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As últimas setenta e duas horas voltaram a espalhar a guerra por praticamente todo o Golfo Pérsico. A resposta americana aos ataques contra a navegação comercial não ficou restrita ao território iraniano. A reação de Teerã tampouco permaneceu dentro de suas fronteiras. Mísseis e drones voltaram a atingir países que abrigam forças dos Estados Unidos, recolocando toda a região sob tensão militar. O Estreito de Ormuz reassumiu imediatamente o centro da crise, os mercados reagiram com nova elevação do prêmio de risco sobre o petróleo, os custos do transporte marítimo aumentaram e o Fundo Monetário Internacional passou a reconhecer que a deterioração do ambiente geopolítico já reduz as perspectivas de crescimento da economia mundial. O impacto seria provavelmente mais severo não fosse o extraordinário ciclo de investimentos em inteligência artificial, infraestrutura energética, data centers, semicondutores e redes elétricas, que continua sustentando uma parcela importante da atividade econômica global justamente quando outros motores de crescimento começam a perder fôlego.

Talvez, porém, o aspecto mais importante dessa nova escalada não esteja na dimensão militar, mas na forma como ela vem sendo interpretada. Continua predominando a ideia de que o objetivo iraniano seria fechar o Estreito de Ormuz, quando tudo indica que a lógica da guerra passou a ser outra. Um bloqueio absoluto dificilmente sobreviveria por muito tempo diante da superioridade aeronaval americana. Washington dispõe de capacidade para preservar a liberdade de navegação. O problema já não consiste em impedir que navios atravessem o estreito, mas em impedir que essa travessia volte a ser considerada rotineira. Entre um corredor marítimo completamente fechado e outro plenamente seguro existe uma extensa zona cinzenta, e é nela que o conflito parece ter encontrado seu ponto de equilíbrio.

O Irã compreendeu há muito tempo que não venceria uma guerra convencional contra os Estados Unidos. Sua vantagem está em outra direção. Enquanto a navegação depender de escoltas permanentes, operações de desminagem, vigilância aérea ininterrupta e custos crescentes de seguro, a instabilidade passa a integrar o próprio funcionamento da economia mundial. O petróleo continua circulando, mas chega mais caro. O comércio continua existindo, mas sob maior incerteza. O efeito econômico deixa de depender da interrupção física do fluxo e passa a ser produzido pela percepção permanente de vulnerabilidade. Em uma economia globalizada, essa diferença vale bilhões de dólares.

É justamente essa redistribuição de custos que torna o conflito muito mais complexo do que uma simples disputa entre Washington e Teerã. Os Estados Unidos naturalmente suportam parte desse desgaste, mas seus principais concorrentes estratégicos tendem a suportar um peso proporcionalmente maior. A economia chinesa continua fortemente dependente da energia que atravessa o Golfo para alimentar sua estrutura industrial. O mesmo ocorre com boa parte do Oriente Asiático, cuja competitividade repousa sobre cadeias logísticas extremamente sensíveis ao custo da energia e do transporte marítimo. A Europa enfrenta situação igualmente delicada. Ainda procura absorver os efeitos da ruptura do antigo modelo energético, convive com crescimento modesto e permanece muito mais vulnerável a choques de preços do que a economia americana, hoje amparada por uma capacidade doméstica de produção de petróleo e gás muito superior àquela existente em crises anteriores.

Essa assimetria ajuda a compreender comportamentos que, à primeira vista, parecem contraditórios. Os Estados Unidos administram simultaneamente a contenção da China, a segurança das rotas marítimas e a preservação de sua liderança estratégica. A Europa enfrenta desafios muito mais imediatos. O Reino Unido amplia continuamente os investimentos destinados à proteção de cabos submarinos e de sua infraestrutura crítica diante da intensificação das operações híbridas atribuídas à Rússia. A França permanece pressionada por dificuldades fiscais, polarização política e tensões sociais recorrentes. A Itália continua absorvendo os efeitos da imigração irregular sobre suas finanças, sua segurança e seu sistema político. A Alemanha procura reconstruir a competitividade industrial perdida com a crise energética. Em maior ou menor grau, todos chegam a esta nova fase da ordem internacional menos preparados do que estariam há duas décadas.

O Brasil também ocupa posição desconfortável nesse tabuleiro. Beneficia-se de preços mais elevados para parte de suas exportações, mas permanece exposto ao aumento dos combustíveis, dos fertilizantes e dos custos logísticos. Tem na China seu principal parceiro comercial, depende do ambiente financeiro e tecnológico ocidental para sustentar investimentos e crescimento e acompanha uma transformação geopolítica emitindo sinais diplomáticos que frequentemente dificultam identificar uma estratégia nacional de longo prazo. Em um mundo que volta a se organizar em torno de interesses estratégicos permanentes, a previsibilidade passa a constituir um ativo de primeira grandeza. Países incapazes de transmitir claramente seus objetivos tendem a perder influência exatamente quando ela se torna mais necessária.

Se essa lógica permanecer predominando, a próxima semana dificilmente produzirá uma ruptura decisiva. Os incentivos caminham em direção oposta. Washington não tem interesse em assumir os custos de uma guerra de ocupação ou de uma mudança de regime cuja administração consumiria recursos gigantescos. Teerã sabe que uma tentativa de bloqueio efetivo de Ormuz ou um ataque de grandes proporções contra forças americanas poderia desencadear uma resposta incompatível com sua capacidade de sustentação. O resultado mais provável continua sendo uma escalada cuidadosamente administrada, suficiente para preservar a credibilidade de ambos, mas insuficiente para romper o delicado equilíbrio que hoje condiciona as decisões de todos os demais atores. A China continuará pressionando silenciosamente pela normalização das rotas energéticas; a Europa insistirá na contenção porque sua margem econômica é muito menor; e os mercados seguirão incorporando um risco que, paradoxalmente, interessa mais a alguns participantes do tabuleiro do que a outros. É exatamente esse cálculo de incentivos, muito mais do que a superioridade militar de qualquer dos lados, que tende a determinar o ritmo da guerra nos próximos dias

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