Perspectiva Política
A radicalização ameaça o pluralismo, campanhas precisam oferecer soluções e até a neutralidade partidária carrega significado político. Em uma democracia, escolhas, discursos e estratégias devem ser avaliados pela sociedade.
Nós realmente queremos democracia?
Palavras que ultrapassam o confronto político

A radicalização do debate público vem produzindo manifestações que já não se limitam à crítica de ideias, governos ou lideranças. Algumas avançam para a tentativa de deslegitimar a própria existência de determinados grupos políticos. Recentemente, o deputado federal André Janones defendeu a “dizimação” e o “extermínio completo do bolsonarismo”, chegando a utilizar uma linguagem incompatível com a responsabilidade esperada de uma autoridade pública. Expressões dessa natureza não podem ser tratadas como simples exageros retóricos, especialmente quando partem de pessoas com capacidade de influenciar milhares de cidadãos.
Ideias são derrotadas pelo voto
Lulismo e bolsonarismo são denominações utilizadas para identificar campos políticos formados por milhões de brasileiros. Lula e Bolsonaro emprestam seus nomes a esses movimentos, mas eles reúnem cidadãos com diferentes opiniões, prioridades e visões sobre o país. Alguns concordam com essas ideias; outros as rejeitam. Esse é o funcionamento natural de uma sociedade plural. Em uma democracia, correntes políticas não são eliminadas: são confrontadas por argumentos, submetidas às leis e aprovadas ou derrotadas pelo voto.
A mesma régua para todos
Seria incoerente condenar a linguagem utilizada contra o bolsonarismo e aceitar que o lulismo, a esquerda ou qualquer outro grupo político seja descrito como um câncer que precisa ser extirpado do Brasil. A gravidade não depende de quem pronuncia as palavras nem do campo atingido por elas. O cidadão tem o direito de criticar duramente Lula, Bolsonaro, seus governos, suas ideias e seus apoiadores. Tem também o direito de trabalhar politicamente para que esses projetos sejam derrotados nas urnas. O limite é ultrapassado quando o adversário deixa de ser tratado como participante legítimo da democracia e passa a ser apresentado como alguém cuja existência política precisa desaparecer.
O verdadeiro teste da democracia
O Brasil precisa decidir se realmente deseja permanecer plural e democrático. Democracia não significa concordância permanente, ausência de confronto ou obrigação de aceitar ideias consideradas equivocadas. Significa reconhecer que o outro possui o mesmo direito de pensar, expressar-se, organizar-se politicamente e disputar o voto popular. A busca pelo pensamento único, mesmo quando apresentada como defesa da democracia, conduz ao autoritarismo. A democracia começa a correr perigo quando seus participantes deixam de querer convencer o adversário e passam a desejar o seu desaparecimento.
A política que Santa Catarina merece
O tom escolhido

Ao discursar depois da homologação de sua candidatura ao Governo de Santa Catarina, Gelson Merísio afirmou que pretende impedir que o Estado se transforme em um “bunker bolsonarista” e falou em retirar Santa Catarina das “garras dos extremistas”. As declarações indicam que sua campanha pretende utilizar a polarização nacional como um de seus principais eixos. A estratégia é legítima, mas precisa ser avaliada pelo conteúdo que oferece ao eleitor e pela capacidade de apresentar alternativas concretas para o Estado.
A trajetória também será lembrada
Merísio possui o direito de mudar de posição, rever alianças e construir um novo projeto político. Esse movimento faz parte da democracia. O eleitor, entretanto, também possui o direito de confrontar o discurso atual com a trajetória do candidato. Em 2018, quando disputou o governo catarinense pelo PSD, Merísio declarou apoio a Jair Bolsonaro. Posteriormente, aproximou-se do campo progressista e participou da campanha de Décio Lima ao governo estadual. A mudança não invalida sua candidatura, mas certamente será um dos elementos considerados pela sociedade durante a campanha.
Mais propostas, menos desconstrução
Criticar o governo faz parte do papel de qualquer candidato de oposição. O problema surge quando a desconstrução do adversário ocupa o espaço que deveria ser destinado às propostas. Santa Catarina possui demandas concretas: precisa ampliar o retorno dos recursos que envia à União, melhorar as rodovias federais, enfrentar gargalos de infraestrutura, fortalecer a saúde, a educação e a segurança pública e preparar seu desenvolvimento para as próximas décadas. Um candidato experiente possui condições de apresentar soluções para esses desafios, em vez de apenas reproduzir o vocabulário da polarização nacional.
O eleitor merece mais
A Perspectiva Política continuará defendendo que todas as candidaturas sejam avaliadas com a mesma régua. Jorginho Mello deverá responder pelos resultados de seu governo. Gelson Merísio e os demais adversários precisarão demonstrar o que fariam de maneira diferente e como transformariam suas promessas em resultados. Classificar adversários como extremistas pode mobilizar militantes, mas não resolve os problemas da população. A boa política não se resume a convencer o eleitor de que o outro é ruim; exige demonstrar que existe um caminho melhor.
Neutralidade também é uma escolha
Um caminho legítimo
A federação formada por União Brasil e Progressistas sinalizou que poderá adotar uma posição de neutralidade na disputa presidencial. A decisão está dentro da autonomia dos partidos e pode ser justificada pelo desejo de preservar diferentes correntes internas, evitar divisões ou concentrar esforços nas eleições estaduais e parlamentares. Em uma democracia, nenhuma legenda é obrigada a aderir formalmente a uma candidatura presidencial.
Toda estratégia possui significado
O fato de a neutralidade ser legítima não significa que seja politicamente neutra em seus efeitos. Partidos existem para representar ideias, formular projetos e oferecer caminhos à sociedade. Quando uma força partidária de grande dimensão decide não escolher entre os principais projetos colocados diante do país, essa decisão também transmite uma mensagem. Pode indicar prudência, dificuldade de construir consenso interno, preservação de alianças regionais ou uma tentativa de manter espaço junto ao futuro vencedor.
O eleitor também faz sua leitura
A direção partidária possui o direito de não apoiar oficialmente nenhum candidato, mas o eleitor possui o mesmo direito de interpretar essa posição. Alguns poderão considerar a neutralidade uma demonstração de equilíbrio. Outros poderão enxergá-la como ausência de posicionamento em um momento decisivo para o país. Não cabe impedir nenhuma dessas leituras. Na política, decisões são avaliadas tanto pelas justificativas apresentadas quanto pelas consequências que produzem.
Não existe espaço sem consequências
A União Progressista pode concluir que a neutralidade é o melhor caminho para preservar sua unidade e seus interesses eleitorais. Essa escolha, entretanto, não coloca a federação fora da disputa nem a libera de prestar explicações à sociedade. Em política, apoiar é uma escolha, rejeitar também é uma escolha e permanecer neutro igualmente representa uma escolha. Partidos têm o direito de definir suas estratégias; os cidadãos têm o direito de julgá-las nas urnas.
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