Centrão com Lula? Kassab apenas confirmou como a política brasileira funciona
Preferência pelo presidente não precisa de afinidade ideológica: Lula negocia, o Centrão conhece essa dinâmica e Flávio Bolsonaro ainda representa uma incógnita

A declaração de Gilberto Kassab, presidente do PSD e candidato a vice-presidente na chapa de Ronaldo Caiado, de que “o Centrão está com Lula” e Flávio Bolsonaro não teria chances de vencer a eleição não revela nenhuma grande novidade.
Na realidade, apenas traduz aquilo que há décadas acontece na política brasileira.
O Centrão está sendo o Centrão.
E Lula está sendo Lula.
Os partidos que compõem esse amplo campo político não são conhecidos pela rigidez ideológica. Ao contrário. Sua principal característica histórica é o pragmatismo.
Estiveram próximos de governos de direita, de esquerda e de centro. Participaram de diferentes administrações e continuarão procurando espaço independentemente de quem ocupar o Palácio do Planalto.
O objetivo é poder político.
Quanto maior a bancada no Congresso Nacional, maior a capacidade de negociação.
Mais espaço em ministérios.
Mais influência sobre o Orçamento.
Mais participação nas decisões.
Mais capacidade de negociar emendas, cargos e projetos de interesse partidário.
Não existe novidade nisso.
Da mesma maneira, não existe novidade na preferência atual de parte desse grupo por Lula.
O presidente é um negociador experiente e conhece profundamente o funcionamento do Congresso Nacional. Ao longo de seus governos, Lula sempre construiu maiorias negociando participação política, ministérios, liberação de emendas e atendimento de demandas dos partidos.
Não estamos fazendo qualquer julgamento, estamos descrevendo como funciona a política brasileira.
Para aprovar sua agenda, Lula negocia.
Para ampliar seu espaço no governo, o Centrão negocia.
Um precisa do outro.
Com Flávio Bolsonaro, existe uma diferença importante: ele ainda é uma incógnita nessa relação.
Como seria sua convivência com o Congresso?
Quanto estaria disposto a negociar?
Qual espaço entregaria aos partidos?
Como montaria sua base parlamentar?
Qual seria sua relação com presidentes da Câmara e do Senado?
O Centrão ainda não conhece essas respostas.
Com Lula, conhece.
Por isso, sua preferência não precisa ter absolutamente nada de ideológica.
É pragmatismo.
Existe também outro componente importante na atual eleição.
O PSD decidiu lançar Ronaldo Caiado à Presidência, tendo o próprio Kassab como candidato a vice. A candidatura fortalece o partido nacionalmente, oferece palanques nos estados e ajuda a eleição de deputados e senadores.
Quanto maior for a bancada conquistada em outubro, maior será o poder de negociação do PSD a partir de janeiro.
É assim que funciona o jogo.
Também já registramos diversas vezes na coluna Perspectiva Política que a chamada neutralidade possui consequências eleitorais.
A existência de várias candidaturas no campo da direita e centro-direita divide esse eleitorado no primeiro turno, enquanto Lula concentra grande parte dos votos da esquerda.
Isso beneficia objetivamente o presidente nessa etapa da disputa, independentemente de existir ou não uma estratégia coordenada para produzir esse resultado.
Depois da eleição, começa outro jogo.
Os partidos contarão quantos deputados e senadores elegeram e procurarão o presidente escolhido pelas urnas.
A conversa será sobre governabilidade, ministérios, emendas, presidências de comissões, projetos e participação política.
Sempre foi assim.
A frase de Kassab, portanto, não deveria causar espanto.
O Centrão prefere, neste momento, alguém cujo método de negociação já conhece.
Lula sabe negociar com esse sistema e nunca demonstrou constrangimento em fazê-lo quando precisa construir maioria parlamentar.
Flávio Bolsonaro, para esses partidos, ainda precisa demonstrar como se comportaria diante dessa realidade.
No fundo, estamos diante de uma relação extremamente simples.
O Centrão possui votos no Congresso e deseja espaço político.
Lula precisa desses votos e sabe negociar esse espaço.
Não é amor.
Não é fidelidade.
Muito menos identidade ideológica.
É interesse político de ambos os lados.
Ou, utilizando aquele velho ditado que resume perfeitamente a situação:
juntou a fome com a vontade de comer.
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