Viajar sempre significou muito mais do que sair de um ponto e chegar a outro. Durante muitos anos, a preparação para uma viagem consistia em consultar guias impressos, estudar mapas, reservar hotéis e escolher alguns lugares que pareciam imperdíveis, deixando que o restante fosse acontecendo naturalmente. Havia planejamento, mas também havia espaço para a intuição, para as mudanças de rumo e para aquelas descobertas que acabavam se tornando as melhores lembranças de toda a viagem.

Na Itália, percebi que esse processo começou a mudar de maneira bastante sutil. Não porque a tecnologia tenha passado a decidir por nós, mas porque ela começou a participar das escolhas sem retirar a liberdade de fazê-las. Sem que isso tivesse sido planejado, acabei utilizando diferentes ferramentas de maneira integrada. Conversava com o ChatGPT, verificava as sugestões no Booking, utilizava o Google Maps para os deslocamentos e fotografava praticamente tudo o que despertava alguma curiosidade, desde cardápios e fachadas de restaurantes até igrejas, monumentos, edifícios históricos e paisagens. Somente no final da viagem percebi que aquelas ferramentas, embora completamente distintas entre si, haviam passado a funcionar como partes de um mesmo processo.

A primeira constatação surgiu diante de uma situação aparentemente banal. Fotografar um cardápio parecia ser apenas uma maneira rápida de traduzir um texto escrito em italiano. Logo ficou evidente que não era isso. Em muitos casos, mesmo compreendendo perfeitamente a tradução literal, eu continuava sem saber exatamente o que seria servido. A culinária italiana é profundamente regional, utiliza ingredientes, cortes de carne, embutidos, queijos e preparações que simplesmente não fazem parte do cotidiano de um brasileiro. Saber a tradução de um nome não significava compreender o prato.

Foi nesse momento que comecei a perceber uma diferença importante entre traduzir e interpretar. Ao fotografar o cardápio, eu deixava de receber apenas a tradução das palavras e passava a compreender a composição daquele prato, sua origem, a forma tradicional de preparo, a intensidade dos sabores e até se aquela escolha fazia sentido para o meu paladar e para o da Tina. O problema deixava de ser linguístico e passava a ser gastronômico. O objetivo já não era entender o italiano, mas compreender o que realmente chegaria à mesa.

A mesma lógica acabou se repetindo ao longo de toda a viagem. Sempre que fotografava uma igreja, um castelo, um palácio ou um edifício histórico, a fotografia deixava de ser apenas um registro e se transformava numa pergunta. Quem havia construído aquele prédio? Em que contexto histórico? Qual era sua importância? O que justificava determinados elementos arquitetônicos? Aos poucos fui percebendo que não estava simplesmente acumulando fotografias, mas reunindo informações que davam significado àquilo que eu via.

Quando chegava o momento de escolher uma hospedagem, o processo seguia naturalmente o mesmo caminho. Eu descrevia aquilo que procurávamos e o ChatGPT fazia sugestões compatíveis com essas preferências. Em seguida recorria ao Booking para verificar disponibilidade, preços, fotografias e avaliações antes de efetuar a reserva. Da mesma forma, quando surgia a indicação de um restaurante, de uma praia ou de uma pequena cidade, bastava inserir o destino no Google Maps para iniciar o deslocamento. Cada ferramenta permanecia especializada naquilo que fazia melhor, mas o resultado só aparecia porque todas elas estavam trabalhando de forma complementar.

O aspecto mais interessante dessa experiência, entretanto, não foi a integração entre as plataformas, mas a maneira como as recomendações passaram a evoluir. Sem que eu tivesse preenchido qualquer questionário ou configurado um perfil de viajante, o ChatGPT começou a compreender, pouco a pouco, como eu e Tina gostávamos de viajar. Percebeu que preferíamos hotéis familiares às grandes redes, que um excelente café da manhã tinha muito mais valor para nós do que instalações luxuosas, que dávamos preferência a restaurantes frequentados pelos próprios italianos e não àqueles claramente voltados para turistas, que caminhávamos sempre que possível pelos centros históricos e que uma estrada secundária, margeando vinhedos, pequenas cidades ou o litoral, normalmente nos proporcionava muito mais satisfação do que a autoestrada.

Nada disso foi informado de uma única vez. Esse perfil foi sendo construído naturalmente ao longo das conversas, a partir das escolhas que fazíamos, dos hotéis que aprovávamos, dos restaurantes que nos agradavam e dos comentários feitos durante a viagem. Em determinado momento, deixei de procurar simplesmente o melhor restaurante ou o melhor hotel. Passei a procurar aquele que melhor correspondia ao nosso modo de viajar. É uma diferença pequena apenas na aparência. Na prática, ela muda completamente a forma como a tecnologia participa das decisões.

Essa percepção ficou ainda mais evidente nas viagens de carro. Antes de partir, eu perguntava qual seria o percurso mais interessante entre duas cidades. A resposta raramente privilegiava apenas o tempo de viagem. Em diversas ocasiões surgiam sugestões para abandonar a autoestrada, percorrer estradas vicinais, acompanhar o litoral ou atravessar pequenas cidades que dificilmente fariam parte de um roteiro convencional. O deslocamento passava a integrar a própria viagem. Em vez de simplesmente ligar um destino ao outro, o caminho adquiria valor por si mesmo.

Foi justamente a partir dessas viagens de carro que comecei a perceber a principal limitação dos sistemas atuais de navegação. Eles continuam extremamente eficientes para responder como chegar mais rápido, mas essa já não era a pergunta que eu fazia. A pergunta passou a ser outra: por onde vale a pena passar?

Essa diferença tornou-se muito clara durante as caminhadas pelas cidades italianas. Não foram poucas as vezes em que chegávamos a uma esquina, olhávamos para a rua indicada pelo GPS e, intuitivamente, decidíamos não segui-la. Às vezes parecia deserta demais. Em outras ocasiões não transmitia uma boa sensação. Havia também ruas que simplesmente não despertavam qualquer interesse. Bastava caminhar mais uma quadra, escolher outra esquina e quase sempre apareciam uma praça agradável, uma rua mais arborizada, uma fachada preservada, uma livraria ou um pequeno café que jamais conheceríamos se tivéssemos obedecido rigorosamente ao trajeto indicado.

Curiosamente, percebi que faço exatamente a mesma coisa no meu cotidiano. Em Florianópolis, muitas vezes escolho um percurso mais longo porque passa por ruas mais bonitas, mais arborizadas, melhor cuidadas ou simplesmente mais agradáveis de percorrer. Em determinados horários, a segurança também influencia essa decisão, tanto a pé quanto de carro. O caminho mais curto nem sempre é aquele que oferece a melhor caminhada ou a viagem mais agradável.

É verdade que os aplicativos de navegação já conseguem incorporar informações sobre congestionamentos, acidentes e obras, recalculando automaticamente as rotas. Graças a isso, não raro acabamos conhecendo bairros, ruas e paisagens que jamais teríamos percorrido espontaneamente. A serendipidade continua presente, ainda que provocada por um algoritmo cujo objetivo era apenas economizar alguns minutos de viagem. Talvez esse seja um dos aspectos mais curiosos da tecnologia: ela acaba produzindo descobertas que nunca fizeram parte da intenção inicial.

Foi justamente essa percepção que me fez pensar que talvez a próxima etapa dessa evolução não esteja em encontrar caminhos cada vez mais rápidos, mas caminhos cada vez mais compatíveis com quem está viajando. Hoje escolhemos um hotel de acordo com nossas preferências, um restaurante de acordo com o nosso paladar e uma hospedagem de acordo com aquilo que valorizamos. Parece natural imaginar que, em algum momento, também possamos escolher percursos pela qualidade da caminhada, pela beleza urbana, pela arquitetura, pela arborização, pela segurança ou simplesmente porque tornam o deslocamento mais agradável. Nas viagens de carro, essa lógica já começou a aparecer quando passei a perguntar ao ChatGPT qual era o percurso mais interessante, e não o mais curto. Nas caminhadas pelas cidades, senti falta exatamente disso.

Também é difícil imaginar que continuaremos por muito tempo caminhando olhando para a tela do telefone celular, girando em cruzamentos até que o GPS recupere a orientação correta. Talvez essa informação passe a ser projetada em óculos ou, quem sabe um dia, em lentes de contato. Não para aumentar a quantidade de tecnologia entre o viajante e a cidade, mas justamente para reduzi-la, permitindo que a atenção permaneça onde sempre deveria estar: nas ruas, nas pessoas, na arquitetura e em tudo aquilo que motivou a viagem.

Ao final de cada um ou dois dias havia ainda um último ritual. Todas aquelas conversas, fotografias, observações e descobertas eram reunidas num diário de viagem. O texto não saía pronto. Eu fazia a revisão final, eliminava excessos, acrescentava minhas observações, reorganizava algumas passagens e somente então o enviava aos meus pais. Eles passaram a acompanhar a viagem praticamente em tempo real e, pouco depois, começaram também a compartilhar aqueles relatos com amigos. As fotografias deixavam de ser apenas imagens e passavam a integrar uma narrativa, na qual cada igreja, cada prato, cada estrada e cada pequena cidade apareciam acompanhados de contexto, história e impressões pessoais. Talvez seja justamente essa a maior diferença entre acumular fotografias e construir memória.

Enquanto escrevia esses diários, percebi que a própria viagem continuava acontecendo. Ao reorganizar os acontecimentos do dia, muitas observações que haviam passado despercebidas durante o percurso ganhavam significado. Uma conversa levava a outra, uma fotografia remetia a um detalhe arquitetônico, um restaurante lembrava uma pequena estrada sugerida horas antes e, pouco a pouco, tudo ia formando uma narrativa muito mais rica do que a simples sucessão de lugares visitados. Não sei se aqueles textos permanecerão apenas como lembrança de família ou se, algum dia, servirão de base para um livro sobre essa viagem. Sei apenas que eles registraram algo que dificilmente caberia em um álbum de fotografias: a maneira como fomos descobrindo os lugares e, ao mesmo tempo, percebendo que também existia uma nova forma de viajar.

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