FREDERICO WILDNER

Em 25 de junho de 1857 nasceu, em Neunkirchen, na Baixa Áustria, Friedrich Wildner. Sua trajetória pessoal desenvolveu-se em um dos períodos mais dinâmicos da história moderna, marcado pela intensificação dos fluxos migratórios internacionais, pela consolidação dos Estados nacionais europeus e pela ocupação econômica de extensas áreas das Américas. Embora sua biografia esteja associada à história de uma única família, os documentos hoje preservados permitem inseri-la em processos históricos muito mais amplos, relacionados à imigração europeia, à colonização do norte catarinense e ao desenvolvimento das atividades pesqueiras e industriais no litoral de Santa Catarina.
Quando Frederico nasceu, a Europa Central encontrava-se em profunda transformação. O Império Austríaco, governado por Francisco José I, procurava reorganizar-se após as revoluções de 1848. O crescimento das cidades, a expansão das ferrovias e as mudanças na estrutura produtiva alteravam as condições de vida de milhões de pessoas. Em 1867, quando Frederico tinha dez anos de idade, a monarquia dos Habsburgo foi reorganizada sob a forma do Império Austro-Húngaro, uma das maiores entidades políticas da Europa da época.
A Baixa Áustria, onde se localiza Neunkirchen, integrava uma região economicamente ativa e relativamente próxima de Viena. Ainda assim, as transformações econômicas do século XIX estimularam o movimento migratório que levaria milhares de europeus a buscar oportunidades em outros continentes. Entre os destinos mais importantes estava o sul do Brasil.
No mesmo período, o Império Brasileiro desenvolvia políticas de colonização destinadas a ocupar territórios, ampliar a produção agrícola e fortalecer o povoamento das províncias meridionais. Santa Catarina tornou-se um dos principais receptores desses contingentes migratórios. A fundação da Colônia Dona Francisca, em 1851, inaugurou um ciclo que transformaria profundamente a região norte do estado.
Os registros históricos demonstram que, nas décadas seguintes, milhares de imigrantes provenientes da Alemanha, Dinamarca, Suécia, Pomerânia, Áustria e outras regiões da Europa desembarcaram em São Francisco do Sul antes de seguir para os núcleos coloniais do interior. A tradição familiar situa Frederico Wildner nesse contexto migratório. A cronologia documental é compatível com sua chegada ainda jovem ao norte catarinense, onde teria crescido no ambiente da Colônia Dona Francisca, participando da geração responsável pela consolidação econômica e social de Joinville.
A Joinville da década de 1870 era uma comunidade em formação. O cotidiano era marcado pela agricultura, pelo trabalho artesanal, pela abertura de estradas e pela organização das primeiras estruturas permanentes de comércio e serviços. Diferentemente das grandes cidades brasileiras do período, tratava-se de uma sociedade composta majoritariamente por imigrantes e seus descendentes, em um território que ainda preservava grande parte de suas características naturais originais.
O primeiro documento oficial atualmente conhecido sobre Frederico em Santa Catarina é o assento matrimonial lavrado em São Francisco do Sul em 26 de setembro de 1885. O registro informa que Frederico Wildner, então com vinte e oito anos de idade, era lavrador, natural de Neunkirchen, filho legítimo de Friedrich Wildner e Maria Thereza Schwarz, tendo sido batizado na religião católica romana.
Na mesma cerimônia, casou-se com Anna Frederica Mommsen, então com vinte e quatro anos. O documento registra que ela era filha de Christian Mommsen e Anna Dorothea Jürgensen.
A importância histórica desse casamento ultrapassa o âmbito familiar. A genealogia posteriormente reconstruída demonstra que a união reuniu diferentes matrizes culturais europeias presentes na formação do norte catarinense. Os Wildner tinham origem austríaca. Os Mommsen possuíam raízes ligadas ao espaço germânico setentrional. Já os sobrenomes Jürgensen, Lorenzen, Otzen e Corneliusen remetem ao universo cultural de Schleswig-Holstein e das regiões historicamente influenciadas pelas relações entre Dinamarca e Alemanha. Em uma única família encontravam-se representadas algumas das principais correntes migratórias que participaram da construção social e econômica da região.
Em agosto de 1902, Frederico assinou pessoalmente uma declaração referente ao nascimento de Maria Aurora Wildner. O documento preservado pela família possui especial relevância histórica por registrar, em fonte primária, informações sobre os ascendentes dos ramos Wildner e Mommsen. A assinatura original do próprio Frederico permite estabelecer uma ligação direta entre os registros civis e a memória familiar preservada ao longo das gerações.
A documentação genealógica preservada pela família permite acompanhar a descendência direta de Frederico Wildner até os dias atuais. De seu casamento com Anna Frederica Mommsen nasceu Anna Emília Wildner (1885–1973), seguida por Lacy Wildner Lopes (1916–1995), por Ernesto de Oliveira S. Thiago Filho (1940), meu pai, firme em deus 85 anos e, posteriormente, por mim. Essa continuidade familiar, sustentada por registros civis, documentos históricos e acervo genealógico, estabelece uma ligação documental direta entre o imigrante austríaco que chegou ao norte catarinense no século XIX e as gerações contemporâneas de seus descendentes.
Durante as últimas décadas do século XIX e as primeiras décadas do século XX, o litoral norte catarinense passou por um processo de crescente integração econômica. A agricultura continuava desempenhando papel fundamental, mas a navegação, a pesca e o beneficiamento de produtos alimentícios assumiam importância crescente. A Baía da Babitonga constituía um dos principais espaços econômicos da região, conectando São Francisco do Sul, Joinville, Vila da Glória, Saí e diversas comunidades do entorno.
Foi nesse ambiente que a família Wildner consolidou sua presença regional.
Registros familiares, documentos empresariais e referências acadêmicas apontam para a existência da Indústria de Conservas Wildner na Vila da Glória, em São Francisco do Sul. A empresa dedicava-se ao beneficiamento de camarão, pescado e palmito, inserindo-se em um setor econômico que acompanhava a evolução da atividade pesqueira catarinense.
A trajetória empresarial da família ultrapassou posteriormente os limites da Baía da Babitonga. A atividade expandiu-se para Biguaçu, onde a Wildner S.A. – Pesca, Conservas e Congelados estabeleceu sua estrutura principal. A localização da fábrica às margens do Rio Biguaçu obedecia à lógica operacional das indústrias pesqueiras da época, dependentes do acesso direto às águas para recebimento da matéria-prima e transporte da produção.
A empresa manteve ainda operações ligadas ao setor pesqueiro na Grande Florianópolis, inserindo-se em uma rede econômica que conectava os recursos pesqueiros do litoral catarinense aos principais mercados consumidores do país.
Um dos documentos mais importantes para compreender a relevância da empresa é o estudo realizado pelo geógrafo Paulo Fernando de Araújo Lago e publicado na Revista Brasileira de Geografia em 1961. O trabalho descreve detalhadamente a unidade industrial da Vila da Glória e oferece um raro retrato da realidade econômica do setor pesqueiro catarinense em meados do século XX.
O estudo registra as dificuldades de transporte, a dependência das condições das marés, a insuficiência do fornecimento de energia elétrica, a escassez de mão de obra sazonal e os desafios logísticos enfrentados pela indústria. Também revela a preocupação dos responsáveis pela empresa com a redução dos estoques pesqueiros, especialmente do camarão. Em uma época em que a questão ambiental ainda ocupava posição secundária nas políticas públicas brasileiras, a observação dos efeitos da captura predatória já aparecia como tema relevante para a atividade econômica.
A própria evolução geográfica da empresa reflete transformações mais amplas da economia catarinense. O deslocamento do eixo produtivo da Vila da Glória para Biguaçu acompanhou mudanças na infraestrutura, nos sistemas de transporte e nos mercados consumidores. Décadas depois, a área que abrigou a antiga matriz da empresa em Biguaçu seria incorporada a um novo ciclo econômico ligado à atividade náutica. No local funciona atualmente a Marina Pier 33, que preserva elementos da memória da família Wildner e da antiga indústria de conservas que marcou a história econômica da região.
Frederico Wildner faleceu em 15 de julho de 1936, no Saí, em São Francisco do Sul. Ao longo de seus setenta e nove anos de vida, testemunhou acontecimentos que transformaram profundamente o mundo em que nasceu. Viu a consolidação da imigração europeia no sul do Brasil, a abolição da escravidão, a proclamação da República, a Primeira Guerra Mundial e o desaparecimento do próprio Império Austro-Húngaro. Também acompanhou a transformação das comunidades coloniais em centros econômicos permanentes e o surgimento das bases produtivas que sustentariam o desenvolvimento regional nas décadas seguintes.
Ao analisar sua trajetória, chama atenção o fato de que ela permite observar, em escala humana, processos históricos muito maiores do que a biografia de um único indivíduo. Poucos personagens ligados à história regional deixam um conjunto documental capaz de conectar, de maneira tão clara, a Europa Central do século XIX à formação econômica do litoral catarinense. Os registros civis, os documentos familiares, os estudos acadêmicos e a própria permanência da memória empresarial da família permitem situar Frederico Wildner em um ponto de convergência entre imigração, colonização, agricultura, navegação, pesca e industrialização. Sua história não se resume à origem de uma linhagem familiar nem à criação de um empreendimento econômico. Ela oferece uma perspectiva concreta sobre a maneira como movimentos globais — migração, ocupação territorial, circulação de capitais, desenvolvimento tecnológico e transformação produtiva — manifestaram-se no cotidiano das comunidades que construíram Joinville, São Francisco do Sul, Vila da Glória, Biguaçu e Florianópolis ao longo de mais de um século.
