CORTAR O MAL PELA RAIZ

Se o objetivo comum é derrotar o PT nos estados e retirar o partido da Presidência da República, não parece racional dispersar votos entre candidaturas sem condições reais de vitória. A quem interessa um segundo turno se o candidato que receberá seu voto no primeiro turno não tem a mínima chance de chegar até ele?
Por diversas razões, o ideal é definir a eleição no primeiro turno: reduzir gastos públicos e privados, encurtar a campanha e, principalmente, transformar em resultado uma maioria eleitoral que já exista. Se há votos suficientes para derrotar o PT, a questão passa a ser reuni-los em torno de uma candidatura capaz de liquidar a fatura na primeira votação.
A fragmentação pode produzir o efeito contrário. Uma maioria eleitoral contrária ao PT pode permitir sua passagem ao segundo turno quando os votos dos adversários estão pulverizados entre várias candidaturas. A eleição não soma afinidades políticas; contabiliza votos por candidato. Uma maioria dispersa pode, portanto, perder para uma força eleitoral menor, mas concentrada.
É nesse ponto que as pesquisas dão concretude à discussão. Na eleição presidencial, o levantamento BTG/Nexus divulgado em 24 de agosto mostra Lula com 41% e Flávio Bolsonaro com 37% no primeiro turno. Ronaldo Caiado aparece com 5%; Renan Santos e Romeu Zema, com 3% cada; Augusto Cury, com 2%; e Samara Martins, com 1%. No segundo turno entre Lula e Flávio, há empate técnico: 46% a 45%.
O dado relevante não é transformar pesquisa em sentença eleitoral, mas identificar onde está hoje a capacidade de concentração do voto oposicionista. Entre os nomes testados, Flávio Bolsonaro é o único que aparece em confronto direto com Lula em patamar competitivo. Se a finalidade é derrotar o PT, ignorar essa realidade pode manter dispersos votos que, reunidos, teriam outra capacidade de produzir resultado.
Em Santa Catarina, a fotografia é ainda mais definida. Pesquisa Quaest divulgada em 24 de agosto aponta Jorginho Mello com 50% das intenções de voto para o governo estadual, contra 17% de João Rodrigues e 4% de Gelson Merísio. Com esse quadro, o governador está em posição de buscar a vitória já no primeiro turno.
A questão deixa de ser apenas quem o eleitor prefere. Passa a ser o que ele pretende produzir com seu voto. Se uma candidatura reúne condições para alcançar a maioria necessária, insistir na dispersão pode transformar uma vitória possível em uma segunda rodada que poderia ser evitada.
E há uma conta objetiva. O limite de gastos para a Presidência em 2026 é de R$ 88,944 milhões por candidato no primeiro turno, com acréscimo de 50% para quem chegar ao segundo. Os dois finalistas poderão acrescentar até R$ 88,944 milhões às despesas de campanha. Nos governos estaduais, cada finalista também recebe acréscimo de 50% sobre o respectivo limite.
A segunda votação mobiliza novamente a estrutura da Justiça Eleitoral: preparação das urnas, geração e distribuição de mídias, transporte dos equipamentos, abertura dos locais de votação, convocação de mesários, segurança, transmissão, fiscalização, apuração e totalização. Onde houver segundo turno para governador, os TREs repetirão essa operação.
Em 2022, a Justiça Eleitoral estimou em R$ 1,334 bilhão o custo de execução daquele pleito, sem incluir a aquisição das urnas eletrônicas. O segundo turno acrescenta uma nova mobilização de pessoal, logística e recursos públicos.
Também se prolonga a campanha. O primeiro turno ocorrerá em 4 de outubro e o segundo, se necessário, em 25 de outubro. São três semanas de propaganda, debates, deslocamentos, pesquisas e negociações políticas, durante as quais os votos das candidaturas derrotadas passam a ser disputados pelos dois finalistas.
Tudo isso pode ser evitado quando a primeira votação produz uma maioria suficiente para encerrar a disputa. O segundo turno existe para resolver a ausência dessa maioria, não para ser perseguido como objetivo.
O eleitor que deseja apenas registrar sua preferência tem plena liberdade para fazê-lo. Mas aquele que estabelece como prioridade retirar o PT da Presidência e derrotá-lo nos estados precisa considerar a capacidade efetiva de cada candidatura de transformar votos em vitória.
Hoje, a fotografia eleitoral aponta Flávio Bolsonaro como o nome oposicionista capaz de enfrentar Lula em condições competitivas, enquanto Jorginho Mello aparece em Santa Catarina com 50% das intenções de voto. São realidades distintas, mas ambas ajudam a ilustrar o mesmo princípio: onde houver força suficiente para vencer, a dispersão deixa de ser apenas uma escolha individual e passa a ter consequência sobre o resultado coletivo.
Se existe maioria suficiente para derrotar o PT, que ela seja convertida em vitória na primeira votação.
