O painel “O Brasil que Queremos”, realizado no Conexa 2026, em Florianópolis, extrapolou em muito a proposta inicial de um simples encontro corporativo promovido pela Associação Empresarial de Florianópolis – ACIF. O evento transformou-se numa vitrine antecipada da reorganização da direita brasileira para 2026 e reuniu justamente os dois governadores alinhados ao empresariado que aceitaram participar do debate: Ronaldo Caiado e Romeu Zema.

O contexto político da última semana ampliou ainda mais o peso do encontro.

Desde a divulgação, pelo The Intercept Brasil, dos áudios e mensagens envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, instalou-se evidente tensão dentro da direita nacional. O episódio rapidamente deixou de ser apenas uma crise de imagem pontual para tornar-se fator de reposicionamento político dentro do campo conservador. A partir dali, lideranças passaram a medir palavras, recalibrar aproximações e testar movimentos de diferenciação pública.

Não se sabe ao certo se a ausência de Flávio Bolsonaro no Conexa decorreu de incompatibilidade de agenda ou de cálculo político deliberado. Há quem enxergue estratégia semelhante à frequentemente utilizada por Jair Bolsonaro, que em determinadas ocasiões evita participar de debates justamente para não ampliar o protagonismo de adversários ou concorrentes internos. O fato concreto é que Flávio Bolsonaro continua sendo hoje, depois do próprio Jair Bolsonaro, o nome de maior capacidade de mobilização emocional dentro da direita nacional. Sua ausência inevitavelmente reduziu parte da expectativa política do evento e tornou o palco uma disputa direta entre Caiado e Zema pela ocupação desse espaço.

O ambiente do Conexa favorecia fortemente discursos ligados à gestão, produtividade, eficiência e desenvolvimento econômico. Antes do painel político, o público acompanhou apresentações sobre inteligência artificial aplicada a negócios, redução de custos operacionais e oportunidades econômicas envolvendo o Paraguai. Tratava-se de um auditório pouco interessado em formulações abstratas e muito atento à demonstração concreta de capacidade administrativa.

Foi exatamente nesse cenário que Caiado cresceu.

Demonstrou experiência política, domínio de palco, segurança verbal e forte capacidade de articulação. Sua participação foi construída em torno de entregas concretas de governo, especialmente nas áreas de segurança pública, combate à criminalidade, infraestrutura, saúde, educação e atração de investimentos.

A diferença de densidade política entre os dois tornou-se particularmente evidente quando o debate avançou sobre segurança pública, corrupção e criminalidade. Caiado foi muito mais contundente ao abordar combate ao crime organizado, fortalecimento das forças policiais, autoridade estatal e enfrentamento à corrupção. Sua linha discursiva aproximou-se muito mais das pautas historicamente defendidas pelo bolsonarismo e por Flávio Bolsonaro do que da postura adotada por Zema ao longo do painel.

Inclusive, politicamente, Caiado mostrou-se muito mais cuidadoso em relação a Flávio Bolsonaro do que Zema.

Foi Caiado quem afirmou que o Brasil precisa de alguém com “moral para sentar na cadeira da Presidência” e que não esteja preocupado em defender a si próprio ou sua família perante a Justiça. Embora a frase tenha sido interpretada principalmente como crítica ao governo Lula, sua formulação aberta permitia leituras mais amplas dentro do atual ambiente político brasileiro. Ainda assim, Caiado evitou qualquer gesto ostensivo de ruptura ou distanciamento em relação ao bolsonarismo. Sua diferenciação foi construída principalmente pela experiência administrativa, pelas entregas de gestão e pela imagem de autoridade executiva.

Zema escolheu caminho bastante diferente.

Sua fala concentrou-se sobretudo em responsabilidade fiscal, desburocratização, PPPs e moralidade pública. O discurso, embora coerente com sua trajetória, acabou parecendo excessivamente técnico e frio diante da contundência apresentada por Caiado.

O ponto politicamente mais sensível de sua participação ocorreu justamente após os desdobramentos do caso Vorcaro. Depois das divulgações feitas pelo The Intercept Brasil, Zema resolveu adotar linha de ataque frontal contra Flávio Bolsonaro. Gravou vídeo afirmando que ouvir Flávio cobrando dinheiro de Vorcaro seria “imperdoável” e “um tapa na cara dos brasileiros de bem”.

No Conexa, não só não pareceu nem um pouco arrependido quanto às críticas realizadas contra Flávio Bolsonaro, como também subiu o tom: reforçou publicamente esse distanciamento ao declarar que jamais esteve com Vorcaro e que sequer possui seu contato telefônico. E o partido Novo em SC tratou de mobilizar claque para aplaudí-lo metodicamente.

O problema é que essa estratégia claramente não encontrou unanimidade dentro do público conservador presente.

Flávio Bolsonaro já havia apresentado explicações públicas sustentando que os contatos divulgados estavam relacionados a tratativas privadas de financiamento para um filme sobre Jair Bolsonaro. Admitiu posteriormente negociações privadas envolvendo patrocínio, ao mesmo tempo em que negou qualquer irregularidade ou contrapartida política.

Dentro do ambiente conservador, consolidou-se entre muitos a percepção de que o episódio integra mais um capítulo do processo contínuo de desgaste político e judicial dirigido ao bolsonarismo. Isso ajuda a explicar por que parte significativa da plateia majoritariamente simpática a Bolsonaro recebeu mal a postura de Zema.

A impressão predominante ao final do painel era bastante clara.

Caiado procurou diferenciar-se de Flávio Bolsonaro pela experiência de gestão, pela autoridade administrativa e pela contundência em temas caros ao eleitorado conservador, especialmente segurança pública, combate à criminalidade e corrupção.

Zema tentou diferenciar-se principalmente pela via moral e reputacional.

O resultado político do painel pareceu favorecer amplamente Caiado. Não apenas pela contundência discursiva, mas porque compreendeu melhor o humor predominante daquele ambiente empresarial e conservador. O público parecia muito mais interessado em liderança, firmeza, autoridade e capacidade concreta de governar do que em movimentos defensivos de afastamento político

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