ALERTAS NECESSÁRIOS

Neste mês, o governo federal passou a discutir medidas para priorizar o desembarque de fertilizantes minerais nos portos brasileiros, procurando assegurar o abastecimento das próximas safras diante de uma perturbação concreta no mercado internacional. A preocupação imediata está relacionada ao conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã e aos seus efeitos sobre a circulação marítima pelo Estreito de Ormuz, passagem estratégica para os países do Golfo Pérsico e para o comércio mundial de energia. A crise alcança diretamente o mercado de fertilizantes porque a região concentra parcela relevante da produção e das exportações de nitrogenados, especialmente ureia, cuja fabricação depende intensamente do gás natural. Segundo dados reunidos pelo Banco Central, o Oriente Médio respondeu por 14,5% das importações brasileiras de fertilizantes em 2025 e por cerca de 22% dos nitrogenados adquiridos no exterior, enquanto a região representa aproximadamente um terço do comércio mundial de ureia.
A exposição brasileira precisa ser compreendida dentro de uma dependência externa muito maior. O país importa mais de 80% dos fertilizantes que utiliza e trouxe do exterior cerca de 45,5 milhões de toneladas em 2025, novo recorde. Naquele ano, as importações custaram aproximadamente US$ 15,5 bilhões e representaram perto de 5% de tudo o que o Brasil importou. A Rússia respondeu por 25,9% do fornecimento, a China por 18,8% e os países do Oriente Médio, considerados em conjunto, por 14,5%. Quase 60% das compras brasileiras ficaram concentradas nesses três grandes eixos de abastecimento.
A Rússia permanece envolvida na guerra contra a Ucrânia e submetida a um ambiente internacional de sanções e restrições econômicas, ainda que os fertilizantes tenham recebido tratamentos específicos em diferentes regimes sancionatórios e continuem chegando ao Brasil em volumes relevantes. A China, além de grande fornecedora, administra sua oferta externa de fertilizantes de acordo com prioridades internas e já adotou restrições às exportações em determinados períodos. No Oriente Médio, a instabilidade alcança produtores relevantes de nitrogenados e rotas essenciais ao comércio internacional. A Bielorrússia, por sua vez, permanece importante no mercado mundial de potássio e sujeita a sanções ocidentais. São circunstâncias diferentes, mas que incidem sobre uma mesma vulnerabilidade brasileira: a necessidade de buscar no exterior a maior parte dos nutrientes que sustentam uma das maiores agriculturas do mundo.
Há ainda uma dimensão temporal importante. A avaliação divulgada pelo Banco Central em junho indicava que os efeitos sobre a produção brasileira de grãos de 2026 tenderiam a ser limitados, porque grande parte dos fertilizantes necessários já havia ingressado no país antes do agravamento da crise. A preocupação maior recai sobre os ciclos seguintes, especialmente porque parcela relevante das importações brasileiras ocorre no segundo semestre. É nesse contexto que surge, neste mês, a articulação entre o Ministério da Agricultura e Pecuária e o Ministério de Portos e Aeroportos para acelerar o desembarque dos fertilizantes que chegam ao Brasil e impedir que uma dificuldade internacional de abastecimento seja agravada por atrasos na logística doméstica.
A preocupação é legítima. A agricultura obedece a calendários que não podem ser indefinidamente deslocados, e a indisponibilidade do nutriente adequado no período necessário pode afetar produtividade, custos e produção. As consequências ultrapassariam as propriedades rurais, alcançando preços dos alimentos, renda agrícola, agroindústria, exportações e balança comercial. Uma potência agrícola que depende maciçamente do exterior para fertilizar suas lavouras precisa assegurar que os produtos disponíveis e efetivamente adquiridos cheguem às regiões produtoras dentro das respectivas janelas de utilização.
A discussão sobre a prioridade portuária começa exatamente nesse ponto. A elevada dependência externa explica a preocupação com o abastecimento, enquanto o risco geopolítico reforça a necessidade de antecipação e planejamento. Para que uma preferência de desembarque seja a resposta logística adequada, é necessário identificar onde a espera portuária ameaça concretamente o abastecimento, quais instalações enfrentam congestionamento relevante, quais fertilizantes estão envolvidos e qual a urgência efetiva de cada carga.
A discussão tornada pública ainda não veio acompanhada de um diagnóstico nacional suficientemente detalhado que permita conhecer quantos navios necessitariam de prioridade, em quais portos, durante quanto tempo, quais berços seriam utilizados e quais embarcações perderiam suas posições na programação. Também é necessário relacionar os volumes considerados críticos aos estoques disponíveis, às cargas já contratadas e embarcadas e às respectivas janelas agrícolas. Somente a partir desse quadro será possível determinar onde a prioridade constitui uma necessidade concreta e onde outras medidas logísticas podem produzir resultados superiores.
Prioridade somente existe quando há disputa por um recurso escasso. Se determinado berço possui capacidade para receber normalmente os navios programados, a preferência perde relevância. Se opera próximo do limite e existe uma fila, antecipar uma embarcação significa postergar outra. A decisão pode ser plenamente justificável quando o prejuízo evitado pela antecipação do fertilizante for superior ao custo imposto à carga deslocada. Esse custo, contudo, permanece dentro do sistema e será suportado por outro agente econômico.
O Brasil já enfrentou preocupação semelhante. Em 2022, após a invasão russa da Ucrânia e diante do temor de dificuldades no abastecimento de fertilizantes, o governo discutiu conceder preferência aos navios que transportavam esses produtos. Naquele momento, havia referências públicas a filas médias de quatro ou cinco dias em determinados portos, e a medida era apresentada como forma de reduzir atrasos e custos de importação. Quatro anos depois, uma nova crise internacional recoloca a prioridade portuária na agenda nacional.
Em duas crises geopolíticas diferentes, separadas por apenas quatro anos, o Brasil voltou a discutir como acelerar a entrada do fertilizante importado necessário para sustentar sua agricultura. A emergência mudou de origem, mas a dependência permaneceu. A repetição desse movimento amplia necessariamente o debate sobre a capacidade nacional de reduzir uma vulnerabilidade conhecida há décadas.
A teoria das restrições oferece uma leitura particularmente apropriada. Quando um recurso opera próximo de sua capacidade, mudar a ordem de atendimento não aumenta o fluxo máximo que esse recurso consegue processar. Se um navio de fertilizantes recebe prioridade em um berço congestionado, outra embarcação será postergada. A decisão pode melhorar a alocação econômica da capacidade quando o prejuízo evitado for superior ao custo transferido, mas não acrescenta capacidade ao sistema.
Essa análise precisa ser feita porto a porto e, quando necessário, berço a berço. Não existe uma única fila portuária brasileira. Terminais especializados possuem características diferentes de instalações multipropósito, e um navio de fertilizantes não disputa necessariamente espaço com todas as demais cargas movimentadas naquele porto. A concorrência ocorre quando operações diferentes dependem do mesmo recurso no mesmo período.
Por essa razão, a tonelagem isoladamente informa pouco sobre a pressão exercida nos berços. Os cerca de 45,5 milhões de toneladas de fertilizantes importados em 2025 representam uma parcela relativamente pequena diante de uma movimentação aquaviária brasileira próxima de 1,4 bilhão de toneladas, comparação que dimensiona os fluxos, mas não mede a utilização da infraestrutura. Para avaliar a prioridade, interessa conhecer quantas escalas de navios de fertilizantes ocorrem nos portos congestionados, quanto tempo cada operação ocupa o cais, qual a produtividade da descarga e quais outras cargas utilizam exatamente os mesmos berços.
Santa Catarina oferece um campo especialmente relevante para essa análise. São Francisco do Sul recebeu aproximadamente 2,75 milhões de toneladas de fertilizantes em 2025, crescimento próximo de 10% em relação ao ano anterior. O volume corresponde a cerca de 6% das importações brasileiras e a aproximadamente 16% da movimentação física total do porto, considerando um movimento anual próximo de 17,5 milhões de toneladas. O fertilizante possui, portanto, peso estrutural na operação daquela instalação.
Segundo o governo catarinense, o tempo de espera para descarga de fertilizantes em São Francisco do Sul caiu cerca de 60% em 2025. A experiência merece ser examinada em detalhes. Ganhos de produtividade, organização da programação, investimentos em equipamentos e melhor coordenação entre descarga, armazenagem e retirada terrestre podem ampliar a capacidade efetivamente entregue pela infraestrutura existente e oferecer soluções aplicáveis a outros portos submetidos a problemas semelhantes.
Imbituba também integra essa equação. O porto vem ampliando sua participação na movimentação de granéis e crescendo como alternativa para fertilizantes, reforçando uma característica estratégica de Santa Catarina: a existência de diferentes complexos portuários capazes de desempenhar funções complementares. A distribuição dos fluxos entre instalações com condições operacionais adequadas pode reduzir concentrações e aproveitar melhor a capacidade disponível, desde que os custos logísticos e os acessos terrestres tornem essa redistribuição competitiva.
Na Baía da Babitonga, a capacidade futura está em transformação. O Terminal Graneleiro da Babitonga, projetado em São Francisco do Sul, apresenta capacidade anunciada da ordem de 14 milhões de toneladas anuais. Em Itapoá, o projeto portuário da Coamo prevê movimentação de granéis sólidos vegetais e fertilizantes. Outros investimentos avançam na região, enquanto o aprofundamento do canal de acesso amplia as condições para a operação de navios maiores.
Essas capacidades não pertencem exclusivamente aos fertilizantes. Sua importância está no acréscimo de infraestrutura para granéis em uma região na qual a capacidade portuária precisa acompanhar a expansão dos fluxos. Uma política destinada a administrar restrições atuais deve considerar a entrada de novos terminais e a ampliação da infraestrutura existente, preservando o caráter excepcional de eventuais prioridades adotadas durante períodos de emergência.
A discussão tampouco pode ser reduzida a fertilizantes contra soja ou milho. O fertilizante chega ao litoral e segue para o interior. Meses depois, parte da produção obtida com esses nutrientes percorre o caminho inverso em direção aos portos. Em corredores ferroviários adequadamente estruturados, existe uma complementaridade econômica entre os dois movimentos, com possibilidade de melhor aproveitamento dos ativos no retorno, observadas as exigências técnicas dos vagões, terminais e produtos.
A própria estrutura comercial do agronegócio reconhece essa integração por meio do barter, mecanismo no qual a aquisição de insumos pode estar vinculada à entrega futura da produção. O fertilizante que entra e o grão que posteriormente sai pertencem ao mesmo ciclo econômico. A logística deveria buscar uma integração equivalente, especialmente em um país continental no qual dezenas de milhões de toneladas de fertilizantes percorrem uma direção enquanto volumes muito superiores de produtos agrícolas percorrem a outra.
A insuficiência ferroviária brasileira limita essa complementaridade e mantém uma dependência excessiva do transporte rodoviário, inclusive em longas distâncias. Santa Catarina e Paraná conhecem concretamente as consequências. Seus principais corredores concentram automóveis e caminhões, enfrentam congestionamentos frequentes e tornam-se vulneráveis a acidentes e interrupções. Ao mesmo tempo, a movimentação portuária cresce e novos terminais são projetados.
A ampliação dos portos sem uma expansão correspondente da capacidade terrestre apenas desloca o gargalo. O navio descarrega mais rapidamente, o terminal movimenta mais toneladas e a carga encontra uma rodovia saturada. A ferrovia insuficiente transforma uma oportunidade de integração entre fluxos de ida e retorno em milhares de viagens rodoviárias adicionais. O custo aparece no frete, no tempo de transporte, no consumo de combustível, na deterioração das estradas e na competitividade dos produtos.
A indústria precisa ocupar posição central nessa discussão. O sistema portuário brasileiro atende simultaneamente ao agronegócio e a uma estrutura industrial dependente da importação de matérias-primas, componentes, produtos químicos, metais, princípios ativos, máquinas e bens intermediários. Santa Catarina possui uma economia industrial diversificada que depende da regularidade dessas cadeias e utiliza a mesma infraestrutura logística que serve aos demais setores.
A essencialidade de uma carga não pode ser medida apenas por seu peso. Algumas toneladas de determinado componente podem sustentar uma linha industrial inteira. Um princípio ativo pode ser indispensável à fabricação de medicamentos. Insumos e equipamentos destinados à saúde possuem criticidade própria. Uma carga de pequeno volume pode apresentar valor econômico e social muito superior ao sugerido por sua participação estatística na movimentação portuária.
A FIESC possui manifestações documentadas sobre os efeitos dos gargalos logísticos catarinenses para exportadores e importadores e sobre a necessidade de tratar a infraestrutura de maneira integrada. Essa preocupação adquire relevância diante de qualquer política que estabeleça preferências de atendimento, porque a postergação de uma embarcação pode repercutir sobre cadeias produtivas cuja dependência logística não é imediatamente perceptível pela natureza ou pelo volume da carga.
O custo dessa postergação não desaparece porque não figura no orçamento público. Um navio esperando pode gerar demurrage. Uma indústria submetida a maior imprevisibilidade tende a aumentar estoques e imobilizar capital. Um armador pode incorporar o risco ao frete. Uma empresa pode perder produtividade pela chegada tardia de um insumo, enquanto um exportador pode perder uma janela comercial. A prioridade redistribui custos dentro do sistema, e a qualidade da decisão depende de demonstrar que o benefício obtido supera o prejuízo transferido.
É nesse ponto que a discussão precisa retornar à origem do problema. O Brasil não pode continuar tratando sua extraordinária dependência de fertilizantes importados como uma característica permanente e inevitável de sua economia. Uma das maiores potências agrícolas do planeta ainda busca no exterior mais de 80% dos fertilizantes que utiliza. Em 2025, foram cerca de 45,5 milhões de toneladas importadas. A cada guerra, sanção, restrição comercial, interrupção marítima ou disputa geopolítica envolvendo grandes fornecedores, o país volta a discutir estoques, preços, navios e prioridades portuárias porque a vulnerabilidade fundamental permanece.
Aumentar a produção brasileira de fertilizantes precisa deixar de ser apenas uma aspiração inscrita em planos governamentais e transformar-se em política de Estado, com metas, investimentos, cronogramas e resultados verificáveis. Isso não significa perseguir autossuficiência absoluta a qualquer custo econômico, nem fechar o país ao comércio internacional. Significa reduzir uma dependência superior a 80% para um patamar em que nenhuma crise envolvendo um ou dois grandes fornecedores tenha capacidade desproporcional de ameaçar o funcionamento da agricultura brasileira.
Diversificar fornecedores reduz riscos, mas mantém a dependência. Aumentar estoques oferece segurança temporária, mas exige capital e armazenagem. Antecipar compras protege determinada safra, mas não as seguintes. Dar prioridade aos navios permite atravessar mais rapidamente um gargalo portuário, mas não produz uma única tonelada adicional de fertilizante. São instrumentos importantes de gestão de risco. A produção nacional é o instrumento capaz de alterar estruturalmente o grau de exposição.
O Brasil possui recursos de potássio e fosfato e produz gás natural, matéria-prima essencial à fabricação de amônia e fertilizantes nitrogenados. A existência desses recursos não significa que toda ocorrência mineral possa ser imediatamente transformada em uma mina competitiva, assim como produzir gás não assegura automaticamente matéria-prima barata para uma fábrica de ureia. Projetos dessa natureza exigem capital, infraestrutura, tecnologia, escala, licenciamento ambiental e segurança jurídica. Em determinadas áreas existem ainda direitos territoriais constitucionalmente protegidos que precisam ser respeitados.
Essas dificuldades não justificam a permanência indefinida da dependência. São exatamente as restrições que uma estratégia nacional precisa identificar e enfrentar. Onde falta gás competitivo, o problema é energético e industrial. Onde depósitos economicamente aproveitáveis carecem de infraestrutura, entram ferrovias, energia e acessos. Onde projetos enfrentam insegurança regulatória, cabe ao Estado produzir previsibilidade sem reduzir exigências ambientais. Onde falta tecnologia, parcerias internacionais podem acelerar sua incorporação.
A essas restrições soma-se uma dimensão política e geopolítica que o Brasil não pode continuar tratando com ingenuidade. Parte do potencial mineral capaz de reduzir nossa dependência externa encontra-se em áreas submetidas a disputas ambientais, territoriais e indigenistas que frequentemente mobilizam governos, organizações e colegiados estrangeiros. A proteção do meio ambiente e dos povos indígenas constitui obrigação do Estado brasileiro, mas isso não significa aceitar passivamente interferências externas sobre decisões estratégicas nacionais, sobretudo quando alguns dos países envolvidos nessas discussões fornecem fertilizantes ao Brasil ou possuem produtores que concorrem diretamente com o agronegócio brasileiro. Também precisa ser examinada a orientação geopolítica dos próprios governos brasileiros: afinidades ideológicas não podem contribuir para naturalizar dependências estratégicas de países como Rússia, China, Bielorrússia ou Irã, cujos interesses são os deles, não os nossos. Depois de décadas conhecendo essa vulnerabilidade, o Brasil precisa tratar a produção nacional de fertilizantes como questão de soberania e desenvolvimento, assegurando a proteção ambiental e os direitos constitucionalmente reconhecidos, mas preservando para si a decisão sobre o aproveitamento responsável dos recursos necessários à sua segurança econômica e alimentar.
O Plano Nacional de Fertilizantes existe porque o próprio Brasil reconhece a vulnerabilidade. A questão decisiva é transformar planejamento em produção efetiva. Se a dependência é suficientemente grave para justificar a reorganização das filas portuárias durante crises internacionais, precisa ser igualmente grave para mobilizar mineração, gás natural, indústria química, infraestrutura e agricultura em torno de uma política de longo prazo.
Produzir mais fertilizantes no Brasil também modificaria a logística nacional. Uma parcela maior de oferta doméstica reduziria a pressão das importações sobre determinados portos e permitiria organizar fluxos internos de acordo com a localização das minas, fábricas e regiões agrícolas. Novos corredores ferroviários poderiam conectar polos produtores de fertilizantes às regiões produtoras de grãos e aos portos, aproveitando fluxos complementares sempre que tecnicamente possível.
Há uma diferença profunda entre administrar o gargalo e reduzi-lo estruturalmente. Priorizar navios administra a escassez momentânea de capacidade. Ampliar portos aumenta a capacidade marítima. Construir ferrovias reduz restrições terrestres. Melhorar rodovias aumenta a fluidez dos corredores. Produzir fertilizantes no Brasil ataca uma vulnerabilidade anterior a todas essas etapas: a necessidade de trazer do exterior, em dezenas de milhões de toneladas anuais, um insumo sem o qual a agricultura brasileira perde produtividade.
A dimensão geopolítica reforça essa necessidade. Rússia, China e Bielorrússia ocupam posições importantes em diferentes segmentos do mercado internacional de fertilizantes, enquanto o Irã participa da cadeia de nitrogenados. O Canadá, grande produtor de potássio e parceiro politicamente estável dos Estados Unidos, encontra-se evidentemente em situação geopolítica distinta. A questão brasileira, contudo, permanece: quanto maior a produção doméstica competitiva, menor a exposição do país às decisões políticas, comerciais e estratégicas tomadas no exterior.
É também nesse ambiente que o Brasil precisa definir com maior clareza suas parcerias estratégicas. A posição defendida aqui é que os Estados Unidos devem ser buscados como parceiro preferencial de uma nova política brasileira de desenvolvimento, capaz de associar interesses estratégicos norte-americanos às necessidades estruturais brasileiras. Essa escolha não exige abandonar relações comerciais com China, Rússia ou qualquer outro mercado relevante. Exige distinguir comércio internacional de parceria estratégica de longo prazo.
Existe uma oportunidade particularmente importante nas terras raras. O Brasil possui algumas das maiores reservas conhecidas desses elementos, essenciais à fabricação de ímãs permanentes de alto desempenho utilizados em motores elétricos, turbinas eólicas, eletrônica avançada e sistemas de defesa. A China construiu posição dominante especialmente nas etapas de separação, processamento e refino, criando uma dependência que os Estados Unidos consideram estratégica e procuram reduzir.
O potencial brasileiro está distribuído por diferentes regiões. Goiás e Minas Gerais concentram projetos importantes e a Amazônia possui um território de extraordinária relevância mineral ainda insuficientemente conhecido, cuja eventual exploração precisa necessariamente conviver com a proteção ambiental e os direitos constitucionais dos povos indígenas e das comunidades tradicionais. Santa Catarina também possui uma história ligada a essa discussão. Luiz Henrique da Silveira foi um dos políticos brasileiros que perceberam com antecedência a importância estratégica das terras raras. Quando senador, promoveu o debate sobre minerais estratégicos e defendeu que o Brasil desenvolvesse a cadeia produtiva desses elementos, em vez de limitar-se à condição de fornecedor de matéria-prima. Frequentemente mencionava também o potencial mineral catarinense, tema que merece continuar sendo investigado e mapeado geologicamente com rigor.
A visão de Luiz Henrique tornou-se ainda mais atual diante da disputa tecnológica entre Estados Unidos e China. O interesse brasileiro não deveria ser transformar terras raras em mais uma commodity mineral extraída do território e enviada ao exterior para que outros países concentrem o valor agregado. A oportunidade está em utilizar o interesse norte-americano para atrair capital e tecnologia capazes de instalar no Brasil uma parcela crescente da cadeia.
Isso significa mineração responsável, separação, processamento e refino realizados progressivamente no país, avançando para a produção de óxidos, metais, ligas, ímãs permanentes e componentes tecnológicos. O objetivo precisa ser criar conhecimento, empregos qualificados, pesquisa aplicada e capacidade industrial. Se bem conduzida, uma parceria dessa natureza pode contribuir para fomentar no Brasil uma nova indústria tecnológica vinculada às cadeias que os Estados Unidos procuram retirar da dependência chinesa.
Para os Estados Unidos, a vantagem seria ampliar o acesso a uma fonte relevante de terras raras localizada em um grande país das Américas e reduzir a concentração estratégica da cadeia na China. Para o Brasil, a contrapartida precisa ir muito além do pagamento pelo recurso mineral. Deve ser medida em tecnologia instalada no território nacional, capacidade de processamento, formação de mão de obra, industrialização e investimentos estruturantes.
Essa convergência pode sustentar uma agenda bilateral muito mais ambiciosa. O Brasil necessita de capital e tecnologia para aumentar sua produção de fertilizantes, desenvolver projetos de potássio e fosfato e criar condições competitivas para a produção de nitrogenados. Necessita também de ferrovias, energia, armazenagem, rodovias e capacidade portuária. Os Estados Unidos, por sua vez, possuem interesse estratégico em diversificar suas cadeias de terras raras e reduzir dependências consideradas vulneráveis.
A posição defendida aqui é que o Brasil deve buscar prioritariamente os Estados Unidos para construir essa parceria. O interesse norte-americano nas terras raras brasileiras pode abrir uma negociação de longo prazo em que os investimentos não se limitem à mineração. O país deve buscar participação norte-americana na infraestrutura necessária à industrialização dessas terras raras e, em uma agenda econômica mais ampla, na expansão da infraestrutura associada à produção nacional de fertilizantes e aos grandes corredores logísticos brasileiros.
Não se trata de uma troca simplista entre acesso a recursos minerais e construção de ferrovias. Trata-se de utilizar a complementaridade de interesses para estruturar uma política de desenvolvimento. Uma ferrovia necessária a um novo polo mineral pode atender também regiões agrícolas e industriais. Investimentos em energia podem viabilizar processamento mineral, produção química e outras atividades industriais. Novas estruturas portuárias podem acrescentar capacidade para diferentes cadeias. Corredores logísticos mais eficientes podem transportar fertilizantes para o interior e produtos agrícolas e industriais em direção aos mercados.
O fortalecimento brasileiro na produção de fertilizantes também interessa à construção de cadeias internacionais menos expostas a países que ocupam posições antagônicas aos Estados Unidos. Uma agricultura brasileira menos dependente de fertilizantes provenientes da Rússia, China, Bielorrússia ou Irã estaria menos sujeita aos efeitos de sanções, conflitos e disputas envolvendo Washington e esses países. O Canadá ocupa posição completamente diferente, como aliado e parceiro econômico dos Estados Unidos, mas a capacidade brasileira de produzir parcela maior de seus próprios fertilizantes contribuiria, de qualquer forma, para uma cadeia global de alimentos mais diversificada e resiliente.
Existe uma tensão concorrencial que não deve ser escondida. Brasil e Estados Unidos são grandes potências agrícolas e competem em importantes mercados internacionais, especialmente em produtos como soja e milho. Os Estados Unidos possuem um gigantesco mercado doméstico, mas continuam sendo também uma potência exportadora agrícola. Uma agricultura brasileira mais eficiente, com fertilizantes mais competitivos e infraestrutura melhor, aumentará sua capacidade de disputar mercados com produtores norte-americanos.
Essa concorrência não elimina a convergência estratégica. Países competem em determinados setores e cooperam em outros quando seus interesses coincidem. A política externa madura consiste precisamente em identificar onde essa cooperação produz benefícios superiores às divergências existentes. Brasil e Estados Unidos podem competir no agro e, simultaneamente, construir uma parceria em terras raras, tecnologia, fertilizantes, energia e infraestrutura.
O resultado pode beneficiar muito mais do que o agronegócio. A mesma infraestrutura logística serve à indústria. Ferrovias reduzem custos para diferentes cadeias. Portos mais eficientes ampliam a competitividade de importadores e exportadores. Energia e gás competitivos sustentam a indústria química e outros setores. Uma cadeia nacional de terras raras pode estimular atividades tecnológicas. A produção doméstica de fertilizantes reduz uma vulnerabilidade estratégica e diminui a pressão sobre determinados fluxos portuários.
Agro, indústria e infraestrutura não pertencem a projetos de país diferentes. A produção de grãos sustenta uma poderosa cadeia de proteína animal. Milho e farelo de soja são componentes fundamentais da alimentação de aves e suínos, atividades nas quais Santa Catarina e Paraná possuem extraordinária importância. O fertilizante participa da produção dos grãos; os grãos alimentam os animais; a proteína segue para processamento industrial; e parcela relevante retorna aos portos para alcançar mercados estrangeiros. Máquinas, energia, tecnologia, indústria química e serviços acompanham todo esse percurso.
Quanto mais eficiente for a base agrícola, maior poderá ser a competitividade da proteína brasileira. Quanto melhor a logística, maior será o ganho distribuído pelas diferentes etapas. Um Brasil que produza mais fertilizantes, disponha de ferrovias adequadas, reduza a saturação de suas rodovias e amplie seus portos fortalece simultaneamente agricultura, agroindústria e indústria.
Essa orientação estratégica exige decisões políticas que ultrapassam um mandato presidencial. A definição dos parceiros prioritários do Brasil, a política para as terras raras, o modelo de industrialização, a redução da dependência de fertilizantes e os grandes investimentos em infraestrutura dependem de escolhas de longo prazo. Esses projetos de país precisam ocupar espaço central no debate democrático, inclusive nas eleições, porque as decisões tomadas pelos governos eleitos determinarão as alianças estratégicas buscadas e a direção do desenvolvimento nacional.
A prioridade aos navios de fertilizantes discutida neste mês pode ser necessária para enfrentar uma circunstância imediata. Se existem cargas cuja demora ameaça concretamente as próximas safras, antecipá-las pode ser a decisão correta. Mas uma política nacional não pode terminar no cais.
O Brasil precisa produzir progressivamente mais fertilizantes, não para abandonar o comércio internacional, mas para conquistar uma margem de segurança compatível com a importância mundial de sua agricultura. Precisa ampliar sua capacidade logística para que fertilizantes, grãos, proteínas e produtos industriais não sejam obrigados a disputar permanentemente uma infraestrutura insuficiente. Precisa transformar suas terras raras em uma oportunidade de industrialização tecnológica, e não em mais uma frente de exportação de matéria-prima. E precisa utilizar o interesse estratégico dos Estados Unidos nesses recursos para construir uma parceria que atraia capital, tecnologia e investimentos estruturantes para o território brasileiro.
A prioridade concedida a um navio resolve a posição daquele navio na fila. A produção nacional de fertilizantes reduz a necessidade de que tantos navios estejam nessa fila. A ampliação dos portos aumenta a capacidade de recebê-los. As ferrovias e rodovias eficientes impedem que o gargalo simplesmente se desloque do cais para o interior. A industrialização das terras raras cria uma nova fronteira econômica e tecnológica. Uma parceria estratégica com os Estados Unidos pode contribuir para reunir capital, tecnologia e interesses capazes de acelerar esse processo.
O país dispõe dos ativos. O agro brasileiro alcançou dimensão mundial, a indústria possui capacidade e diversidade, os portos continuam crescendo, o território abriga recursos minerais estratégicos e a posição brasileira interessa às maiores potências. O desafio é transformar essas vantagens dispersas em uma política coerente de desenvolvimento.
A fila dos navios é apenas o lugar em que uma vulnerabilidade construída durante décadas se torna visível. A resposta capaz de mudar essa realidade começa muito antes do cais e exige uma decisão sobre o Brasil que se pretende construir.
