A economia virou um dos principais obstáculos à reeleição de Lula
Endividamento recorde, juros elevados, inflação resistente e contas públicas deficitárias formam um ambiente que pesa diretamente sobre o projeto eleitoral do presidente

A economia começa a ocupar um espaço cada vez mais importante na disputa presidencial de 2026.
E, para quem está no governo, isso representa um problema.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva busca mais um mandato em um cenário marcado por uma combinação difícil: famílias e empresas altamente endividadas, juros ainda elevados, inflação resistente e contas públicas deficitárias.
Nenhum desses problemas nasceu agora.
Mas todos existem hoje.
E eleição é realizada sobre a realidade que o eleitor está vivendo.
O endividamento das famílias permanece em níveis históricos, enquanto milhões de brasileiros convivem com renda comprometida e crédito caro. Estudos recentes mostram que, mesmo com melhora em indicadores de emprego e renda, a percepção das famílias continua pressionada justamente pelo peso das dívidas e pelo custo do crédito.
No setor empresarial, o quadro também preocupa.
Milhões de CNPJs estão inadimplentes, recuperações judiciais avançaram nos últimos anos e empresas de diferentes portes enfrentam dificuldades para financiar suas operações.
O juro é um dos principais componentes desse ambiente.
A Selic permanece em 14% ao ano, mantendo o Brasil entre os países com juros reais mais elevados do mundo.
Juros altos ajudam a combater a inflação, mas também encarecem financiamentos, reduzem investimentos e tornam mais difícil a reorganização financeira de famílias e empresas.
A inflação também continua sendo um problema.
Mesmo com períodos de desaceleração, a projeção atual do mercado aponta inflação de aproximadamente 5% em 2026, acima do teto da meta, fixado em 4,5%.
E existe ainda a situação fiscal.
O governo continua convivendo com déficits e dívida pública elevada.
Esse quadro limita a capacidade de ampliar investimentos e aumenta a preocupação sobre a trajetória das contas públicas nos próximos anos.
Separadamente, cada um desses fatores seria administrável.
O problema está na soma.
Famílias endividadas.
Empresas endividadas.
Crédito caro.
Inflação acima da meta.
Contas públicas pressionadas.
Esse conjunto cria um ambiente econômico pouco confortável para qualquer governo que tente convencer o eleitor de que o país está no caminho correto.
E existe uma regra quase universal na política:
quando a população sente dificuldade no bolso, quem está no poder paga parte da conta eleitoral.
Naturalmente, uma eleição presidencial nunca é definida por apenas um fator.
Existem questões ideológicas.
Existem rejeições pessoais.
Existem disputas institucionais.
Existem escândalos.
Existem alianças.
Mas economia possui uma característica diferente.
Ela é sentida todos os dias.
No supermercado.
No cartão de crédito.
Na parcela do financiamento.
Nos juros cobrados pelo banco.
Na dificuldade para pagar uma dívida.
Na decisão de uma empresa de contratar ou demitir.
É justamente por isso que o assunto pode ganhar importância crescente até outubro.
Pesquisas recentes já mostram uma disputa extremamente apertada entre Lula e Flávio Bolsonaro, com vários levantamentos indicando empate técnico no segundo turno.
Ao mesmo tempo, a avaliação do governo também apresenta sinais de desgaste. Pesquisa Datafolha divulgada no início de setembro mostrou 42% avaliando a gestão como ruim ou péssima, contra 31% que a consideram ótima ou boa.
Isso não significa que a economia seja a única explicação.
Mas significa que ela passou a integrar de maneira importante o ambiente eleitoral.
Para Lula, existe ainda uma dificuldade adicional.
Ele não é candidato de oposição.
É o presidente.
Portanto, não pode simplesmente apontar os problemas.
Precisa explicar aquilo que fez para resolvê-los e convencer o eleitor de que continuará sendo capaz de melhorar a situação.
Esse é o peso natural de quem busca a reeleição.
Quem governa recebe os méritos quando as coisas melhoram.
E recebe as cobranças quando pioram.
Flávio Bolsonaro, por outro lado, utilizará justamente esses indicadores para tentar transformar a eleição em um julgamento sobre a situação atual do país.
É assim que campanhas funcionam.
Mas, acima da disputa eleitoral, existe uma realidade que permanece.
A economia brasileira precisa melhorar.
Independentemente de quem vencer.
O eleitor pode até não acompanhar números sobre dívida pública, déficit nominal ou projeções do Banco Central.
Mas entende perfeitamente quando seu dinheiro termina antes do final do mês.
Entende quando uma empresa fecha.
Entende quando o crédito fica caro.
Entende quando uma dívida se torna impossível de pagar.
E é exatamente aí que a economia deixa de ser estatística.
Vira voto.
Por isso, dentro de uma eleição que já é extremamente equilibrada, o desempenho econômico poderá ter peso decisivo.
Não necessariamente porque o eleitor conheça todos os indicadores.
Mas porque sente seus efeitos.
E, em uma disputa apertada, qualquer variável capaz de alterar alguns pontos percentuais pode definir quem governará o Brasil pelos próximos quatro anos.
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