Terno para Corpo Deformado

Texto reproduzido do livro “Histórias de Aprendiz” publicado pelo colunista.

Além de amigos, eram xarás: os dois se chamavam Júlio. Em comum, tinham outras características. Funcionários públicos, trabalhavam há três décadas no departamento financeiro da mesma estatal. A cada mudança de governo, religiosamente de quatro em quatro anos, um deles assumia a gerência do departamento, ganhando uns trocados a mais. Os dois entendiam essa alternância como normal; novos governantes não costumam confiar em quem ocupou cargo de confiança no governo anterior. Para diferenciá-los, os demais funcionários da estatal passaram a chamá-los de Júlio A e Júlio B.

Os ciclos de harmonia foram quebrados pela alteração da lei eleitoral: a reeleição permitiu a um mesmo governo exercer dois mandatos consecutivos. Assim, Júlio A permaneceu por oito anos como chefe do departamento financeiro da estatal.

Depois desse período, a oposição venceu as eleições. Com a alternância no poder, Júlio B assumiu a chefia. A vida dos amigos parecia ter voltado à velha rotina – sem sobressaltos e sem qualquer disputa aparente por poder.

Faltando ainda mais de ano para o final do mandato, a campanha eleitoral se precipita. Esquecendo-se que permaneceu na chefia do departamento por oito anos, Júlio A, aos poucos, deixa transparecer não apenas sua inquietude e insatisfação, mas também o desejo de retornar à gerência. Não era isso que planejava Júlio B, sonhando também ele em permanecer na chefia por oito anos. Como nenhum deles queria deixar transparecer seus próprios interesses, passaram a “esgrimir” argumentos diversos: realizações e pecados das administrações em que exerceram suas respectivas chefias. Em respeito à antiga harmonia, transferiram o palco das escaramuças verbais para o Bar da Esquina, anfiteatro neutro, fora do expediente, no horário que tempos antes era reservado para conversas amistosas do happy hour.

Aos poucos, os floretes foram substituídos por sabres afiados.

– Bando de ladrões, o pior governo que já tivemos, o chefe sabe de tudo, se sabe é culpado, se não sabe é incompetente! – Acusava Júlio A.

– Mas em menos de três anos, fez mais que o “seu” governo, em oito… – Decorrência de escândalos recentes, envolvendo auxiliares diretos do governador, Júlio B centrava sua argumentação no comparativo de realizações entre as duas administrações.

A conversa resvalava para terreno minado, pondo em risco a velha amizade.

Flores era um garçom especial. Silencioso, ouvia tudo que acontecia no bar, sem nunca palpitar em conversa ou entrevero. Sempre atento, adivinhava os pedidos dos fregueses, antes mesmo se serem verbalizados. Gostava dos dois amigos, acostumara-se a atendê-los com presteza só reservada para “clientes da casa”. Ao servir nova rodada de chope, não se conteve:

– Por que vocês não voltam a falar de mulher, de futebol, de viagens, como antigamente?

– Que é que você entende de política? – A irritação de Júlio B voltou-se contra Flores.

O garçom não se deixou intimidar. Sem demonstrar ressentimento – ele entendia, como poucos, os caminhos e atalhos da alma humana –, com a cortesia que lhe era peculiar, respondeu:

– Decerto entendo menos de política que os “senhores” (os dois Júlios entenderam o “senhores” como puxão de orelha em criança mal educada)… Mas sei que essa conversa está fora do rumo. Se a gente for aceitar como corretos os argumentos de vocês, vai acabar absolvendo os traficantes dos morros do Rio; eles também dizem ajudar suas “comunidades”, mas nem por isso deixam de ser bandidos…

Antes mesmo que os dois assimilassem a ousadia e o palavreado inusitado do garçom, Flores deu sua intervenção por encerrada.

– Meu pai, que era alfaiate, sempre dizia que não tem terno bom pra corpo deformado! Pode ser um Armani, que não tem jeito. Ele também dizia que falta de caráter é o aleijão da alma! Pra isso não tem conserto…

História presenciada pelo autor.

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