Alguma coisa muito importante está acontecendo no mundo do vinho. Notícias sobre estoques elevados nas estruturas de produção e comercialização, vinícolas pressionadas pela dificuldade de vender e governos europeus adotando medidas para reduzir a capacidade produtiva começam a revelar uma transformação cuja dimensão ainda não foi inteiramente compreendida. Na Itália, maior produtora mundial de vinho em 2025, a discussão ganhou contornos particularmente fortes. A imagem de vinho acumulado à espera de mercado parece quase incompatível com um país no qual a bebida atravessa séculos de história, integra a paisagem e a gastronomia e constitui uma das expressões mais reconhecidas de sua identidade.

A natureza desses estoques torna o problema ainda mais sério. Uma parcela da produção mundial pertence a categorias concebidas para evoluir durante longos períodos e encontra no envelhecimento adequado parte de sua própria valorização. Essa não é, porém, a realidade da maior parte dos vinhos destinados ao consumo corrente. Muitos brancos, rosés, espumantes e tintos são produzidos para chegar ao consumidor preservando juventude, frescor, fruta e vivacidade. Quando permanecem imobilizados comercialmente, aproximam-se da safra seguinte e passam a disputar espaço com vinhos mais novos. O produtor precisa financiar aquilo que não vendeu enquanto enfrenta os custos de uma nova colheita. Quando sucessivas safras se sobrepõem sem que as anteriores tenham sido absorvidas, os estoques pressionam preços, consomem capital e aumentam a necessidade de descontos. Para os vinhos concebidos para consumo jovem, o tempo que beneficia uma grande garrafa de guarda pode transformar-se em adversário econômico.

A situação italiana é parte de um movimento muito mais amplo. Na França, a retração tornou-se suficientemente grave para levar o próprio Estado a financiar a redução permanente da capacidade produtiva. Em novembro de 2025, o Ministère de l’Agriculture et de la Souveraineté alimentaire anunciou € 130 milhões para um novo programa de arrachage définitif, o arranque definitivo de vinhedos solicitado pelo próprio setor. A justificativa oficial é reequilibrar a oferta e restaurar a viabilidade das explorações em dificuldade nas regiões mais fragilizadas. Arrancar definitivamente um vinhedo não equivale a administrar uma safra excepcionalmente abundante. Significa reconhecer que, em determinadas regiões e segmentos, existe uma capacidade produtiva que o mercado já não consegue absorver de maneira economicamente sustentável. Uma atividade agrícola construída ao longo de gerações começa, em alguns territórios, a receber dinheiro público para diminuir de tamanho.

Os números mundiais explicam a dimensão do problema. Segundo a International Organisation of Vine and Wine, a OIV, o consumo mundial caiu 2,7% em 2025, chegando a aproximadamente 208 milhões de hectolitros, o menor nível desde 1957. No pico recente, em 2007, o planeta consumia cerca de 250 milhões. Em menos de duas décadas, o consumo anual encolheu aproximadamente 42 milhões de hectolitros, uma retração próxima de 17%.

A comparação histórica torna o fenômeno ainda mais impressionante. Em 1957, quando o mundo consumia volume semelhante ao atual, a população do planeta não chegava a três bilhões de pessoas. Hoje supera oito bilhões. Evidentemente, bilhões de habitantes vivem em sociedades onde o vinho não ocupa posição relevante por razões culturais, religiosas ou econômicas, mas a diferença de escala permanece extraordinária. A humanidade acrescentou mais de cinco bilhões de pessoas à sua população e, ainda assim, consome em termos absolutos aproximadamente o mesmo volume de vinho que consumia há quase sete décadas.

O comércio internacional também sentiu a mudança. Em 2025, as exportações mundiais recuaram 4,7% em volume, para 94,8 milhões de hectolitros, enquanto o valor exportado caiu 6,7%, para € 33,8 bilhões. Nove dos dez maiores mercados consumidores registraram retração. Os Estados Unidos permaneceram na liderança mundial, com 31,9 milhões de hectolitros, mas caíram 4,3%. A França, com 22 milhões, recuou 3,2%. A Itália apresentou uma das quedas mais expressivas entre os grandes mercados, 9,4%, encerrando o ano em 20,2 milhões de hectolitros.

O problema poderia ser explicado pela inflação recente, pelas guerras, pelo aumento dos custos de energia, pelas dificuldades logísticas e pelas tensões comerciais. Todos esses fatores pesam sobre o setor e ajudam a compreender a intensidade da retração atual. Não explicam, porém, um movimento que atravessa décadas. O que parece estar desaparecendo é uma característica que sustentou historicamente a extraordinária dimensão econômica do vinho: a frequência.

Durante gerações, sobretudo em países como França, Itália, Espanha e Portugal, o vinho não precisava de uma ocasião para ser aberto. Estava no almoço, no jantar, na mesa familiar e no restaurante. Era alimento, hábito e cultura cotidiana. Quando uma pessoa que bebia vinho quatro vezes por semana passa a beber apenas uma, ela não necessariamente deixa de gostar da bebida e pode continuar conhecendo regiões, frequentando vinícolas e comprando boas garrafas. Para a indústria, entretanto, três garrafas deixaram de ser consumidas.

É nesse ambiente que ganhou força a ideia de beber menos, mas beber melhor. A chamada premiumisation pode favorecer determinados segmentos e, simultaneamente, agravar a situação de outros. Um consumidor que comprava quatro garrafas de US$ 20 por mês movimentava US$ 80. Se passa a comprar uma de US$ 50, elevou consideravelmente o preço médio de sua escolha, mas reduziu em 75% o volume e também diminuiu o gasto total. Se compra uma garrafa de US$ 80, preserva nominalmente o gasto enquanto três quartos do volume desaparecem do consumo. Se essa garrafa posteriormente sobe para US$ 100, o faturamento aumenta sem que uma unidade adicional tenha sido vendida. Por isso, valor, volume e preço médio precisam ser observados separadamente. Uma indústria pode faturar mais em moeda corrente enquanto vende menos vinho.

Essa transformação atinge de maneira particularmente dura a enorme faixa intermediária do mercado. O vinho barato ainda pode encontrar espaço onde preço e acessibilidade determinam a compra. O vinho verdadeiramente raro dispõe da proteção oferecida pela escassez e por consumidores de altíssima renda. Entre ambos estão milhões de garrafas boas, às vezes excelentes, mas sem preço suficientemente baixo para o consumo cotidiano e sem raridade suficiente para escapar às leis da oferta e da procura. Quando o consumidor decide beber menos e concentrar seu orçamento, pode substituir várias garrafas intermediárias por uma ou duas melhores.

Há ainda uma força atuando dentro do próprio universo do vinho. Os chamados influencers, sommeliers e comunicadores especializados ajudam a formar consumidores mais informados e seletivos, e não são poucos os que recomendam exatamente esse comportamento: por que se submeter a um vinho mediano, ou mesmo medíocre, apenas para beber por beber, se é possível reduzir a frequência e transformar o momento de abrir uma garrafa em algo especial, presenteando-se com um vinho de maior qualidade? Para o consumidor, o conselho pode ser excelente. Para uma indústria dependente de volume, sua disseminação produz uma consequência menos confortável. Parte daqueles que mais promovem a cultura do vinho pode estar contribuindo, involuntariamente, para que se bebam menos garrafas.

No extremo superior, a realidade é diferente, mas nem mesmo o fine wine atravessou os últimos anos intacto. O Liv-ex Fine Wine 100, referência do mercado secundário, apresenta atualmente valorização de 2,7% em doze meses e estabilidade no acumulado do ano, mas ainda registra queda de 8,1% em dois anos e de 5,3% em cinco. O Bordeaux 500 acumula retração de 17,5% em cinco anos. A escassez continua oferecendo proteção aos vinhos de produção minúscula, especialmente quando um grupo restrito de compradores pode absorver toda a oferta, mas nem todo vinho caro é raro o suficiente para permanecer indiferente à redução da demanda.

A questão do luxo, entretanto, pode estar avançando para um terreno ainda mais profundo: a própria percepção de valor. Uma garrafa de Romanée-Conti encontra compradores dispostos a pagar preços extraordinários não apenas pela qualidade do vinho, mas por uma combinação de raridade extrema, história, procedência, reputação e desejo. Um vinho que custa dez vezes mais do que outro dificilmente entrega, numa escala objetiva, dez vezes mais qualidade ou prazer sensorial. A diferença de preço pertence também ao território do símbolo.

E símbolos dependem de que sucessivas gerações continuem atribuindo valor a eles. O fenômeno pode ser semelhante ao que começa a ocorrer em outros segmentos do luxo. Uma geração pode considerar a grife de uma bolsa parte essencial de seu valor; outra pode preocupar-se mais com sua beleza, durabilidade, funcionalidade, origem dos materiais e impacto ambiental. Se o símbolo perde importância relativa diante da substância, todo o sistema de valor construído sobre exclusividade e prestígio precisa encontrar novas maneiras de justificar sua permanência.

O mesmo pode acontecer com o vinho. Um consumidor orientado por autenticidade, sustentabilidade, propósito e uma relação menos ostensiva com a riqueza pode reconhecer a excelência de um Romanée-Conti e, ainda assim, questionar por que deveria pagar uma fortuna por uma garrafa quando outro vinho extraordinário, embora menos raro e prestigioso, custa uma pequena fração desse valor. O desafio de longo prazo dos grandes vinhos não estará, portanto, apenas na existência de pessoas suficientemente ricas para comprá-los, mas na existência de pessoas que continuem convencidas de que sua diferença simbólica justifica sua diferença econômica. Uma nova geração pode conhecer perfeitamente a hierarquia do vinho e simplesmente decidir que ela importa menos.

Essa possível mudança de valores não ameaça necessariamente a qualidade dos grandes vinhos. Pode alterar os critérios pelos quais o prestígio é reconhecido. Um pequeno produtor comprometido com seu território, uma viticultura ambientalmente responsável, uma história autêntica e um vinho excepcional podem adquirir para determinados consumidores um poder de sedução antes reservado aos nomes consagrados. O luxo, nesse caso, deixa de ser identificado apenas pelo preço e pela raridade reconhecida pelo mercado e passa a incorporar origem, coerência e significado.

Enquanto essa transformação ocorre no topo, outra mudança parece atingir especialmente o vinho tinto. Em muitos de seus estilos clássicos, ele exige uma aproximação sensorial que nem sempre é imediata. Taninos, acidez, estrutura, madeira, evolução em garrafa e aromas terciários compõem uma linguagem aprendida pela experiência. Durante gerações, esse aprendizado acontecia naturalmente em culturas onde o vinho estava presente na mesa familiar. O jovem observava os adultos, provava, comparava e desenvolvia referências. À medida que diminui a frequência doméstica do consumo, enfraquece-se também um dos ambientes históricos de transmissão dessa cultura.

A própria mesa mudou. O tinto construiu parte de sua história gastronômica ao lado de carnes vermelhas, assados, caças, molhos intensos e determinados pratos de massa. O consumo mundial de carne não apresenta uma retração uniforme e não explicaria por si só a crise do vinho, mas a diversificação das dietas e das ocasiões de alimentação alterou o cenário no qual determinadas bebidas pareciam escolhas naturais. Dietas mais leves, preocupações nutricionais, escolhas ambientais ou éticas e mudanças na maneira de comer ampliam o espaço para bebidas igualmente mais leves, frias e menos dependentes de uma refeição estruturada. Se muda a mesa, é natural que também mude a taça.

Foi justamente essa transformação que me chamou a atenção recentemente na Itália. Ao fim da tarde, em cidades diferentes, a presença do spritz era monumental. Aperol Spritz, Campari Spritz e inúmeras variações ocupavam mesas, praças e terraços durante o aperitivo, em ocasiões nas quais uma taça de vinho também poderia estar presente. E há nessa disputa um componente visual poderoso. Alguém pode sentar-se disposto a tomar uma taça de vinho e mudar de ideia quando vê chegar à mesa ao lado uma grande taça com gelo e o laranja luminoso de um Aperol Spritz. A substituição torna-se ainda mais natural quando a intenção original era tomar um vinho branco simplesmente para se refrescar. Nesse momento, o concorrente não está no cardápio. Está diante dos olhos.

Uma taça de vinho branco atravessa o salão com relativa discrição; o Aperol Spritz anuncia sua presença. A cor intensa, o gelo e a fatia de laranja fazem cada pedido funcionar como exposição espontânea do produto. Há ainda um aspecto inteiramente contemporâneo: sob determinadas condições, o Aperol Spritz é mais instagramável do que uma taça de vinho. Num terraço elegante ou diante de uma paisagem mediterrânea, pode transmitir uma percepção de sofisticação e até de luxo que uma taça de vinho, sozinha, dificilmente comunica. Um grande vinho servido anonimamente pode custar centenas de euros e parecer, na tela de um telefone, exatamente o que parece um vinho de poucos euros. O spritz comunica sua identidade pela própria aparência.

A bebida contemporânea passou a competir não apenas pelo sabor, pelo preço ou pela companhia da comida, mas também pela imagem que produz de quem a consome. Nesse ambiente, o spritz é reconhecível, colorido, fotogênico e internacionalmente associado ao aperitivo, ao verão, à viagem e à sociabilidade. Para quem pretendia simplesmente tomar algo fresco, escolher uma taça de vinho branco ainda pode envolver uvas, regiões, produtores e estilos. O spritz elimina a decisão. Às vezes, basta olhar para a mesa ao lado e pedir um igual.

Essa facilidade surge justamente quando o vinho alcançou extraordinário grau de sofisticação. A riqueza de denominações, classificações, terroirs, produtores e safras que fascina o conhecedor pode intimidar quem está chegando, enquanto coquetéis e bebidas com pouco ou nenhum álcool multiplicaram as alternativas disponíveis. Os dados mais recentes da IWSR, divulgados em 14 de julho de 2026 a partir de sua pesquisa Bevtrac em quinze mercados, ajudam a corrigir a ideia simplista de que os jovens simplesmente deixaram de beber: 74% dos consumidores da Generation Z que já atingiram a idade legal para consumir álcool haviam bebido no período pesquisado, proporção próxima dos 76% observados no conjunto da população adulta e superior aos 66% registrados três anos antes.

A mudança parece estar menos no desaparecimento do álcool do que na fragmentação das escolhas e na moderação. Um jovem pode beber cerveja numa ocasião, spritz em outra, vinho durante uma refeição e uma bebida sem álcool no encontro seguinte. Para uma indústria construída sobre consumidores habituais, essa infidelidade às categorias é decisiva. O vinho tinto fica particularmente exposto porque, em muitos estilos, possui teor alcoólico mais elevado, não é servido tão frio, mantém relação mais estreita com a comida e exige maior familiaridade sensorial. Brancos, rosés e espumantes transitam com mais facilidade entre a mesa, o aperitivo e situações informais, embora também enfrentem a crescente concorrência dos coquetéis.

A indústria mundial do vinho entra, assim, numa reorganização que não atingirá todos da mesma maneira. Vinhedos desaparecerão onde a oferta se tornou estruturalmente excessiva, produtores adaptarão variedades e estilos, consumidores beberão menos em algumas regiões e escolherão melhor em outras, enquanto cada ocasião de consumo será disputada por um número crescente de alternativas. Os vinhos mais raros continuarão protegidos pela escassez enquanto houver compradores que reconheçam seu valor, mas até eles dependerão da capacidade de transmitir às novas gerações não apenas conhecimento, mas significado.

A crise que começou a aparecer nas notícias como uma história de vinho acumulado à espera de comprador pode ser apenas a manifestação visível de algo muito maior. Durante boa parte do século XX, a indústria produziu para um mundo que bebia vinho com frequência. No século XXI, precisa compreender um consumidor que pode continuar admirando o vinho, viajando por suas regiões, seguindo especialistas, conhecendo produtores e celebrando suas grandes garrafas, mas que bebe menos e começa a rever até mesmo os critérios pelos quais decide quanto uma garrafa vale. A diferença parece pequena quando observada numa única mesa. Multiplicada por milhões de mesas, atravessa restaurantes e supermercados, chega aos distribuidores, ocupa os estoques das vinícolas e, em alguns lugares, termina nos próprios vinhedos, onde o Estado já paga para que parte deles deixe de produzir.

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