Pescador Sabido

Texto reproduzido do livro “Histórias de Aprendiz” publicado pelo colunista.

Antônio Herculano dizia estar cansado da vida agitada e insegura de São Paulo. Queria qualidade de vida, tempo livre, proximidade com a família. Migrou para Florianópolis, a ilha encantada do Sul, “polinésia” da vez a seduzir gente de todos os quadrantes.

Comprou casa à beira mar, na praia do Cacupé. Dali até o centro, onde ficava o novo escritório, levava não mais que 15 minutos. Difícil livrar-se de velhos hábitos. Era dono do seu tempo, mas saía de casa sistematicamente antes das nove da manhã. Nos primeiros meses, desacelerava o carro para espiar a paisagem em todas as curvas onde a estrada encostava no mar. Com o passar dos tempos, passou a se irritar – cada dia mais – com aqueles “manezinhos” que não facilitavam a ultrapassagem.

Mas o que realmente passou a incomodá-lo era ver aquele sujeito folgado – que ele adivinhou ser pescador – sentado num banquinho, costas apoiadas na parede da casa de madeira, na última curva do Cacupé, tomando o sol da manhã, palheiro rolando entre os dedos. Dia sim, outro também.

Apesar de incomodado, não conseguia evitar que os olhares se cruzassem, levando os dois a se cumprimentarem com um aceno de cabeça.

Belo dia – a manhã estava realmente bonita, céu azul, água espelhada, sol quentinho espantando o frio do inverno que ia pelo meio –, Antônio Herculano não resistiu à tentação de “enquadrar” o pescador. Parou em frente à casa do homem. Bom jogador de pôquer, dissimulando o que lhe ia na alma e no pensamento, desceu do carro como quem não quer nada a não ser puxar conversa.

– Bom dia… – Apresentou-se. Declinou o nome. Perguntou pelo nome do outro. José; mas todos o conheciam pelo apelido: Olho Bom. O paulista contou que era morador novo.

– Eu sei – atalhou o pescador. – Lembro do dia que passou aqui pela primeira vez, passeando devagar…

O executivo não conseguiu perceber se o comentário tinha algum sentido escondido, mas se sentiu cutucado. E retrucou, com pergunta que tanto podia ser apenas pretexto para alongar a conversa como também para destilar veneno dissimulado em curiosidade:

– O senhor não trabalha, não?

– Trabalho, sim… – Olho Bom não passou recibo de qualquer contrariedade. – O senhor vendo aquelas bolas brancas, lá na direção da Ilha Rasa? São bóias de rede. Da minha rede. Bem cedinho, no escuro, quando a maior parte dos homens ainda dormindo (o executivo, uma vez mais, sentiu-se cutucado), peguei o barco e remei até lá pra revistar a rede. Fora a miudeira pra isca, tinha três peixes bons. Fiquei com um pra mistura do almoço. Ainda antes do senhor apontar na curva, já tinha vendido os outros dois. Reparti o dinheiro, dei parte pra mulher que foi pra cidade atrás de novidades e um troquinho pra filha, que dizia estar precisando comprar caderno, lápis, borracha, essas coisas de escola…

– Só isso? – O paulista não estava conformado.

– Como só isso?… O meu dia resolvido! – Na ótica do pescador, o assunto estava encerrado.

Não na cabeça do executivo, que queria viver igual aos manezinhos da ilha do sul, mas continuava preso a antigos paradigmas.

Habituado a achar soluções para os mais diversos problemas – não foi para isso que estudou engenharia? –, após uma rápida leitura dos ingredientes da história, sem deixar de incluir o pequeno barco de madeira escondido na sombra de uma árvore, iniciou defesa de tese que já antevia como um tratado digno de qualquer bom programa de governo.

– Pelo que vejo, o senhor só trabalha de manhã… – Ficou tentado a dizer “parte da manhã”, mas optou pela condescendência, melhor não criar resistências. Emendou a pergunta: – Nunca pensou em trabalhar também de tarde?

– Pra quê? – O pescador percebeu que o homem escondia alguma intenção, mas resolveu dar linha. Foi assim que lhe ensinaram a lidar com peixe manhoso e esperto: deixá-lo correr bom trecho, fazê-lo brigar até estrebuchar, antes de trazê-lo, arreado, para junto do barco.

– Ora… – O executivo iniciou a explanação… – Se trabalhar também de tarde, vai ganhar mais…

– Pra quê?

– Pra melhorar de vida… Parece que o senhor tem só um barco pequeno, sem motor.

– É…

– Pois é, o senhor podia comprar um barco melhor, maior, com motor…

– E daí?…

– Continua trabalhando de manhã e de tarde. Com um barco motorizado, vai ganhar ainda mais.

– E daí?

– Compra um barco maior… – Antônio Herculano estava incomodado com os sucessivos “pra quê?” ou “e daí?”… Não conseguiu definir se era apenas curiosidade ou se o homem mangava dele. Preferiu se fazer de desentendido.

– Pra quê? – O pescador parecia incansável….

– Para continuar melhorando de vida. Logo, compra outro barco… – O executivo optou por nova tática, a de atropelar as palavras, emendar frases, sem dar tempo a novas interrupções: – E passa a pescar com uma parelha. O rendimento vai lá pra cima. Vai demorar pouco pra trocar as baleeiras por duas traineiras, dessas de pescar em alto mar…

O homem titubeou, deu pequena pausa entre as palavras, precisava respirar. E ouviu:

– E daí?

– Ora, mais um pouco e vai estar com uma grande frota pesqueira. Faturando alto!

– Pra quê?

– Daí o senhor está feito na vida… Vende os barcos. E vai aproveitar a vida!

– Quer dizer: folgar, ficar de papo pro ar, fazer o que der na telha?

– É! É isso!…

– E eu preciso inventar tudo isso, pra depois de velhinho voltar a fazer o que já estou fazendo agora?…

História contada pelo “seo” Zé do Cacupé.

No dizer dele, o homem – para ser feliz – precisa aprender a dizer “não”.

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