QUANDO “DOCE” NÃO É DOCE E “SOAVE” NÃO É SUAVE
Estou sentado ao balcão do Caldo de Cana Elias, na saída da Ala Norte para o Vão Central do Mercado Público de Florianópolis. Saboreio um tradicional pastel de carne acompanhado de um copo de caldo. Logo atrás de mim, no Vão Central, um imenso telão transmite França e Noruega pela Copa do Mundo, atraindo moradores e turistas que acompanham a partida.

Voltei da Itália no início desta semana. Desde então, uma pequena história sobre vinhos vinha me acompanhando. Caminhando há pouco pelas ruas do centro de Florianópolis, ela voltou à memória. Parei para um lanche e decidi que era hora de escrever esta crônica.
Foram quase duas semanas percorrendo a Itália ao lado da minha amada Tina, numa viagem romântica que acabou se transformando também em um delicioso aprendizado mútuo: etílico, gastronômico, histórico, geográfico, cultural.
Esta crônica não foi escrita para especialistas. Foi escrita para quem, como eu, ainda está descobrindo o fascinante universo do vinho. Se, ao final da leitura, alguém simplesmente apreciar um pouco mais esse universo, ela já terá cumprido seu papel.
Naquela manhã, deixávamos Belluno, elegante cidade da região do Vêneto, aos pés das Dolomitas, cadeia montanhosa reconhecida como Patrimônio Mundial da UNESCO. Foi daquela região que partiram, há mais de um século, os ancestrais italianos da Tina rumo ao Brasil.
A pouca distância de Belluno, Verona nos aguardava com um significado especial. Eu havia reservado como presente de Dia dos Namorados para a Tina uma noite na monumental Arena di Verona, assistindo à ópera Aída.
Antes do espetáculo, resolvemos fazer um almoço tardio na Boutique WeineWolf, uma delicatéssen dedicada à gastronomia e aos vinhos do Alto Adige, também conhecido como Südtirol, região situada no extremo norte da Itália, entre os Alpes, na fronteira com a Áustria. Até o fim da Primeira Guerra Mundial, o Alto Adige integrava o Império Austro-Húngaro. Incorporado à Itália em 1919, preservou a forte influência germânica, presente até hoje na arquitetura, na culinária, na língua e na cultura. O clima alpino, com dias ensolarados e noites frias, favorece a produção de alguns dos mais elegantes vinhos brancos italianos.
Nas prateleiras da WeineWolf havia vinhos, embutidos, queijos, geleias e excelentes azeites extravirgens da Toscana.

A Tina pediu uma pizza. Eu escolhi um panino de speck, o tradicional presunto defumado do Alto Adige, e pedi que lhe acrescentassem folhas verdes e aqueles maravilhosos tomatinhos italianos, doces, firmes e intensamente saborosos.
Antes mesmo de os pratos chegarem à mesa, o proprietário aproximou-se para sugerir um vinho que harmonizasse com o nosso almoço tardio. Indicou um Gewürztraminer, uma das uvas mais emblemáticas da região, dizendo que era um vinho dolce.
Agradeci a gentileza, mas recusei. Para um brasileiro, a palavra “doce” remete imediatamente ao nosso vinho suave. Eu procurava exatamente o oposto: um vinho seco.
Percebendo minha preferência, ele sugeriu um Sauvignon Blanc, explicando que aquele era dry. Aceitei a sugestão, mas a curiosidade permaneceu.
Ainda durante a refeição, voltei ao assunto e perguntei novamente sobre o Gewürztraminer.
Sorrindo, explicou que o Gewürztraminer também era dry. Ao chamá-lo de dolce, não estava dizendo que o vinho era doce. Queria dizer que era extraordinariamente aromático. Seus aromas de rosas, lichia, frutas tropicais, casca de laranja e especiarias eram tão intensos que transmitiam uma sensação de doçura, embora o vinho fosse rigorosamente seco.
Para desfazer qualquer dúvida, serviu-me uma taça. Bastou o primeiro gole para compreender o mal-entendido. O vinho era elegante, fresco, equilibrado e extraordinariamente aromático. Naquele instante percebi também que a sugestão inicial harmonizava muito melhor com o panino de speck e a pizza da Tina do que o Sauvignon Blanc que eu havia escolhido. A recomendação dele fazia todo o sentido. O equívoco tinha sido meu.
No dia seguinte seguimos para Soave, pequena cidade medieval cercada por muralhas, dominada por um castelo construído entre os séculos X e XIII e rodeada por vinhedos.
Ali resolvemos parar para almoçar em uma enoteca.
Sentado à mesa, com uma taça de vinho branco à frente, comecei a reparar que a palavra Soave aparecia por toda parte. Estava na fachada da enoteca, nas cartas de vinho, nas garrafas expostas e nas sugestões da casa. Minha conclusão foi imediata. Imaginei que todos aqueles vinhos fossem “suaves”, como chamamos no Brasil os vinhos mais adocicados.
Mais uma vez eu estava enganado.
Soave não descreve um estilo de vinho. É o nome da cidade e também da denominação de origem de um dos mais tradicionais vinhos brancos italianos, elaborado principalmente com a uva Garganega, cultivada nas colinas vulcânicas da região. A grande maioria dos Soaves é seca, elegante e marcada pelo frescor e pela mineralidade.
Foi então que percebi que, em menos de vinte e quatro horas, eu havia cometido exatamente o mesmo erro duas vezes. Primeiro, atribuí ao dolce um significado que ele não tinha. Depois, associei automaticamente o nome Soave ao nosso vinho suave. Em ambos os casos, a armadilha estava na tradução apressada e nas falsas semelhanças entre as palavras.
Enquanto termino meu pastel e o último gole de caldo, percebo que as melhores lembranças de uma viagem nem sempre nascem dos grandes monumentos. Muitas vezes surgem de uma conversa despretensiosa, de um almoço agradável ou da generosidade de alguém disposto a compartilhar aquilo que conhece.
Muito mais do que fotografias, trouxe da Itália novos conhecimentos sobre os mais diferentes temas. Eu e a Tina compartilhamos a mesma curiosidade pelo mundo. Gostamos de perguntar, observar, ouvir e compreender. Como costuma dizer meu pai, o aprendizado nasce, sobretudo, da curiosidade. Talvez seja por isso que cada viagem nos transforme um pouco mais do que imaginávamos quando embarcamos.
