Copercampos — do salão paroquial de Campos Novos ao agro que virou indústria, energia e futuro
Uma reportagem da série “Gigantes de SC”

Às nove horas da manhã de 8 de novembro de 1970, o salão paroquial da Igreja Matriz, em Campos Novos, virou palco de uma decisão que mudaria o destino do Meio-Oeste: 100 produtores se reuniram para criar uma cooperativa capaz de resolver um problema básico — armazenar trigo — e, sem saber, abrir caminho para uma das trajetórias mais consistentes do cooperativismo catarinense.
O plano inicial era direto: construir um armazém para a safra e um frigorífico para gado de corte, atividade forte na época. Um ano depois, em 1971, o primeiro objetivo já saía do papel: o armazém recebeu a produção de uma safra que, para aquele começo, parecia gigante — 24.389 sacos de 60 kg armazenados. Era pouco perto do que viria; era tudo para quem precisava de estrutura para crescer.
A primeira grande virada chegou cedo. Em 1972, os associados decidiram fazer uma campanha para incentivar o plantio de soja no município, visitando produtores e buscando referência no Rio Grande do Sul. Em poucos anos, o trigo deixava de ser o centro absoluto, e soja, milho, feijão e forrageiras ganhavam espaço. A Copercampos também estruturou assistência técnica com agrônomos e veterinários — e a produção de sementes de soja, iniciada ainda nos anos 1970, se tornaria um ativo de rentabilidade e identidade.
Com o tempo, a cooperativa deixou de ser só “grão e silo” para virar ecossistema. A própria Copercampos se define hoje como uma das importantes sementeiras do Brasil, com sementes de soja, trigo, feijão e diversas forrageiras. Vieram diversificações no campo, como leite e suinocultura, e a década de 1990 marcou um passo de maturidade: planejamento estratégico, programas de fidelidade e iniciativas de valorização do associado e da comunidade. É assim que uma cooperativa atravessa gerações: combinando produtividade com pertencimento.
Nos últimos anos, a história ganhou ritmo de expansão e de novos negócios. Em 2023, a Copercampos registrou faturamento bruto de R$ 4,5 bilhões e receitas líquidas de R$ 4,466 bilhões, apontadas como recorde histórico, num ano descrito como desafiador — e, ainda assim, sustentado por solidez e investimento.
Em 2024, mesmo com menor produção de grãos e sementes por fatores climáticos, a cooperativa ultrapassou a meta orçamentária prevista (R$ 4 bi) e fechou o ano com faturamento de R$ 4,287 bilhões. O balanço interno destaca um dado que explica a espinha dorsal do negócio: o setor de cereais responde por 53,9% do faturamento geral; e, no ano, a cooperativa afirma ter investido mais de R$ 240 milhões (cerca de 6,5% da receita líquida) em ativos, melhorias estruturais, expansão de filiais e industrialização para agregar valor.
Parte desse ciclo é expansão territorial e de serviços. Em janeiro de 2024, a Copercampos anunciou a incorporação de seis unidades que pertenciam à Copery (armazéns e lojas), reforçando a presença regional e a estratégia de crescer com estrutura já pronta e bem localizada. E, em 2025, inaugurou o Copercampos Atacadista em Caçador, com uma nova estrutura que também passou a abrigar uma loja agropecuária reposicionada, ampliando a atuação junto ao consumidor e ao produtor.
O capítulo mais simbólico dessa nova fase, porém, é o de energia e industrialização. Em março de 2024, durante o Show Tecnológico, a cooperativa anunciou investimentos superiores a R$ 200 milhões para construir uma usina de etanol em Campos Novos, com matéria-prima de milho e trigo. O projeto inclui também subprodutos como DDGs para ração, além de geração de energia. A própria cooperativa projeta início de operação em março de 2026, posicionando o empreendimento como um marco industrial para o estado.
E, em 26 de março de 2026, a Copercampos e a H2A Bioenergia inauguraram em Campos Novos uma usina de biometano a partir de dejetos suínos, apresentada como a primeira da América Latina com certificação para atuação no mercado regulado. O investimento citado é de cerca de R$ 65 milhões e o projeto transforma um passivo ambiental em ativos — biometano e CO₂ de grau alimentício —, reforçando a guinada da cooperativa para inovação e sustentabilidade.
Se números ajudam a contar a história, são as pessoas que dão sentido a ela. Do associado que decidiu cooperar em 1970 ao time técnico que acompanha lavoura e granja; de quem opera armazém, loja e indústria a quem planeja a próxima safra: a Copercampos é, no fundo, uma soma de rotinas que raramente viram manchete — mas que sustentam renda, produtividade e desenvolvimento regional. É justo reconhecer o que foi construído: não apenas pelo tamanho, mas pela capacidade de seguir evoluindo sem perder a essência cooperativista.
Linha do tempo — marcos essenciais
• 08/11/1970 — Fundação por 100 produtores em Campos Novos, para enfrentar gargalos de armazenagem do trigo.
• 1971 — Primeiro armazém entra em operação e recebe 24.389 sacos (60 kg).
• 1972 — Campanha para incentivar o plantio de soja e mudança do perfil produtivo regional.
• Anos 1970 — Início da produção de sementes de soja, base de rentabilidade e identidade.
• 02/01/2024 — Recorde informado em 2023: R$ 4,5 bi (bruto) e R$ 4,466 bi (líquido).
• 22/01/2024 — Incorporação de seis unidades da Copery (armazéns e lojas).
• 05/03/2024 — Anúncio da usina de etanol (investimento > R$ 200 mi).
• 02/01/2025 — Resultado de 2024: R$ 4,287 bi e investimentos > R$ 240 mi.
• 12/02/2025 — Inauguração do Atacadista em Caçador.
• 26/03/2026 — Inauguração da usina de biometano com certificação para mercado regulado.
