SC 500: antes de tudo, havia a terra — e seus povos – Capítulo 1
Primeiro capítulo da série sobre os 500 anos de Santa Catarina mostra que, muito antes da chegada europeia, o território catarinense já era habitado, organizado e marcado pela presença dos povos Carijó-Guarani, Kaingang e Laklãnõ-Xokleng.

Antes de qualquer marco europeu, antes das disputas por território, antes das fronteiras políticas e muito antes do nome Santa Catarina existir, esta terra já era viva. O território que hoje forma o estado era ocupado por povos originários que mantinham relações profundas com o litoral, os rios, as matas, as serras e os caminhos naturais. Por isso, iniciar a história dos 500 anos de Santa Catarina pelos povos indígenas não é apenas uma escolha cronológica. É uma correção de perspectiva.
Muito antes de 1526, data usada como referência para as comemorações dos 500 anos em 2026, diferentes povos já habitavam a região. Entre eles, destacavam-se os Carijós, de origem Guarani, predominantes no litoral; os Kaingang, presentes em áreas do interior; e os Laklãnõ-Xokleng, ligados especialmente às regiões de mata e serra. Estudos e registros históricos apontam que a presença indígena em Santa Catarina é anterior à colonização europeia e constitui a base mais antiga da formação territorial catarinense.
Esses povos não apenas ocupavam o espaço. Eles organizavam modos de vida, formas de convivência, espiritualidade, alimentação, defesa e circulação. A ideia de uma “terra vazia” ou “terra sem dono”, muitas vezes associada ao início da colonização, não se sustenta historicamente. O território já tinha presença humana, cultura, identidade e formas próprias de pertencimento.
No litoral, os Carijós viviam próximos ao mar, aos rios e às áreas de pesca e coleta. Também praticavam agricultura básica, com cultivos como mandioca e milho, além de manterem deslocamentos ao longo da costa. A relação com o ambiente não seguia a lógica de exploração intensiva, mas de uso integrado dos recursos naturais, conforme as necessidades da comunidade e os ciclos da natureza.
No interior, os Kaingang e os Laklãnõ-Xokleng ocupavam áreas de mata, planalto e serra. Tinham maior mobilidade territorial, forte relação com a caça, a coleta e a defesa de seus espaços. Entre os Kaingang e Xokleng, há vínculos linguísticos e culturais associados aos povos Jê Meridionais, o que ajuda a compreender a complexidade dessas presenças no Sul do Brasil.
É importante lembrar que Santa Catarina, como estado, é uma construção histórica posterior. Antes disso, o território era um mosaico cultural e geográfico. Não havia a divisão política que conhecemos hoje, mas sim rotas naturais, aldeias, rios, florestas, áreas de circulação e formas diversas de ocupação. Cada povo compreendia a terra não como mercadoria, mas como continuidade da própria vida.
Os primeiros contatos com europeus, a partir do século XVI, começaram de forma esporádica, muitas vezes por meio de passagem de navegadores pela costa e trocas pontuais. Mas esse contato inicial logo abriria caminho para disputas, exploração, violência e perda de territórios. O que começou como aproximação transformou-se, em muitos momentos, em conflito e destruição.
Reconhecer essa origem não diminui nenhuma etapa posterior da história catarinense. Ao contrário, ajuda a entender melhor tudo o que veio depois: a colonização, a imigração, a formação das cidades, as disputas políticas, o desenvolvimento econômico e os conflitos por terra. Santa Catarina não começou do zero. Começou sobre uma história que já existia.
A série SC 500 nasce com esse compromisso: contar a história do estado de forma ampla, respeitosa e verdadeira. E a primeira verdade é esta: antes de Santa Catarina ser Santa Catarina, já havia povos, memória, cultura e pertencimento. Havia a terra — e havia quem a chamasse de casa.
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