SC 500: os açorianos e o nascimento da identidade catarinense – Capítulo 5
Quinto capítulo da série mostra como a chegada das famílias açorianas, a partir de 1748, ajudou a transformar a ocupação portuguesa em vida comunitária, cultura e identidade no litoral de Santa Catarina.

Se a ocupação portuguesa garantiu presença, foi a chegada dos açorianos que ajudou a dar forma à identidade de Santa Catarina. A partir de meados do século XVIII, famílias vindas do arquipélago dos Açores, então ligado à Coroa portuguesa, desembarcaram no litoral catarinense com uma missão clara: povoar, produzir e consolidar o território. Mais do que ocupar, esses colonos ajudariam a construir um modo de vida que ainda hoje marca profundamente o estado.
A decisão de trazer açorianos não foi aleatória. Portugal enfrentava dificuldades no arquipélago, como superpopulação, crises econômicas e impactos de fenômenos naturais. Ao mesmo tempo, precisava reforçar sua presença no Sul do Brasil, região ainda sensível na disputa com a Espanha. A solução encontrada unia os dois interesses: enviar famílias para colonizar áreas estratégicas, especialmente no litoral catarinense. O Núcleo de Estudos Açorianos da UFSC registra que os primeiros 461 açorianos chegaram à Ilha de Santa Catarina em 22 de fevereiro de 1748, após 78 dias de viagem.
A chegada dos açorianos foi diferente de movimentos anteriores porque teve caráter familiar e organizado. Eles vieram para fixar residência, cultivar a terra, pescar, formar comunidades e criar presença permanente. Entre 1748 e 1756, segundo registros reunidos por instituições ligadas à UFSC, ocorreu a grande migração açoriana para o Brasil Meridional, deixando marcas decisivas na formação cultural catarinense.
Essas famílias se estabeleceram principalmente no litoral, em regiões como a Ilha de Santa Catarina, Laguna, São José, Biguaçu e outras áreas próximas. Ali desenvolveram agricultura de subsistência, pesca, produção artesanal e uma vida comunitária marcada por igrejas, praças, festas religiosas e relações de vizinhança. A ocupação deixava de ser apenas militar e passava a ser social.
O impacto foi muito além da economia. Grande parte da identidade cultural do litoral catarinense nasce nesse período. Festas religiosas, folclore, culinária baseada em frutos do mar, modos de falar, arquitetura colonial, renda de bilro, pesca artesanal e tradições comunitárias carregam influência açoriana. A arquitetura açoriana, ainda visível em cidades do litoral e especialmente em Florianópolis, é uma das marcas materiais dessa presença.
A cultura popular também preservou essa herança. O Núcleo de Estudos Açorianos da UFSC aponta que manifestações trazidas pelos casais açorianos em meados do século XVIII continuam sendo referência importante da cultura catarinense, especialmente no litoral. São tradições que atravessaram gerações e ajudaram a diferenciar Santa Catarina de outras regiões do Brasil.
A adaptação, porém, não foi simples. Os colonos enfrentaram isolamento, dificuldades de infraestrutura, limitações de produção e desafios de sobrevivência. Também houve tensões com populações já existentes, incluindo povos indígenas, que sofreram com a perda de território, a expansão dos núcleos coloniais e as mudanças impostas pelo avanço europeu. A formação da identidade catarinense, portanto, precisa ser contada com equilíbrio: ela produziu raízes culturais importantes, mas também ocorreu em um território onde outros povos já viviam.
Com o passar do tempo, os açorianos criaram raízes profundas. A influência está no sotaque do litoral, nas comunidades pesqueiras, nas festas do Divino, na relação com o mar, na culinária, nas construções históricas e no modo comunitário de viver. Florianópolis, antiga Desterro, ainda carrega fortemente essa herança em seus bairros, tradições e memória cultural.
O quinto capítulo da série SC 500 revela uma virada essencial. Se antes Santa Catarina era disputada e depois ocupada estrategicamente, agora começa a ser socialmente construída. O território deixa de ser apenas ponto militar e passa a ser espaço vivido, organizado e culturalmente marcado. É nesse encontro entre presença portuguesa, famílias açorianas, povos originários e ambiente litorâneo que nasce uma parte fundamental do que hoje entendemos como identidade catarinense.
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