O BRASILEIRO ESTÁ CRIANDO JUÍZO?

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Causa-me espanto e, sobretudo, profunda decepção constatar que, depois de tudo o que o Brasil já conheceu dos governos do PT, de Lula e de seus métodos políticos, o atual presidente ainda consiga disputar uma eleição em condições de igualdade com qualquer candidato de oposição. As pesquisas divulgadas nos últimos dias mostram justamente isso. No segundo turno, Lula e Flávio Bolsonaro aparecem tecnicamente empatados, com diferenças que estão dentro das margens de erro. O resultado é surpreendente, sobretudo porque não estamos diante de alguém que esteja chegando agora à vida pública, mas de um presidente que governa o país desde janeiro de 2023 e de um partido que já comandou o Brasil por quatro mandatos.

Há, porém, outro aspecto desse cenário que merece atenção. Jair Bolsonaro foi impedido de disputar a Presidência da República e hoje se encontra submetido à prisão domiciliar e a severas restrições de comunicação, inclusive à proibição de utilizar redes sociais diretamente ou por intermédio de terceiros. Na minha avaliação, a retirada de Bolsonaro do processo eleitoral não pode ser dissociada do receio de que sua presença, sua capacidade de comunicação e sua influência sobre parcela expressiva do eleitorado alterassem profundamente a disputa. Donald Trump, por sua vez, tem manifestado reiteradamente sua indignação diante do tratamento dispensado ao ex-presidente brasileiro. O fato é que Bolsonaro está fora do jogo, enquanto Lula, seu principal adversário político, permanece plenamente habilitado a disputar a eleição e exerce o cargo de presidente da República.

Ainda assim, o que mais chama minha atenção não está propriamente na vantagem ou desvantagem de cada candidato, mas no movimento que começa a aparecer dentro do eleitorado mais pobre, justamente aquele que durante anos foi considerado território praticamente cativo do lulismo. Pesquisa BTG/Nexus mostrou que, entre os beneficiários do Bolsa Família, Lula tinha 68% das intenções de voto em junho, contra apenas 13% de Flávio Bolsonaro. Em julho, Lula caiu para 58%, enquanto Flávio subiu para 25%. Em agosto, houve oscilações, mas a tendência permaneceu: na rodada divulgada em 24 de agosto, Lula aparecia com 61% entre os beneficiários do programa, contra 27% de Flávio. A distância, que chegava a 55 pontos percentuais em junho, havia caído para 34 pontos.

Seria precipitado interpretar esse movimento como súbita conversão ideológica do eleitor beneficiário do Bolsa Família. O fenômeno parece ter relação muito mais direta com aquilo que acontece dentro de casa, no supermercado, na farmácia, na conta de luz, no transporte e nas prestações que chegam ao fim do mês. O eleitor pobre não vive de discurso econômico, mas de orçamento doméstico. E quando o dinheiro recebido não acompanha o aumento do custo de vida, a percepção sobre o governo começa a mudar, independentemente da propaganda oficial.

O próprio IBGE mostra que a inflação que atinge as famílias de menor renda continua sendo particularmente sensível aos preços dos itens básicos. O INPC, índice destinado às famílias com renda de um a cinco salários mínimos, acumulava 4,33% em doze meses até junho de 2026, enquanto o IPCA estava em 4,64%. A diferença não significa que o pobre esteja protegido da inflação. Ao contrário: sua cesta de consumo é mais concentrada em alimentação, medicamentos, transporte e outros gastos dos quais não consegue simplesmente abrir mão. Em maio, por exemplo, a alimentação no domicílio subiu 1,65%, contribuindo fortemente para a inflação daquele mês.

Há ainda outro componente que costuma desaparecer das estatísticas eleitorais: o endividamento. Pesquisa da Fundação Getulio Vargas mostrou que 54,1% das pessoas com renda de até três salários mínimos declaravam, em abril, que suas famílias estavam muito ou razoavelmente endividadas. Quase 40% tinham dívidas em atraso e 18% não conseguiam sequer pagar aquilo que deviam.

E existe ainda uma ironia perversa nesse modelo. Não é correto dizer que o pobre paga mais impostos, em valores absolutos, do que o rico. O que ocorre é que os impostos consomem parcela muito maior da renda de quem ganha pouco. O brasileiro de baixa renda praticamente precisa gastar tudo o que recebe para sobreviver, enquanto quem tem renda elevada consegue poupar e investir parte significativa do que ganha. Como grande parcela da arrecadação brasileira está embutida no consumo de bens e serviços, o peso relativo da tributação acaba sendo muito maior sobre as famílias pobres.

É nesse ponto que o Bolsa Família precisa ser analisado para além do valor nominal anunciado pelo governo. O benefício mínimo permanece em R$ 600 desde a reformulação do programa, em março de 2023, sem reajuste que acompanhe sistematicamente a evolução do custo de vida. O beneficiário recebe os R$ 600, mas, ao utilizar esse dinheiro para comprar alimentos, produtos de higiene, roupas, medicamentos e outros bens e serviços, paga os tributos que estão embutidos nos preços. O Estado transfere dinheiro com uma mão e recolhe parte dele com a outra. Quanto menor a renda, maior tende a ser a parcela do dinheiro destinada ao consumo e, portanto, maior o peso relativo dessa tributação.

É possível, portanto, que a mudança observada entre os beneficiários do Bolsa Família não represente propriamente uma mudança ideológica, mas algo muito mais elementar: a percepção de que o dinheiro recebido pelo governo vale cada vez menos diante das despesas da vida cotidiana. Quando o benefício entra na conta e desaparece rapidamente no supermercado, a propaganda perde força. Quando a renda não acompanha os preços e as dívidas se acumulam, o eleitor começa a fazer contas. E, quando começa a fazer contas, passa a comparar o que recebe com aquilo que efetivamente consegue comprar.

É justamente por isso que considero tão importante a aproximação entre Lula e Flávio Bolsonaro nas pesquisas. Não porque isso signifique que Flávio já tenha vencido a eleição, o que evidentemente não ocorreu, mas porque revela que o eleitorado brasileiro não está necessariamente condenado à fidelidade eterna a determinado campo político. As pesquisas recentes mostram um cenário aberto e, sobretudo, mostram que mudanças de percepção podem ocorrer até mesmo dentro de segmentos que durante anos foram tratados como patrimônio eleitoral de Lula.

O Brasil ainda está longe de ter resolvido seus problemas políticos. A situação institucional continua grave, a liberdade de expressão encontra limites que considero incompatíveis com uma democracia saudável e a exclusão de Jair Bolsonaro da disputa eleitoral alterou profundamente o cenário de 2026. Mas, se o eleitor começar a olhar menos para os discursos e mais para aquilo que acontece em sua própria vida, talvez estejamos diante de mudança muito mais profunda do que aquela revelada por alguns pontos percentuais de uma pesquisa.

O brasileiro está criando juízo? Ainda é cedo para afirmar. Mas, pela primeira vez em muito tempo, começam a surgir sinais de que até mesmo o eleitor que parecia definitivamente incorporado ao lulismo está fazendo contas, comparando resultados e percebendo que benefício nominal não significa necessariamente melhoria de vida. E, no fim das contas, é no bolso que a realidade costuma falar mais alto.

Tomara que sim.

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