Foto: Site da Cia de Navegação / Reprodução DMA

A Ilha de Santa Catarina voltará a receber um navio de cruzeiro na temporada 2026/2027. A informação foi apresentada oficialmente nesta quarta-feira, 26 de agosto, em Brasília, durante o 8º Fórum CLIA Brasil, por Estela Farina, diretora-geral da Norwegian Cruise Line Holdings no Brasil e presidente do Conselho de Administração da CLIA Brasil. Na programação de portos brasileiros apresentada pela executiva, Florianópolis aparece entre os destinos previstos para a próxima temporada do grupo, que reúne Norwegian Cruise Line, Oceania Cruises e Regent Seven Seas Cruises.

O navio será o Oceania Insignia, da Oceania Cruises, com escala em Florianópolis em 12 de março de 2027, no sexto dia de uma viagem de Buenos Aires ao Rio de Janeiro. A chegada está prevista para as 7h e a saída para as 19h. No dia seguinte, o Insignia estará em Itajaí, seguindo depois para Santos, Paraty, Ilha Grande, Búzios e Rio de Janeiro. No roteiro da Oceania, Florianópolis aparece como “Anchor Port”, indicando que o navio permanecerá fundeado e os passageiros serão levados à terra por embarcações auxiliares.

Com 30.277 toneladas, 593,7 pés de comprimento e 340 suítes e cabines, o Insignia pertence a uma categoria de navios muito menores do que os grandes transatlânticos contemporâneos. Cerca de 400 tripulantes atendem os passageiros, proporcionando uma relação de serviço elevada. A bordo estão restaurantes como o Polo Grill e o Toscana, além de spa, biblioteca, lounges, bares, cassino e áreas esportivas. A proposta da Oceania combina serviço personalizado, gastronomia e descoberta dos destinos.

O preço ajuda a dimensionar o posicionamento do produto. O roteiro de 12 dias entre Buenos Aires e Rio de Janeiro parte de R$ 23,2 mil por passageiro, em ocupação dupla, e pode chegar a aproximadamente R$ 43,6 mil nas categorias superiores atualmente publicadas. As cabines com varanda estão na faixa de R$ 40,5 mil a R$ 41,6 mil por passageiro. A tarifa inclui alimentação nos restaurantes especializados, gratificações da tripulação e Wi-Fi, entre outros benefícios.

O perfil econômico dos hóspedes reforça o potencial da escala para o turismo local. Dados da Norwegian Cruise Line Holdings indicam que aproximadamente 94% dos hóspedes da Oceania possuem patrimônio líquido superior a R$ 1,29 milhão. É um público habituado a cruzeiros internacionais e ao consumo de produtos turísticos de maior valor agregado. Desde 2026, a Oceania passou a operar exclusivamente com passageiros adultos em suas futuras viagens.

O roteiro foi construído em torno de destinos com forte conteúdo turístico e cultural. Depois de Buenos Aires, Montevidéu, Punta del Este e Rio Grande, o navio chega a Florianópolis e prossegue por Itajaí, Santos, Paraty, Ilha Grande e Búzios antes de terminar no Rio de Janeiro. A Ilha estará inserida em uma viagem na qual gastronomia, paisagem, cultura e experiências locais têm papel central.

É nesse contexto que ganha especial importância a informação apresentada por Estela Farina no 8º Fórum CLIA Brasil sobre uma visita a uma Fazenda Marinha de Florianópolis entre as opções para os passageiros do Insignia. A escolha se encaixa perfeitamente na identidade da cidade. Florianópolis integra, desde 2014, a Rede de Cidades Criativas da UNESCO na categoria Gastronomia e é reconhecida pela própria organização como “Brazil’s Oyster Capital”, a Capital Brasileira da Ostra. A maricultura tornou-se uma das marcas da gastronomia da Ilha e uma atividade econômica profundamente vinculada às comunidades costeiras.

A visita às fazendas marinhas transformou-se em uma das experiências turísticas mais qualificadas relacionadas à gastronomia local. Nas comunidades produtoras, os visitantes podem conhecer os cultivos, acompanhar o trabalho dos maricultores, observar as áreas de produção e degustar ostras diretamente relacionadas às águas da Ilha. Para um passageiro da Oceania, a experiência reúne justamente os elementos que a companhia procura associar aos seus destinos: produto local, gastronomia, paisagem, cultura e conhecimento.

A inclusão da Fazenda Marinha é particularmente significativa porque o catálogo específico de excursões para a escala ainda não foi disponibilizado publicamente pela Oceania. A informação apresentada por Farina antecipa uma das experiências que poderão compor o roteiro terrestre dos passageiros e valoriza um dos produtos mais autênticos de Florianópolis.

A chegada do Insignia também deve ser analisada à luz da experiência anterior da cidade com cruzeiros. Em 24 de março de 2018, o MSC Preziosa realizou uma escala-teste em Florianópolis. O navio tinha capacidade para mais de 4,3 mil passageiros, e a operação ocorreu no Trapiche de Canasvieiras, no Norte da Ilha. Cerca de dois mil passageiros desembarcaram para conhecer a cidade, em uma operação que exigiu estrutura especial para o transporte entre o navio e a terra.

A experiência evidenciou as dificuldades de movimentar milhares de pessoas simultaneamente em uma estrutura terrestre limitada. O tempo de espera no desembarque foi um dos pontos críticos, e a escala não se transformou em operação regular da MSC.

A situação será muito diferente com o Insignia. Serão aproximadamente 670 passageiros, uma fração da capacidade do Preziosa, mas com um público de maior poder aquisitivo e expectativas mais elevadas em relação à qualidade dos serviços. O desafio será menos a capacidade de absorver volume e mais a entrega de uma operação organizada, pontual e coerente com o padrão da Oceania.

A primeira questão a ser definida é o ponto de desembarque. Como Florianópolis está classificada como Anchor Port, o Insignia ficará fundeado e os passageiros serão transportados por tenders. A Oceania ainda não informou qual praia, trapiche ou estrutura receberá os passageiros. A escolha terá impacto direto sobre a segurança, o tempo de deslocamento, a circulação terrestre e a conexão com as excursões.

A experiência de Canasvieiras mostra por que essa decisão deve ser tomada com antecedência. Em 2018, o navio ficou fundeado a alguns quilômetros da costa e os passageiros precisaram ser transportados até o trapiche por embarcações auxiliares. Com um navio muito menor, a pressão sobre a infraestrutura será reduzida, permitindo que a operação seja desenhada com maior atenção à qualidade.

Há tempo para organizar o receptivo, definir a estrutura terrestre, preparar a operação dos tenders, estabelecer os transportes e selecionar produtos turísticos capazes de atender ao perfil dos hóspedes. A Fazenda Marinha, a gastronomia, o patrimônio histórico, as paisagens e a cultura açoriana formam um conjunto de atrações com forte capacidade de diferenciação.

Também seria oportuno criar excursões de helicóptero para a Serra Catarinense, transformando a proximidade geográfica em uma vantagem competitiva da escala. A viagem terrestre entre Florianópolis e os principais polos de enoturismo da Serra pode consumir boa parte das horas disponíveis ao passageiro, enquanto a aviação executiva permitiria estruturar roteiros de curta duração para grupos pequenos, com visitas a vinícolas, produtores de azeite de oliva e atrativos naturais. A Serra já possui uma oferta consolidada de enoturismo e produtos ligados à gastronomia, que poderia ser apresentada ao passageiro como uma extensão natural da experiência na Ilha.

A escala do Insignia é exatamente o tipo de mercado para o qual Florianópolis deve mirar, com navios menores, passageiros de maior poder aquisitivo e maior valor agregado por visitante, como temos defendido em artigos anteriores. A experiência do MSC Preziosa mostrou os limites de uma operação de grande volume em uma estrutura ainda inadequada. O Insignia aponta para uma direção diferente: menos passageiros, maior gasto potencial e uma relação mais qualificada entre o navio e o destino.

O resultado dessa escala poderá influenciar futuras decisões das companhias sobre a inclusão de Florianópolis em roteiros internacionais. A cidade terá a oportunidade de demonstrar que pode receber cruzeiros de alto padrão não pela quantidade de passageiros desembarcados, mas pela qualidade e diversidade das experiências oferecidas a cada um deles.

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