Colocando os pontos nos is: o Centrão não é de direita nem de esquerda, é do poder

Republicanos, União, PP e PSD mantêm a lógica de sempre: apoiar quem oferece mais espaço, governabilidade e capacidade de negociação

Imagem gerada por IA

Existe hoje nas redes sociais uma indignação recorrente de setores da direita afirmando que Republicanos, União Brasil, PP e PSD “não são de direita”.

Na verdade, nunca foram.

Mas também não são partidos de esquerda.

São partidos pragmáticos.

Partidos de poder.

Essa é a melhor forma de compreender o comportamento dessas siglas ao longo das últimas décadas.

Independentemente de quem ocupe o Palácio do Planalto, elas quase sempre encontram uma maneira de participar do governo, influenciar decisões, ocupar espaços, controlar comissões, negociar emendas e ampliar sua presença na estrutura de poder.

Foi assim em governos de direita.

Foi assim em governos de centro.

Foi assim em governos de esquerda.

E continuará sendo.

Por isso, a opção pela chamada neutralidade na eleição presidencial não deveria surpreender ninguém.

Neutralidade, nesse caso, não significa ausência de consequência política.

Neste momento, ela favorece Lula.

Isso é objetivo.

Ao não aderirem formalmente a Flávio Bolsonaro e ao manterem candidaturas próprias ou liberdade para seus diretórios regionais, esses partidos ajudam a fragmentar o campo da direita e do centro-direita no primeiro turno.

Enquanto isso, Lula permanece como principal referência eleitoral da esquerda.

Mas a pergunta mais importante é outra.

Por que Gilberto Kassab afirmou publicamente que “o Centrão está com Lula”?

A resposta é relativamente simples.

Porque o Centrão conhece Lula.

E conhece, principalmente, a forma como Lula governa.

Lula é um político experiente em negociação parlamentar.

Sempre foi.

Quando precisa aprovar sua agenda, conversa com partidos, libera emendas, distribui espaços administrativos, negocia ministérios e constrói maiorias no Congresso.

Não existe novidade nisso.

É assim que Lula sempre fez política.

E é exatamente esse tipo de relação que os partidos do Centrão sabem operar.

Eles sabem o que pedir.

Sabem como negociar.

E sabem, sobretudo, que Lula negocia.

Os acontecimentos dos últimos dias ajudam a deixar esse movimento ainda mais claro.

O presidente da Câmara, Hugo Motta, do Republicanos, declarou apoio à reeleição de Lula depois que seu partido decidiu não integrar a chapa de Flávio Bolsonaro.

Davi Alcolumbre, do União Brasil, vinha em uma relação desgastada com o governo. Após uma reunião com Lula, passou a encaminhar/destravar as pautas importantes para o Planalto, como a PEC da Segurança Pública e a proposta que acaba com a escala 6×1.

Ciro Nogueira, presidente nacional do PP, disputa a reeleição pelo Piauí, um estado no qual Lula possui enorme força eleitoral. Naturalmente, sua estratégia local também exige pragmatismo.

O PSD segue o mesmo padrão.

Gilberto Kassab preside o partido desde sua fundação, em 2011, e sempre conduziu a legenda por uma lógica de ocupação de espaço e construção de poder.

O PSD lançou Ronaldo Caiado à Presidência e o próprio Kassab como vice. Oficialmente, a candidatura se apresenta como alternativa à polarização.

Mas uma candidatura presidencial também possui outra utilidade política.

Ajuda a fazer legenda.

Fortalece palanques estaduais.

Dá visibilidade aos candidatos proporcionais.

Pode ampliar as bancadas na Câmara e no Senado.

E quanto maior a bancada, maior o poder de negociação depois da eleição.

Esse ponto é central.

Caiado e Kassab sabem, mas não podem dizer, que o objetivo da candidatura é somente crescer no Congresso.

Porque depois da eleição começa outra negociação.

Quem tiver mais deputados e senadores terá mais peso diante do presidente eleito.

É aí que o pragmatismo do Centrão volta a aparecer.

Se Lula vencer, esses partidos conversarão com Lula.

Se Flávio Bolsonaro vencer, conversarão com Flávio.

O princípio é simples: permanecer próximo do poder.

Mas, neste momento, existe uma diferença fundamental entre Lula e Flávio Bolsonaro para essas siglas.

Lula é conhecido.

Flávio é uma incógnita.

Os partidos sabem como Lula negocia.

Sabem até onde ele costuma ir para construir maioria.

Sabem quais espaços podem pleitear.

Sabem como funciona a relação entre Planalto e Congresso sob seu comando.

Com Flávio Bolsonaro, não sabem.

Como ele montaria sua base parlamentar?

Quanto estaria disposto a negociar?

Que espaço entregaria aos partidos?

Como lidaria com presidentes da Câmara e do Senado?

Qual seria sua relação com emendas e ministérios?

Para o Centrão, essas perguntas importam muito.

Na política pragmática, previsibilidade vale poder.

E, nesse aspecto, Lula oferece hoje um terreno conhecido.

Flávio Bolsonaro representa um terreno ainda não testado.

Por isso, a preferência atual de parte desses partidos por Lula não precisa ter qualquer relação com ideologia.

É cálculo político.

Eles não estão escolhendo um projeto de esquerda.

Estão escolhendo aquilo que consideram mais previsível para seus próprios interesses.

Este é o jogo.

O Centrão continua sendo aquilo que sempre foi.

Lula continua negociando como sempre negociou.

E Flávio Bolsonaro, para essas legendas, ainda precisa mostrar qual seria sua forma de governar e de construir maioria no Congresso.

Não existe grande mistério.

Existe pragmatismo.

E, neste momento, para quem vive de negociação política, o conhecido parece mais seguro do que o desconhecido.

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