimentos urbanísticos mais relevantes da história recente de Florianópolis. Embora a execução da obra marque apenas o começo de uma transformação física da Baía Norte, sua verdadeira importância está no encerramento de um processo que atravessou décadas de estudos, debates, aperfeiçoamentos técnicos e articulações institucionais. O projeto que hoje deixa o papel não nasceu nesta gestão, tampouco na anterior. Sua origem remonta às discussões sobre a reorganização da frente marítima da cidade iniciadas ainda na década de 1990, quando o Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis já identificava naquele trecho da Beira-Mar Norte uma oportunidade para ampliar os espaços públicos e restabelecer a relação entre a cidade e o mar.

Entretanto, compreender a importância desse empreendimento exige recuar muito além da história do próprio projeto e compreender a própria formação de Florianópolis. Durante séculos, Desterro viveu voltada para o Canal da Ilha de Santa Catarina, que a separa do continente. Antes da construção das pontes e da expansão da malha rodoviária, praticamente toda a circulação de pessoas, mercadorias e informações dependia da navegação. Os navios traziam alimentos, materiais de construção, correspondências, passageiros e até os jornais que informavam os acontecimentos do restante do Brasil e do mundo. A vida econômica, administrativa e social da cidade organizava-se em torno do porto e dos inúmeros trapiches distribuídos ao longo da orla da ilha voltada ao pôr do sol e à Serra do Mar, ao nosso Mar de Dentro.

Essa frente marítima abrigada era, naquele período, uma extensão natural da cidade. A Praia de Fora, a Praia do Müller e a Praia de São Luís integravam uma sequência de enseadas onde conviviam pequenas embarcações de pesca, barcos de transporte de passageiros, atividades comerciais e serviços ligados ao porto nas duas margens do Canal do Estreito e do fundeadouro na Barra Norte. O contato entre a população e o mar era permanente. A economia insular desenvolveu-se justamente porque a navegação permitia conectar Florianópolis ao continente e aos principais centros do país.

Ao longo do século XX essa realidade começou a mudar. A Ponte Hercílio Luz alterou profundamente os fluxos de acesso à Ilha. O sistema rodoviário passou a substituir gradativamente a navegação como principal meio de transporte. Mais tarde, os aterros modificaram completamente a geografia da orla central. A cidade ganhou novas avenidas, áreas para expansão urbana e espaços destinados ao automóvel, mas perdeu parte da relação física que durante mais de duzentos anos manteve com o mar. O centro histórico deixou de tocar a água. A paisagem marítima permaneceu, porém a vivência cotidiana do grande canal foi sendo reduzida.

É justamente nesse contexto histórico que o Parque Urbano e Marina Beira-Mar encontra seu verdadeiro significado. Seu principal objetivo não é simplesmente construir uma marina. Conforme os estudos apresentados pelo Município, a proposta reúne parque urbano, equipamentos de lazer, áreas esportivas, integração com futuros sistemas de transporte marítimo e terrestre, novos espaços de convivência e infraestrutura náutica pública, procurando resgatar a relação da cidade com a Baía Norte e qualificar um dos espaços públicos mais frequentados de Florianópolis. Os próprios estudos técnicos que embasaram o empreendimento destacam que a área foi escolhida por apresentar condições geotécnicas, batimétricas e ambientais favoráveis, reduzindo intervenções no fundo da baía e a necessidade de dragagens mais extensas.

Quando o grande pensador da cidade, na atualidade, empresário Valério Gomes Neto, resolveu retomar essa agenda, a implantação de uma marina na Baía Norte já integrava as discussões sobre o futuro da orla central de Florianópolis. Sua contribuição consistiu em ampliar o alcance da proposta, inserindo-a em uma visão mais abrangente de arquitetura e urbanismo, na qual a marina deixava de ser um equipamento isolado para integrar um processo de requalificação da frente marítima e de reconexão da cidade com o mar. A valorização dos espaços públicos, a qualificação da paisagem urbana, a criação de novas centralidades e a integração entre lazer, mobilidade, turismo, gastronomia e economia do mar passaram a compor uma mesma concepção de desenvolvimento urbano. Essa visão não se limitou ao Parque Urbano e Marina Beira-Mar. Ao longo de sua trajetória empresarial, inicialmente com a Cidade Pedra Branca, em Palhoça, e posteriormente por meio da Hurbana, empresa que conduz ao lado de seu filho Marcelo Gomes, Valério participa da implantação e do desenvolvimento de empreendimentos que buscam aplicar esses mesmos princípios urbanísticos em diferentes escalas. Projetos como a Cidade Pedra Branca, o Passeio Pedra Branca, o Passeio Primavera, em Florianópolis, o Passeio Sapiens, no Sapiens Parque, e a Cidade das Águas, em Joinville, entre outras iniciativas desenvolvidas em Santa Catarina, refletem uma mesma compreensão da cidade como espaço de convivência, caminhabilidade, usos mistos, inovação e valorização dos espaços públicos. O Parque Urbano e Marina Beira-Mar insere-se naturalmente nessa mesma linha de pensamento, propondo que a Baía Norte volte a desempenhar papel central na vida urbana da Capital.

Quando Valério, há cerca de 10 anos, resolveu resgatar a agenda da marina, ainda não existia uma base técnica minimamente consolidada para sustentar decisões de longo prazo. Foi nesse contexto que, consultado por ele, recomendei a contratação da CB&I – Chicago Bridge & Iron Company, sob a coordenação do oceanógrafo catarinense, mundialmente renomado, Lindino Benedet, hoje radicado nos EUA, para a realização de estudos especializados envolvendo batimetria, geofísica, geotecnia e condições marítimas da área pretendida. Posteriormente, esse acervo técnico foi doado à centenária Associação Empresarial de Florianópolis (ACIF), permitindo que permanecesse disponível como patrimônio institucional da cidade e servisse de referência para as etapas que se sucederiam.

A atuação da Associação Empresarial de Florianópolis merece registro especial. Muito além da representação do setor produtivo, a entidade assumiu papel relevante na discussão de projetos estruturantes para o futuro da Capital, como a recuperação ambiental de praias degradadas pela erosão, algumas agora engordadas, e a dragagem de manutenção do Canal da Barra da Lagoa, já executada. Foi nesse ambiente institucional que a proposta encontrou liderança e continuidade, com a participação fundamental de outras entidades, como a ACATMAR – Associação Náutica Brasileira e a SOAMAR/SC – Sociedade de Amigos da Marinha, entidade civil vinculada à Capitania dos Portos de Santa Catarina. A preservação dos estudos, o amadurecimento das discussões e a interlocução permanente com diferentes governos permitiram que o projeto sobrevivesse às mudanças de administração e continuasse evoluindo tecnicamente. Tive igualmente a oportunidade e orgulho de integrar a diretoria da ACIF, na condição de diretor de Turismo; da ACATMAR, como presidente da Comissão de Gerenciamento Costeiro; e da SOAMAR/SC, como seu presidente por dois mandatos, acompanhando a parte inicial desse processo de construção institucional. Posteriormente cerrei fileiras com todos aqueles engajados em defender o projeto do ativismo ideológico e judicial que irresponsavelmente se ergueu contra ele.

Entre os dirigentes da ACIF que posteriormente levaram essa visão para a administração pública destaca-se Juliano Richter Pires. Após sua atuação na diretoria da Associação Empresarial de Florianópolis, passou a exercer funções públicas ligadas ao desenvolvimento econômico da Capital, contribuindo para aproximar uma agenda construída no âmbito da sociedade civil organizada da estrutura administrativa do Município. Nesse período, acompanhou a evolução institucional do Parque Urbano e Marina Beira-Mar, articulando a continuidade do projeto, o diálogo entre os diversos órgãos públicos, o aperfeiçoamento dos estudos e os procedimentos necessários para que uma proposta debatida durante décadas pudesse finalmente alcançar sua fase de execução. Concluída a estruturação da concessão pública, a concorrência internacional promovida pelo Município teve como vencedora a JOTA ELE MARINA SPE S.A., que será responsável pela implantação, operação, gestão e manutenção do Parque Urbano e Marina Beira-Mar, concretizando um investimento privado destinado a ampliar a infraestrutura náutica da Capital e a devolver à população um espaço público qualificado e integrado à Baía Norte.

Grandes cidades costeiras costumam construir sua identidade valorizando suas frentes d’água. Em diferentes partes do mundo, antigas áreas portuárias e espaços subutilizados passaram por processos de requalificação urbana que combinaram lazer, mobilidade, turismo, preservação ambiental e atividades econômicas. Florianópolis, cuja história sempre esteve profundamente vinculada ao mar, demorou muito mais tempo do que outras cidades para retomar essa discussão.

O Parque Urbano e Marina Beira-Mar deve ser compreendido exatamente sob essa perspectiva histórica. Não se trata de criar uma vocação náutica inexistente, mas de reconhecer uma característica que sempre definiu Florianópolis e que, ao longo do século passado, foi parcialmente obscurecida pelas transformações urbanas. A cidade nasceu olhando para o Canal da Ilha de Santa Catarina em suas expressões norte, sul e principalmente central. Viveu durante séculos em função da navegação. Cresceu graças ao porto, aos trapiches e às embarcações que garantiam sua ligação com o restante do país. Ao aproximar novamente a população do mar, o empreendimento estabelece uma ponte entre a cidade contemporânea e a história que lhe deu origem. É, verdadeiramente, um resgate histórico, agora materializado por um equipamento de padrão internacional.

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