Da glória ao abandono: a longa travessia da Ponte Hercílio Luz até renascer – Capítulo 2
Depois de décadas como principal ligação entre ilha e continente, a Ponte Hercílio Luz sofreu interdições, abandono e ameaças de demolição até ser salva pelo tombamento e por um processo longo e caro de restauração.

Durante quase meio século, a Ponte Hercílio Luz foi a grande ligação rodoviária de Florianópolis com o continente. Até a abertura da Ponte Colombo Salles, em 1975, ela foi a única passagem terrestre da capital catarinense. Ao longo desse período, tornou-se peça central da mobilidade urbana e do crescimento da cidade.
Mas o tempo, a falta de manutenção adequada e o aumento do tráfego começaram a cobrar um preço alto. Em 1982, depois de perícias que apontaram deterioração estrutural nas barras de olhal, a ponte foi totalmente interditada ao tráfego. Naquele momento, ela ainda absorvia 43,8% do trânsito de Florianópolis, com mais de 27 mil veículos por dia.
Houve uma reabertura parcial em 1988 para pedestres, ciclistas, motocicletas e veículos de tração animal, mas a estrutura voltou a ser fechada em 1991. A partir dali, a Hercílio Luz entrou em uma fase dolorosa de abandono, cercada por dúvidas sobre seu futuro. Em diferentes momentos, a ideia de demoli-la ganhou força na opinião pública, especialmente diante dos altos custos e da demora em encontrar uma solução definitiva.
O que impediu esse desfecho foi o reconhecimento de seu valor histórico. A ponte foi tombada em âmbito estadual em 1997 e reconhecida como patrimônio histórico, artístico e arquitetônico do Brasil, com inscrição no Livro do Tombo Histórico do Iphan em 1998. Sem esse conjunto de proteções, a maior imagem de Florianópolis talvez não existisse mais.
A restauração foi longa, complexa e cercada de controvérsias. Ao longo de anos, houve mudanças de consórcio, atrasos, entraves burocráticos e forte desgaste político em torno da obra. Ainda assim, a recuperação avançou e a ponte foi finalmente reaberta em 30 de dezembro de 2019, devolvendo à população um patrimônio que muitos já consideravam perdido.
Essa retomada não devolveu apenas uma estrutura de mobilidade. Devolveu autoestima, memória e pertencimento. A Hercílio Luz sobreviveu porque, em algum momento, Santa Catarina entendeu que certos símbolos não podem ser medidos apenas por planilhas, custo de obra ou fluxo de veículos.
No fim, a história da ponte também é uma lição. Ela mostra que o abandono do patrimônio cobra preço alto, mas mostra também que preservar a memória de um povo exige persistência. A Hercílio Luz caiu em silêncio por décadas, mas voltou em pé. E isso ajuda a explicar por que seu centenário tem um significado tão profundo.
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