Como já lembramos em artigo anterior, Esperidião Amin (PP) decidiu apoiar a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em outubro de 2006. O Mensalão já havia explodido mais de um ano antes e atingido o núcleo político de sustentação do primeiro governo petista. José Dirceu (PT), ministro-chefe da Casa Civil e um dos homens mais poderosos da República, deixara o governo e tivera o mandato de deputado federal cassado. José Genoino (PT) saíra da presidência nacional do partido e Delúbio Soares (PT), da tesouraria. Em 30 de março daquele ano, a Procuradoria-Geral da República denunciara 40 pessoas ao Supremo Tribunal Federal. Amin sabia perfeitamente o tamanho da crise política que cercava o governo cuja continuidade resolveu apoiar.

Depois de dez meses de investigação, a CPI dos Correios concluiu que houve pagamento de propina a parlamentares para mudança de partido ou apoio ao governo em votações na Câmara. O relatório distinguiu o Mensalão do simples caixa dois eleitoral e recomendou providências contra mais de cem pessoas. A denúncia da PGR descrevia núcleos político-partidário, publicitário e financeiro e atribuía aos diferentes acusados crimes como corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro, peculato, evasão de divisas e gestão fraudulenta. Entre os denunciados estavam Dirceu, Genoino, Delúbio, o publicitário Marcos Valério e dirigentes do Banco Rural.

A dimensão financeira também impressionava. A CPI investigou empréstimos, saques e repasses envolvendo o PT, empresas de Marcos Valério e instituições financeiras. Havia nomes, contas, bancos, contratos, intermediários e dezenas de milhões de reais sob investigação. Quando Amin resolveu apoiar Lula, o caso já provocara investigação parlamentar, cassação de mandato, quedas na cúpula petista e denúncia criminal perante o Supremo. Mesmo assim, quando os votos do PT passaram a interessar ao seu projeto eleitoral em Santa Catarina, fechou os olhos para tudo aquilo.

E o Mensalão não era a única crise daquele primeiro mandato. Antonio Palocci (PT), ministro da Fazenda, deixara o cargo em março de 2006 depois do caso envolvendo o caseiro Francenildo Costa e a quebra ilegal de seu sigilo bancário. Em maio, a Operação Sanguessuga revelou fraudes envolvendo a compra de ambulâncias com recursos de emendas parlamentares. Em setembro, em plena campanha presidencial, a Polícia Federal apreendeu cerca de R$ 1,7 milhão em reais e dólares destinados à compra de um dossiê contra políticos tucanos. Os envolvidos ligados ao PT acabaram conhecidos como os “aloprados”, expressão usada pelo próprio Lula.

Foi nesse cenário que Amin fez seu cálculo eleitoral. Disputava o segundo turno catarinense contra Luiz Henrique da Silveira (PMDB) e buscava os votos do eleitorado de José Fritsch (PT), eliminado na primeira rodada. Lula enfrentava Geraldo Alckmin (PSDB). O PT queria Amin trabalhando pela reeleição presidencial; Amin queria a militância petista contra Luiz Henrique. Em 23 de outubro, aderiu publicamente a Lula, colou o adesivo 13 no peito e percorreu Tubarão, Araranguá e Criciúma. Em busca do apoio da militância petista em Santa Catarina, declarou voto em Lula e passou a trabalhar por sua reeleição.

Amin perdeu para Luiz Henrique. Lula derrotou Alckmin e conquistou o segundo mandato. O cálculo fracassou nas urnas catarinenses, mas a decisão ficou registrada em sua biografia: depois de tudo o que já se sabia sobre o primeiro mandato, Amin colocou seu capital político a serviço da permanência de Lula no Palácio do Planalto por mais quatro anos.

E vieram mais quatro anos marcados por novos escândalos. Em 2007, a Operação Navalha investigou suspeitas de fraudes em licitações e contratos de obras públicas e atingiu o Ministério de Minas e Energia, culminando na saída de Silas Rondeau. Em 2008, a crise dos cartões corporativos expôs gastos e saques realizados com recursos públicos, levou à saída da ministra Matilde Ribeiro e à instalação de uma CPI no Congresso. Em 2010, a Casa Civil voltou ao centro das denúncias: Erenice Guerra deixou o ministério em meio a acusações de tráfico de influência envolvendo familiares e empresas interessadas em negócios com o poder público.

Vinte anos depois, a política catarinense apresenta uma inversão curiosa. Amin, que em 2006 buscou os votos petistas e aderiu a Lula, aparece agora em manifestações de eleitores da esquerda nas redes sociais como possibilidade de voto útil para impedir que o bolsonarismo conquiste simultaneamente as duas vagas catarinenses ao Senado. A explicação está no quadro eleitoral: as duas candidaturas bolsonaristas lideram a disputa, enquanto Décio Lima (PT) permanece distante delas.

Considerando a soma do primeiro e do segundo votos, a Paraná Pesquisas divulgada em 23 de setembro coloca Caroline de Toni (PL) na liderança com 42,3%, seguida por Carlos Bolsonaro (PL), com 36%, Esperidião Amin, com 34,2%, e Décio Lima, com 15,6%. A Neokemp já havia mostrado o mesmo desenho: Caroline com 49,9%, Carlos com 43,6%, Amin com 37,1% e Décio com 25,5%. Cada eleitor catarinense escolherá dois senadores. Nos dois levantamentos, portanto, as candidaturas bolsonaristas ocupam numericamente as duas primeiras posições, Amin vem imediatamente atrás e o candidato petista aparece bem mais distante.

É justamente essa distância que ajuda a explicar o surgimento do voto útil em Amin entre eleitores contrários à eleição conjunta de Carlos e Caroline. A ironia histórica é evidente: em 2006, Amin precisava da esquerda para tentar derrotar Luiz Henrique e aderiu a Lula; em 2026, petistas discutem recorrer a Amin para tentar impedir que os dois candidatos identificados com o bolsonarismo ocupem as vagas catarinenses no Senado.

A escolha de Amin em 2006 foi feita depois do Mensalão, da CPI dos Correios, da cassação de Dirceu, da denúncia da PGR contra 40 pessoas, da saída de Palocci, da Operação Sanguessuga e do episódio dos “aloprados”. Nada disso o impediu de pedir aos catarinenses mais quatro anos para Lula. Duas décadas depois, a mesma conveniência eleitoral aproxima novamente personagens que deveriam estar em lados opostos da disputa.

Amin viu o Mensalão, fechou os olhos para conquistar votos petistas e botou o 13 no peito. Vinte anos depois, os interesses voltam a se encontrar. Setores da esquerda enxergam em Amin o voto útil para tentar impedir a eleição conjunta de Carlos Bolsonaro e Caroline de Toni; Amin também precisa ampliar sua votação para alcançar os dois candidatos que aparecem à sua frente nos levantamentos citados. Para isso, não bastam os votos do Centrão e da direita de memória curta, que esqueceu ou prefere esquecer sua adesão a Lula em 2006. Amin precisa novamente de votos da esquerda. A esquerda, por sua vez, vê nele uma possibilidade de barrar a dobradinha bolsonarista. Duas décadas depois, o 13 que Amin botou no peito não é apenas memória: ajuda a explicar uma convergência eleitoral que reaparece quando interessa aos dois lados.

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