Perspectiva Política
Participação, coerência e o papel do eleitor na democracia
A moeda tem dois lados

Existe um antigo ditado que diz que “toda moeda tem dois lados”. Talvez ele explique bem o momento político vivido pelo Brasil. O país atravessa um período de intensa participação popular no debate público, mas também de forte polarização, que muitas vezes dificulta o diálogo e a compreensão entre pessoas com visões diferentes.
O lado positivo
Há um aspecto extremamente saudável nesse processo. O brasileiro participa mais da política, acompanha as decisões dos governantes, opina, critica, fiscaliza e demonstra interesse por temas que, há alguns anos, despertavam pouca atenção. Uma democracia se fortalece quando seus cidadãos deixam de ser espectadores e passam a acompanhar de perto aquilo que acontece no país.
O lado preocupante
Ao mesmo tempo, a polarização trouxe um efeito colateral que merece reflexão. Muitas análises procuram discutir problemas estruturais do Brasil — temas que ultrapassam governos, partidos e mandatos —, mas frequentemente acabam sendo interpretadas como ataques ou defesas de determinado grupo político. Em muitos casos, a reação acontece antes mesmo da leitura completa do texto, impedindo que o debate se concentre nas ideias apresentadas.
Participar também é compreender
O amadurecimento político de uma sociedade leva tempo e faz parte do processo democrático. O importante é que a participação venha acompanhada da disposição para ouvir, refletir e compreender antes de julgar. A democracia amadurece quando o cidadão participa. Mas ela se fortalece quando essa participação é acompanhada pela capacidade de ouvir, compreender e respeitar quem pensa diferente.
A mesma régua, mais uma vez
A coluna volta ao tema da utilização da mesma régua na política porque entende que insistir nessa reflexão pode contribuir para um debate mais maduro, respeitoso e confiável. A credibilidade dos representantes públicos depende também da coerência demonstrada quando os erros são cometidos por aliados ou adversários.
A liturgia do cargo
Durante seu mandato, o ex-presidente Jair Bolsonaro foi criticado inúmeras vezes pelo uso de palavrões e por manifestações consideradas incompatíveis com a liturgia da Presidência da República. As críticas tinham fundamento: quem ocupa um cargo público de tamanha relevância deve compreender que suas palavras, seus gestos e seu comportamento representam uma instituição, e não apenas uma pessoa.
Mais recentemente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva exibiu o dedo do meio durante uma cerimônia oficial. Nesta semana, foi a vez do governador de Santa Catarina, Jorginho Mello, utilizar um palavrão ao se dirigir a integrantes de uma comunidade indígena. Os dois episódios reacenderam a discussão sobre o comportamento esperado de autoridades no exercício de seus cargos.
Reações diferentes
O que chama a atenção não é apenas o comportamento das autoridades, mas a diferença nas reações políticas. Um adversário de Jorginho Mello divulgou manifestação pública condenando a fala do governador. A crítica é legítima e faz parte do debate democrático. Entretanto, por pertencer ao mesmo campo político do presidente Lula, seria igualmente coerente que aplicasse o mesmo rigor ao gesto praticado pelo chefe do Executivo federal.
Oportunismo não é princípio
Preservar a liturgia do cargo é uma cobrança válida para qualquer governante. O problema surge quando a indignação depende do partido de quem errou. Criticar o adversário e silenciar diante do aliado não representa defesa institucional; representa conveniência política.
Coerência constrói confiança
A política brasileira precisa evoluir nesse aspecto. Erros devem ser reconhecidos e criticados independentemente de quem os pratique. Somente assim a população poderá acreditar que os discursos são guiados por princípios, e não apenas pelos interesses eleitorais do momento. A mesma régua não é um detalhe. É uma condição essencial para fortalecer a confiança nas instituições.
Crítica internacional

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a ser alvo de críticas da revista britânica The Economist, uma das publicações mais influentes do mundo em economia e política internacional. Em análises recentes, a revista classificou o líder brasileiro como “incoerente no exterior” e “impopular em casa”, apresentando uma avaliação crítica sobre seu governo e seu momento político.
Política externa em debate
Entre os principais pontos levantados pela publicação está a condução da política externa brasileira. A The Economist avalia que o Brasil tem se afastado do Ocidente e se aproximado de forma excessiva da Rússia, da China e do bloco dos BRICS. O governo brasileiro rebateu oficialmente as críticas, afirmando que sua atuação busca fortalecer o multilateralismo, ampliar o protagonismo do Brasil e preservar uma política externa soberana.
2026 no radar
Outro aspecto destacado pela revista foi a avaliação sobre uma eventual candidatura de Lula à reeleição em 2026. Na visão da publicação, fatores como a idade do presidente, a queda de popularidade e a ausência de renovação no campo da esquerda indicariam que o Brasil deveria contar com novas alternativas para a disputa presidencial.
A decisão pertence ao eleitor
Críticas internacionais têm relevância. As respostas oficiais do governo também fazem parte do debate democrático. Mas, em uma democracia, nenhuma revista, nenhum governo e nenhum analista substituem o julgamento das urnas. Em outubro de 2026, caberá exclusivamente ao eleitor brasileiro decidir se concorda com as avaliações da The Economist ou com os argumentos apresentados pelo governo federal.
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