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Ontem, Derly Anunciação publicou no DMA Notícias o artigo “Bomba-relógio de 2027: a conta já está sendo formada”. O cenário que se projeta para o próximo governo é suficientemente grave para deslocar a discussão da eleição para o dia seguinte. Partindo da hipótese de Flávio Bolsonaro eleito presidente da República, a questão passa a ser o que poderá fazer, com que instrumentos e a partir de qual base econômica. E aqui há um ponto que costuma desaparecer do debate: Flávio não começará do zero. Apesar da deterioração fiscal dos últimos anos, ainda encontrará estruturas construídas durante o governo Jair Bolsonaro, sob a condução econômica de Paulo Guedes, que impediram que o quadro se tornasse ainda pior e que poderão servir novamente de ponto de apoio a partir de 2027.

Isso ganha ainda mais relevância quando se recorda o ambiente enfrentado entre 2019 e 2022. Vieram a pandemia, a maior paralisação econômica global em muitas décadas, a crise hídrica e energética de 2021 e, em seguida, a guerra na Ucrânia, com seus efeitos sobre petróleo, fertilizantes, alimentos, cadeias logísticas e inflação mundial. Mesmo assim, o governo terminou deixando uma reforma previdenciária capaz de conter uma trajetória explosiva de despesas, autonomia formal do Banco Central, novos marcos regulatórios, concessões em larga escala, abertura de setores ao capital privado, desburocratização e a capitalização da Eletrobras. A reforma da Previdência é o exemplo mais evidente: as projeções da Instituição Fiscal Independente já apontavam economia de centenas de bilhões de reais ao longo da década apenas no Regime Geral. Sem ela, a pressão sobre o orçamento de hoje seria muito maior. O novo Marco Legal do Saneamento atraiu investimentos privados numa escala inédita, aeroportos, rodovias, ferrovias e portos foram concedidos, a Nova Lei do Gás abriu mercado, a Lei da Liberdade Econômica eliminou entraves e milhares de atos normativos foram revogados. O Estado continuou pesado, mas deixou de ser, em diversas áreas, o único financiador possível.

Parte relevante desse legado atravessou os anos seguintes. Investimentos contratados continuaram sendo executados depois de 2022, a reforma previdenciária continuou evitando expansão ainda maior da despesa, a autonomia do Banco Central permaneceu como trava institucional contra mudanças imediatas na política monetária e vários marcos regulatórios seguiram permitindo investimentos privados sem depender diretamente do Tesouro. Isso não resolve o problema de 2027, mas muda completamente o ponto de partida. Flávio poderá retomar uma agenda já conhecida, com quadros técnicos que passaram pelo governo anterior e sabem onde estão os gargalos da máquina pública, em vez de começar outra vez da estaca zero.

Daniella Marques, ex-presidente da Caixa e integrante da equipe de Paulo Guedes, aparece no centro dessa formulação e vem reunindo economistas, profissionais do mercado e especialistas em energia, infraestrutura, desestatização e gestão pública. O ajuste discutido pela equipe chega a aproximadamente 1,5% do PIB, o que, dependendo do tamanho nominal da economia em 2027, significa algo próximo de duas centenas de bilhões de reais. Não será uma conta resolvida com corte de cafezinho, redução de viagens ou extinção de alguns ministérios. Mais de 90% das despesas primárias federais são obrigatórias e grande parte do orçamento está protegida por lei ou pela própria Constituição. É aí que a comparação com Javier Milei ajuda a entender o tamanho da mudança necessária, mas também suas diferenças.

Milei assumiu uma Argentina em situação muito mais desorganizada, com inflação anual acima de 200%, déficit crônico, reservas comprometidas, múltiplas distorções cambiais e subsídios gigantescos. Respondeu com forte redução do gasto, corte de subsídios, desregulação e disciplina fiscal transformada em eixo de governo. A Argentina voltou a registrar superávits primários e a inflação despencou em relação aos níveis encontrados no início do mandato. O mais importante desse caso não é a motosserra como imagem, mas a demonstração de que expectativas mudam rapidamente quando o mercado percebe que a trajetória fiscal mudou de direção. O Brasil parte de condições muito melhores: reservas internacionais expressivas, câmbio flutuante, sistema bancário sólido, dívida majoritariamente em reais, agronegócio competitivo, petróleo, minérios, energia e mercado consumidor de dimensão continental. O problema brasileiro não é reconstruir a moeda, mas impedir que dívida, juros e despesas obrigatórias continuem comprimindo o Estado até sufocá-lo.

É por isso que um ajuste bem desenhado pode produzir efeito muito maior do que o valor diretamente economizado. Se o governo convencer o mercado de que a dívida deixará de crescer de forma descontrolada, o prêmio de risco tende a cair, o Tesouro passa a refinanciar sua dívida em condições melhores, a despesa financeira diminui, as expectativas de inflação recuam e abre-se espaço para juros menores. Juros menores reduzem o custo do crédito, estimulam investimento e tornam a própria consolidação fiscal menos dolorosa. O ponto central não é apenas gastar menos, mas mudar a expectativa sobre a solvência futura do Estado.

Nesse aspecto, a agenda de Paulo Guedes pode voltar a ser relevante. Concessões, privatizações, desregulação, abertura ao investimento e redução do peso direto do Estado permitem que o governo diminua despesas sem necessariamente reduzir na mesma proporção o investimento total. Uma ferrovia não precisa ser construída pelo Tesouro para existir, um porto não precisa ser administrado pelo Estado para movimentar carga e uma rodovia pode ser concedida sem consumir orçamento público. Energia, mineração, saneamento, telecomunicações, infraestrutura digital e logística podem crescer com capital privado enquanto o governo concentra recursos naquilo que de fato precisa continuar sob sua responsabilidade. O mesmo vale para o patrimônio da União: imóveis, terrenos, participações societárias e outros ativos improdutivos permanecem imobilizados enquanto o Estado paga juros elevados sobre uma dívida gigantesca. Vender patrimônio para financiar despesa corrente é apenas adiar o problema; vender patrimônio para amortizar dívida altera a estrutura financeira do Estado e reduz encargos futuros.

É nesse ponto que Donald Trump passa a ter importância econômica concreta. A experiência recente com Javier Milei mostrou que Washington está disposto, em determinadas circunstâncias, a transformar afinidade política em instrumentos financeiros e estratégicos. No caso brasileiro, porém, o principal ganho provavelmente não viria de ajuda financeira direta, mas de comércio, investimento, financiamento e reposicionamento geopolítico. Os Estados Unidos procuram reduzir sua dependência da China em minerais críticos, terras raras, energia, tecnologia e cadeias industriais estratégicas. O Brasil possui exatamente esses ativos, além de petróleo, gás, enorme produção agrícola, infraestrutura a ser construída e espaço para expansão em data centers, inteligência artificial, defesa, mineração, logística e energia. Um alinhamento estreito entre Flávio e Trump poderia transformar relação política em carteira concreta de investimentos numa escala muito superior à atual.

Esse movimento permitiria combinar duas coisas que normalmente aparecem como opostas: ajuste fiscal e expansão do investimento. O Estado corta, concede, vende ativos e reduz sua necessidade de capital enquanto empresas privadas brasileiras e estrangeiras ocupam parte desse espaço. Austeridade, nesse modelo, não significa simplesmente retração; significa trocar o financiador e liberar o orçamento público de atividades que o setor privado pode executar melhor e com menos risco fiscal. É justamente aí que o Brasil pode adaptar a experiência argentina às próprias condições, sem copiar Milei. A Argentina precisou cortar porque praticamente esgotou suas alternativas. O Brasil ainda possui ativos, reservas, mercado e instituições suficientes para ajustar antes de chegar àquele ponto.

O maior obstáculo estará no Congresso. Extinguir ministérios, rever cargos, privatizar determinados ativos e reduzir despesas discricionárias depende muito mais do Executivo, mas mexer nas estruturas que empurram automaticamente o gasto para cima exigirá maiorias constitucionais. São 308 deputados e 49 senadores, em dois turnos em cada Casa. Por isso a eleição parlamentar de 2026 terá consequência econômica direta. Uma equipe que chegue à transição com uma PEC fiscal pronta poderá usar os primeiros meses de governo, quando o presidente ainda dispõe de maior capital político, para enfrentar rapidamente aquilo que não pode ser resolvido por decreto. A motosserra brasileira terá menos espetáculo e mais voto, menos decreto e mais PEC, menos emergência cambial e mais ataque estrutural à dívida.

Jair Bolsonaro e Paulo Guedes atravessaram pandemia, crise hídrica e guerra no exterior deixando reformas, marcos regulatórios, concessões e mecanismos que continuaram produzindo efeitos depois deles. Isso impediu que parte da deterioração fosse maior e deixará a Flávio instrumentos que poderão ser retomados e aprofundados. Se a equipe econômica conseguir combinar ajuste fiscal, redução do peso do Estado, privatizações, concessões, atração de capital e um novo eixo econômico com os Estados Unidos, 2027 poderá marcar uma mudança muito mais profunda do que uma simples alternância de governo. O desafio não será administrar a bomba-relógio descrita por Derly Anunciação, mas desmontar suas engrenagens antes que o ponteiro chegue ao zero.

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