Uma pergunta, quatro séculos

Muitas vezes, uma pesquisa genealógica vai muito além do motivo que lhe deu origem. Basta uma pergunta aparentemente trivial sobre um nome, um sobrenome ou um parentesco para despertar a curiosidade do genealogista. A partir daí, um documento conduz a outro, uma geração leva à anterior e a investigação ganha vida própria. Dificilmente há o que detenha essa curiosidade, a não ser quando, por algum tempo, as fontes documentais se esgotam. Ainda assim, o trabalho não se encerra. Fica apenas suspenso, permanecendo latente a vontade de avançar mais um passo. A genealogia é uma obra de uma vida inteira. Não raras vezes, uma pesquisa interrompida anos antes encontra, graças a uma descoberta inesperada (e por vezes inteiramente acidental) o elemento que lhe permite prosseguir e abrir novos caminhos.
A de que trataremos a seguir nasceu numa manhã de domingo, quando meu amigo Cacau Menezes, incansável cronista do cotidiano catarinense, encaminhou-me, pelo WhatsApp, fotografia de um primo meu, o respeitado médico oncologista e também escritor Dr. Ernani Lange de São Thiago, ao lado de sua esposa, Ivana Müller São Thiago. Sabendo que Ernani é meu primo, Cacau perguntou-me apenas quais eram seus nomes completos. Respondi imediatamente. Como a coluna do Cacau é diária e aquela consulta foi feita num domingo, deduzi que a fotografia provavelmente se destinava à edição da segunda-feira ou de algum dia da respectiva semana. Depois de tantas décadas de jornalismo, Cacau permanecia trabalhando num domingo para entregar, na manhã seguinte, mais uma coluna aos seus leitores.
Ernani é filho de meus tios-avós, Clara Lange de São Thiago (1922–1996), a querida tia Clarinha, e José Antônio de São Thiago (1916–2008), nosso amado tio Juca, irmão de meu avô Ernesto, tio este que sempre deu enorme atenção aos poemas que eu cometia quando adolescente. E foi revisitando a ascendência da tia Clarinha que encontrei uma história notável. O que parecia ser apenas a identificação de um casal acabou transformando-se numa viagem documental que atravessou quatro séculos de história, três países e diferentes tradições culturais.
A tia Clarinha era filha de Walter Lange e de Noemia Amaral (1890–1978). Walter, por sua vez, era filho do pastor Wilhelm Gottfried Lange (1858–1930) e de Claire Reuge (1857–1921). Bastaria essa informação para situar a família entre os milhares de descendentes da imigração europeia em Santa Catarina. No entanto, à medida que os documentos foram sendo reunidos, tornou-se evidente que aqueles nomes escondiam uma história muito maior.
Wilhelm Gottfried Lange nasceu em 22 de março de 1858, em Derwitz, na antiga Província de Brandemburgo, então Reino da Prússia. Ainda jovem ingressou na tradição da Unitas Fratrum, mais conhecida como Igreja Morávia, uma das mais antigas comunidades protestantes da Europa, cuja origem remonta aos ensinamentos de Jan Hus, no século XV. Recebeu sua formação teológica em Herrnhut, pequena localidade da Saxônia que se transformou, desde o século XVIII, no principal centro missionário dos Irmãos Morávios.
Antes mesmo de conhecer o Brasil, Wilhelm viveu uma intensa experiência missionária na Volínia, então território do Império Russo, atualmente dividido entre Ucrânia e Polônia. Ali trabalhou junto às comunidades morávias até que as crescentes restrições impostas pelo governo czarista inviabilizaram a continuidade da missão. A Igreja voltou então seus olhos para a América do Sul.
Em 1886, aos vinte e oito anos de idade, Wilhelm recebeu a incumbência de liderar a imigração de cerca de uma centena de colonos morávios para Santa Catarina. Não desembarcou como um simples imigrante em busca de oportunidades econômicas. Veio investido da responsabilidade de organizar uma comunidade, prestar assistência espiritual aos colonos e lançar as bases de uma nova missão religiosa.
Assim nasceu Brüderthal, hoje integrada ao município de Guaramirim.
Mais do que um núcleo colonial, Brüderthal constituiu uma comunidade planejada, onde fé, trabalho, educação e vida comunitária caminhavam juntos. Wilhelm tornou-se seu primeiro pastor e uma das figuras centrais da organização da colônia. Sua atuação estendeu-se posteriormente a outras comunidades catarinenses, acompanhando o crescimento da Igreja Morávia no Estado.
Quase cento e quarenta anos depois, sua importância permanece reconhecida. Durante as comemorações dos 140 anos de Brüderthal, foi lançada a obra “Brüderthal – Pastor Wilhelm Gottfried Lange e os Primórdios da Igreja Morávia no Brasil”, do historiador Saulo Adami, resultado de uma extensa pesquisa realizada no Brasil e na Europa, reunindo documentos inéditos, mapas, correspondências e outras fontes históricas que reconstituem a trajetória do pastor e da comunidade por ele fundada.
Wilhelm escreveu um extenso memorial autobiográfico relatando sua formação, a missão na Volínia, a imigração para o Brasil e os primeiros anos de Brüderthal. Durante a Campanha de Nacionalização promovida pelo Estado Novo, quando livros e documentos em língua alemã passaram a ser perseguidos, uma de suas filhas, Hildegard Lange, enterrou cuidadosamente o manuscrito no quintal da família para evitar que fosse destruído. Terminada a guerra, o texto foi recuperado, preservado e, décadas mais tarde, traduzido e publicado em edição bilíngue português-alemão sob o título “Testemunho de Fé – Memorial do Pastor Wilhelm Gottfried Lange”. Graças à coragem daquela filha, parte importante da memória da imigração morávia sobreviveu até os nossos dias.
Foi em Brüderthal que Wilhelm conheceu Claire Reuge, nascida em 1857, em Fleurier, no então Principado de Neuchâtel. Casaram-se em 27 de julho de 1887. A união daquele pastor alemão com uma jovem suíça ligou definitivamente duas histórias que, até então, haviam percorrido caminhos completamente distintos.
Wilhelm trouxe para Santa Catarina a tradição religiosa e comunitária dos Lange.
Claire trouxe consigo uma linhagem estabelecida havia séculos nas montanhas do Jura suíço.
Seu filho, Walter Lange, escreveria outro capítulo igualmente importante da história catarinense. Figura destacada da vida pública de Florianópolis, participou intensamente do desenvolvimento esportivo da Capital. Presidiu o Avaí Futebol Clube em um dos períodos marcantes de sua consolidação institucional e também desempenhou papel de relevo na tradição do remo catarinense, tão ligada à formação esportiva da cidade. Não por acaso, seu nome foi posteriormente atribuído ao Parque Náutico Walter Lange, localizado na margem insular do Canal do Estreito, onde se concentram alguns dos mais tradicionais clubes de remo de Florianópolis, perpetuando sua contribuição ao esporte catarinense.
Entre os filhos de Walter encontrava-se Hélio Amaral Lange (1927–1998), irmão da tia Clarinha e conhecido em Florianópolis simplesmente como Paru. Seu apelido tornou-se tão popular que, para muitas pessoas, acabou substituindo o próprio nome.
Paru pertenceu àquela geração de florianopolitanos que confundiam a própria vida com a história da cidade. Era conhecido pela alegria, pela facilidade em fazer amigos e pela presença constante nas manifestações populares. Segundo o depoimento de meu colega de profissão e amigo Tullo Cavallazzi Filho, filho do fundador da Orchestra Philarmonica Desterrense e profundo conhecedor da história do carnaval da Capital, Paru era a célebre “Noiva do Carnaval”, personagem que, por tradição da própria Philarmonica, era o único homem autorizado a desfilar vestido de mulher à frente da banda. Sua figura tornou-se parte da memória afetiva de gerações de foliões, numa época em que o carnaval ainda preservava um espírito espontâneo, irreverente e profundamente ligado às ruas de Florianópolis.
Convém registrar, entretanto, um esclarecimento. A tradicional Toca do Paru, localizada em Itaguaçu e durante décadas vizinha da antiga casa de praia do tio Juca e da tia Clarinha, não possui qualquer relação com Hélio Amaral Lange, apesar da coincidência do apelido. Trata-se apenas de uma homonímia, circunstância confirmada pelos próprios descendentes da família, embora a coincidência tenha alimentado equívocos ao longo dos anos.
Se a história dos Lange já era suficientemente rica, a da avó de Walter revelou-se não menos surpreendente.
Claire Reuge nasceu em Fleurier, no Val-de-Travers, região pertencente ao antigo Principado de Neuchâtel, no atual cantão suíço de mesmo nome. Diferentemente do que muitos imaginam, não se trata da Suíça dos grandes Alpes, mas de uma sucessão de planaltos elevados, florestas densas, vales estreitos e rigorosos invernos que moldaram profundamente a cultura daquela população.
Claire era filha de Louis Leopold Reuge, neta de Henri Lucien Reuge, bisneta de Abraham Frédéric Reuge-Dion, trineta de Marianne Esabeau Clerc, tetraneta de Pierre Clerc, pentaneta de Abraham Clerc, hexaneta de Susanne Girardier, heptaneta de Daniel Girardier, octaneta de Anne Marie Sandoz, nonaneta de Daniel Sandoz e, portanto, descendente direta de David Sandoz (1585–1650).
Mais impressionante do que alcançar um ancestral do século XVI foi perceber a extraordinária estabilidade daquela população. Durante cerca de trezentos anos, praticamente todas essas famílias permaneceram vivendo numa área relativamente pequena, compreendida entre Fleurier, Môtiers, Couvet, Buttes, Le Locle, La Chaux-de-Fonds e La Brévine. Em poucas regiões da Europa os registros paroquiais foram preservados com tamanha continuidade, permitindo acompanhar sucessivas gerações com elevado grau de segurança documental.
O Jura neocastelense apresenta um dos climas mais rigorosos da Europa Ocidental. Ali localiza-se La Brévine, conhecida como a “Sibéria da Suíça”, onde foi registrada a menor temperatura oficialmente observada naquele país: –41,8 °C. Invernos longos, abundante neve e uma agricultura limitada obrigaram seus habitantes a desenvolver atividades que pudessem ser exercidas dentro de casa durante boa parte do ano.
Foi dessa necessidade que nasceu uma das maiores vocações econômicas da Suíça.
Nos meses de inverno, quando os campos permaneciam cobertos de neve, diversas famílias passaram a fabricar pequenas peças metálicas, instrumentos científicos, ferramentas e delicados mecanismos de precisão. Ao longo dos séculos XVII e XVIII, essas oficinas domésticas transformaram-se em manufaturas especializadas e deram origem à extraordinária tradição relojoeira de Le Locle e La Chaux-de-Fonds, hoje reconhecida como Patrimônio Mundial pela UNESCO. A precisão deixou de ser apenas uma atividade econômica para tornar-se uma característica cultural daquela sociedade.
Os registros históricos identificam David Sandoz como notário e primeiro maire de La Chaux-des-Taillères, hoje parte do município de La Brévine.
Uma observação genealógica, contudo, impõe-se. David Sandoz contraiu matrimônio em duas ocasiões. A linhagem que alcança Claire Reuge, e por consequência a tia Clarinha, descende de seu primeiro casamento, com Elisabeth Perret Gentil. Já Jean Jacques Sandoz, agraciado em 1657 com carta de nobreza concedida pelo príncipe Henri II de Longueville, era filho do segundo casamento, celebrado com Anne-Marie Clerc dites Guy d’Audanger. Embora ambos os ramos compartilhem o mesmo ancestral, a presente pesquisa não estabelece qualquer vínculo entre a linhagem aqui estudada e aquele ramo posteriormente nobilitado.
Voltando a David Sandoz, como notário era responsável por toda a segurança jurídica da comunidade. Redigia contratos, escrituras, inventários, partilhas e negócios patrimoniais. Era um homem de absoluta confiança pública.
Já como maire exercia funções administrativas, fiscais e judiciais. Representava a autoridade local, solucionava conflitos, administrava interesses coletivos e respondia pela organização da comunidade.
Não por acaso, David Sandoz permanece registrado no Dicionário Histórico da Suíça, distinção reservada a personagens cuja atuação ultrapassou o âmbito estritamente familiar.
Também a história política de Neuchâtel confere singularidade a essa genealogia.
Quando David nasceu, em 1585, Neuchâtel ainda era um condado soberano. Em 1648 tornou-se principado. Em 1707 passou para a Coroa da Prússia, preservando ampla autonomia. Durante o período napoleônico foi incorporado ao Império Francês. Em 1815 tornou-se simultaneamente um cantão suíço e um principado prussiano, situação única na história europeia, encerrada apenas em 1857 com a chamada Questão de Neuchâtel.
Curiosamente, foi exatamente nesse mesmo ano de 1857 que nasceu Claire Reuge, a jovem suíça que décadas mais tarde cruzaria o Atlântico para casar-se em Brüderthal e ligar definitivamente essa antiga linhagem europeia à história de Santa Catarina.
Os Sandoz figuram entre as famílias tradicionais do Jura neocastelense desde a Idade Média. Ao longo dos séculos produziram notários, magistrados, administradores públicos, comerciantes, industriais, militares, religiosos, artistas e intelectuais.
No século XIX, outro ramo da família alcançou projeção internacional com Édouard Constant Sandoz, fundador da empresa que daria origem à atual farmacêutica Sandoz, uma das maiores fabricantes mundiais de medicamentos. A eventual demonstração documental de um vínculo genealógico entre esse ramo empresarial e a linhagem de David Sandoz certamente poderá ser realizada por futuras pesquisas em arquivos suíços. Não é, entretanto, o propósito deste artigo, que se limita à linhagem efetivamente identificada na genealogia da tia Clarinha.
Também nas artes o sobrenome ganhou reconhecimento internacional com Édouard-Marcel Sandoz (1881–1971), um dos mais importantes escultores suíços do século XX, célebre por suas extraordinárias esculturas de animais, hoje preservadas em museus e coleções particulares de diversos países.
Ao fim e ao cabo, uma prosaica pergunta do Cacau, formulada apenas para identificar corretamente um casal que ilustraria sua coluna diária, acabou proporcionando-me uma oportunidade inesperada. Entre documentos, livros, registros paroquiais e conversas com familiares e amigos, reencontrei a trajetória de Wilhelm Gottfried Lange, pastor que atravessou a Europa para liderar a fundação de uma comunidade religiosa em Santa Catarina; conheci melhor Claire Reuge, que trouxe para o Brasil uma linhagem suíça cuidadosamente preservada ao longo de séculos; revisitei a história de Walter Lange, cuja contribuição ao esporte permanece gravada na geografia de Florianópolis; recordei seu filho Hélio Amaral Lange, o inesquecível Paru, personagem da memória carnavalesca da cidade; e percorri a vida de homens e mulheres que, sem jamais imaginarem, acabariam deixando marcas na formação religiosa, cultural, esportiva e social de Santa Catarina.
É justamente essa a razão de a genealogia me fascinar. Raramente ela responde apenas à pergunta que lhe deu origem, quase sempre formulada sem qualquer intenção genealógica. Cada resposta sugere uma nova indagação, cada documento remete a outro, cada geração conduz à anterior, até que a pesquisa passe a seguir um caminho próprio, muitas vezes muito diferente daquele imaginado em seu início. Não por acaso, tantas investigações permanecem apenas suspensas, aguardando que um novo documento, uma lembrança de família ou uma descoberta inteiramente fortuita lhes permita prosseguir.
Naquele domingo, o Cacau apenas queria confirmar os nomes de meu primo Ernani e de Ivana para seus leitores. A resposta coube em poucos segundos. O que ela desencadeou, porém, levou-me da Brandemburgo à Volínia, de Brüderthal ao Jura suíço e, finalmente, de volta à própria história de minha família. Talvez seja essa a maior recompensa da genealogia: mostrar que, muitas vezes, as perguntas mais simples são justamente aquelas que nos conduzem às viagens mais inesperadas.
