PESCA DA TAINHA: DESAFIOS E OPORTUNIDADES

As imagens divulgadas recentemente por pescadores da Barra da Lagoa, em Florianópolis, revelam uma situação que merece reflexão. Em uma safra que muitos pescadores descrevem como uma das mais abundantes já observadas para o mês de maio, surgem relatos de dificuldades para comercialização do pescado, escassez de compradores, limitações logísticas para retirada da produção, falta de caixas para acondicionamento e dificuldades para absorção do volume capturado.
À primeira vista, a situação parece contraditória. Afinal, quanto maior a abundância, maior deveria ser a prosperidade. No entanto, a realidade econômica nem sempre funciona dessa forma. Entre o momento em que o peixe é capturado e o momento em que ele gera renda existe uma cadeia complexa que envolve transporte, armazenamento, processamento, comercialização, exportação e consumo.
Talvez essa seja a principal reflexão trazida pela atual safra da tainha. O debate pesqueiro costuma concentrar-se quase exclusivamente na captura, mas os fatos demonstram que os desafios da atividade não terminam quando o peixe chega à praia.
Um dos aspectos mais interessantes desta temporada é o relato recorrente de pescadores experientes afirmando que nunca haviam visto tanto peixe já no mês de maio. Se essa percepção estiver correta, estamos diante de uma safra excepcional não apenas em volume, mas também em precocidade.
Essa abundância ajuda a compreender parte do cenário atual. Quando grandes volumes de pescado chegam simultaneamente ao mercado, toda a cadeia produtiva passa a operar sob pressão. Compradores tornam-se mais seletivos, a logística precisa responder rapidamente e a capacidade de absorção do mercado passa a ser testada.
As informações trazidas por pessoas ligadas à indústria reforçam essa percepção.
Embora muitos peixes estejam chegando com excelente porte, as ovas ainda apresentam rendimento inferior ao esperado para processamento industrial. Como a exportação de ovas representa parcela importante da rentabilidade da cadeia produtiva, esse fator reduz o interesse econômico em determinados lotes.
Existe também a questão da qualidade. Segundo relatos do próprio setor, parte do pescado permanece tempo excessivo na praia antes de ser adequadamente refrigerado e transportado. Quando chega à indústria, chega “mole”, comprometendo seu valor comercial.
O cenário internacional também não ajuda. O principal mercado das ovas brasileiras é Taiwan, mas boas safras registradas em outras regiões do mundo contribuíram para um ambiente de maior oferta e pressão sobre os preços. Soma-se a isso um dólar inferior ao observado no ano passado, reduzindo a competitividade das exportações brasileiras.
Há ainda um fator adicional que não pode ser ignorado: a excelente safra de sardinha. Quando diferentes segmentos da pesca apresentam elevada produção ao mesmo tempo, a competição por mercado tende a aumentar.
Nenhum desses elementos está relacionado à disponibilidade do recurso pesqueiro. São fatores econômicos, logísticos, industriais e cambiais que afetam diretamente a rentabilidade da atividade.
Isso ajuda a compreender por que uma safra abundante não necessariamente se traduz em resultados econômicos igualmente abundantes.
Talvez uma das principais lições deste episódio seja a necessidade de ampliar o foco do debate pesqueiro.
Segundo os relatos apresentados, houve dificuldades para encontrar compradores, caminhões para transporte e até mesmo caixas para acondicionar parte da produção. Essas questões não pertencem ao campo da biologia pesqueira. São problemas de infraestrutura, organização e mercado.
Nesse aspecto, chama atenção a experiência dos pescadores do João Paulo.
Enquanto grande parte das discussões permanece concentrada na captura, aquela comunidade investiu décadas na construção de infraestrutura. Primeiro veio o trapiche, resultado de uma luta de mais de vinte anos. Agora surge o entreposto pesqueiro, que deverá beneficiar não apenas os pescadores locais, mas toda a pesca artesanal do mar de dentro da Ilha de Santa Catarina.
O trapiche não aumenta a quantidade de peixe disponível. O entreposto também não. Mas ambos aumentam a capacidade de armazenar, beneficiar, comercializar e agregar valor ao pescado. São investimentos voltados justamente para os gargalos que aparecem quando a produção é abundante.
Outro debate que merece atenção diz respeito às compras institucionais.
Se existem momentos em que a produção local encontra dificuldades de comercialização, é legítimo discutir se os mecanismos de compras públicas estão suficientemente conectados à realidade da pesca artesanal. A alimentação escolar movimenta volumes expressivos de alimentos todos os anos. Evidentemente, isso exige regularidade de fornecimento, organização, rastreabilidade e cumprimento das exigências sanitárias. Mas é um tema que merece ser debatido.
Também é importante reconhecer que nem todos os participantes da pesca da tainha possuem os mesmos interesses.
Há pescadores cuja renda depende diretamente da safra. Para essas famílias, trata-se de uma atividade econômica profissional.
Mas também existem parelhas de pesca cuja motivação principal está associada à tradição, à convivência comunitária e à preservação de costumes históricos. Em alguns casos, por trás das canoas estão empresários e pessoas com outras fontes de renda, para os quais o resultado financeiro da temporada possui importância secundária. Se houver peixe para compartilhar, consumir no rancho e manter viva a tradição, boa parte dos objetivos já estará alcançada.
Não existe nada de errado nisso. O problema surge quando se tenta tratar interesses distintos como se fossem idênticos.
A pesca da tainha é uma atividade profissional. Os pescadores possuem registro profissional e as embarcações recebem autorização específica para participar da safra. Por isso, qualquer discussão sobre o futuro da atividade precisa considerar também sua dimensão econômica.
É nesse contexto que surge o debate sobre as cotas.
Sob uma perspectiva estritamente técnica, muitos pescadores sustentam que a abundância observada ao longo dos últimos anos demonstra que a biomassa disponível é muito superior ao volume efetivamente capturado. Sob essa ótica, a manutenção de uma cota global seria desnecessária, já que a atividade estaria explorando apenas uma pequena parcela do estoque disponível.
Entretanto, enquanto existir uma cota global, surge uma segunda discussão igualmente legítima: a forma de distribuição dessa cota.
A experiência da frota embarcada demonstrou que cotas individuais podem ser utilizadas para distribuir melhor as oportunidades de pesca ao longo da temporada, evitando que poucos participantes concentrem grandes capturas logo no início da safra e consumam rapidamente a cota disponível.
Hoje, discussão semelhante começa a surgir em algumas comunidades pesqueiras. Não porque limitar uma praia faça outra pescar mais. A dinâmica dos cardumes não funciona dessa forma. A preocupação é evitar que poucas localidades concentrem parcela significativa das capturas enquanto outras sequer tiveram oportunidade de participar da safra.
Em outras palavras, se a cota global existe, a discussão deixa de ser apenas sobre o tamanho da cota e passa a envolver também a distribuição das oportunidades de pesca entre as diferentes comunidades ao longo do litoral.
Os acontecimentos desta temporada também levantam uma reflexão que praticamente nunca foi enfrentada de forma aberta. Se uma safra excepcionalmente abundante pode gerar dificuldades de comercialização, gargalos logísticos e pressão sobre os preços, talvez seja legítimo discutir de que maneira a concentração da oferta afeta a rentabilidade da própria atividade.
Não se trata de defender novas restrições nem de propor soluções simplistas. Trata-se apenas de reconhecer que a captura é apenas um dos elementos que determinam o sucesso econômico da pesca.
Existe ainda uma dimensão estratégica que merece atenção.
Vídeos mostrando dificuldades para absorver grandes volumes de pescado podem produzir efeitos políticos contrários aos pretendidos pelo próprio setor. Quem já possui predisposição para criticar a atividade pesqueira tende a interpretar essas imagens como demonstração de que o mercado encontra dificuldades para absorver a produção atual. Independentemente de concordar ou não com essa interpretação, ela existe e influencia o debate público.
A repercussão desta safra revela algo importante.
A pesca brasileira dedica enorme energia à discussão sobre captura, mas ainda dedica pouca atenção à discussão sobre mercado. Questões como comercialização, logística, armazenamento, beneficiamento, exportação, agregação de valor, cooperativismo e organização empresarial deveriam ocupar espaço muito maior dentro das entidades representativas e das próprias comunidades pesqueiras.
A atual safra demonstra que a abundância do recurso, por si só, não resolve todos os problemas da atividade.
A prosperidade não depende apenas da quantidade de peixe disponível no mar. Ela depende da capacidade de transformar essa riqueza natural em resultado econômico para quem vive da pesca.
Talvez tenha chegado o momento de dedicar à economia da pesca a mesma atenção que historicamente se dedicou à captura.
