CAMPO DEMOCRÁTICO?

A frente formada por PT, PSB, PSOL, PDT, PCdoB, PV e Rede escolheu um nome que merece mais atenção do que sua própria composição. Chamou-se Campo Democrático. Não é apenas uma denominação eleitoral. É uma tentativa de apropriação de uma palavra que pertence a todos os brasileiros, como se a democracia tivesse dono e estivesse restrita a um único espectro político.
George Orwell já havia explicado esse fenômeno em 1984. Chamou-o de novilíngua: substituir o significado das palavras para que deixem de descrever a realidade e passem a moldá-la. A democracia deixa de ser um regime baseado na liberdade, no pluralismo e na alternância de poder para transformar-se em uma marca política. A propaganda completa o serviço. A Joseph Goebbels é frequentemente atribuída a frase segundo a qual uma mentira repetida mil vezes acaba tornando-se verdade. Discute-se a autoria, mas não a eficácia do método. Primeiro muda-se a linguagem. Depois repete-se a narrativa até que ela substitua os fatos.
Não é coincidência que algumas das mais brutais ditaduras do século XX tenham recorrido exatamente ao mesmo expediente. A República Democrática Alemã nunca foi democrática. A República Popular Democrática da Coreia, conhecida como Coreia do Norte, continua sendo uma das mais fechadas ditaduras do planeta. O adjetivo não descrevia o regime; escondia-o. A palavra servia como propaganda.
É impossível não perceber o paralelo. Chama-se de Campo Democrático uma aliança que reúne partidos que, durante décadas, relativizaram ou apoiaram governos como os de Cuba, Venezuela e Nicarágua, sempre encontrando explicações para a falta de eleições livres, para a perseguição de opositores e para a censura à imprensa. Ao mesmo tempo, defendem mecanismos cada vez mais amplos de controle da circulação de informações sob o argumento de combater a desinformação. Se as práticas caminham numa direção, o nome aponta deliberadamente para outra. Talvez por isso Campo Autoritário descrevesse melhor aquilo que procuram esconder.
A escolha de Gelson Merisio para liderar essa frente acrescenta outra camada de simbolismo. Hoje ele integra o Conselho de Administração da J&F, controladora da JBS, empresa que se tornou um dos maiores símbolos da corrupção revelada pela Operação Lava Jato. Não se trata de responsabilizá-lo pelos fatos do passado, mas é impossível ignorar o significado político dessa vinculação justamente quando se pretende ocupar o discurso da moralidade democrática.
Também não deixa de ser revelador o destino da própria Lava Jato. Depois de desmontar o maior esquema de corrupção da história brasileira, viu boa parte de seus resultados ser revertida por decisões do Supremo Tribunal Federal. Entre os ministros que participaram desses julgamentos estão Cristiano Zanin, advogado pessoal de Lula antes de chegar à Corte, e Dias Toffoli, ex-advogado do PT. Para milhões de brasileiros, a mensagem transmitida foi devastadora: o sistema encontrou um caminho para neutralizar a operação que mais ameaçou o velho modelo de poder.
Nada disso impede qualquer partido de disputar eleições. O que causa estranheza é a tentativa de monopolizar a própria ideia de democracia. Democracia não pertence à esquerda, à direita nem ao centro. É um patrimônio da sociedade. Quem precisa colocar a palavra no nome para convencer os outros de que a representa talvez esteja tentando fazer exatamente aquilo que Orwell advertiu: substituir a realidade pela narrativa. Porque, quando as palavras passam a significar o contrário do que significam, a novilíngua deixa de ser ficção. Passa a ser estratégia política.
