Perspectiva Política

Federalismo, comportamento do eleitor e estratégias de campanha moldam o cenário eleitoral.

Foto: Agência Brasil

Orgulho, não síndrome
Durante agenda em Santa Catarina, o presidente Lula afirmou que o estado teria “síndrome de grandeza”. Respeitosamente, esta coluna discorda dessa avaliação. Santa Catarina não sofre de síndrome de grandeza. Santa Catarina tem orgulho daquilo que construiu ao longo de sua história.

Esforço próprio
Nosso estado consolidou um dos melhores indicadores de desenvolvimento do país apoiado no trabalho de sua população, na força do empreendedorismo, no cooperativismo, na indústria, no agronegócio e em milhares de pequenos e médios negócios. Esse resultado não surgiu por acaso nem por privilégios. Foi construído, em grande medida, pelo esforço dos catarinenses.

Uma reivindicação histórica
Há décadas, lideranças políticas, empresariais e entidades representativas defendem uma distribuição mais equilibrada dos recursos arrecadados pela União. Santa Catarina figura entre os estados que mais contribuem para a arrecadação federal e, historicamente, reivindica um retorno proporcional em investimentos, especialmente em infraestrutura logística e de transportes. Essa não é uma reclamação recente nem partidária; é uma pauta histórica do estado.

Orgulho de ser catarinense
Ter orgulho da própria história, valorizar quem produz riqueza e cobrar um tratamento mais equilibrado da Federação não é sinal de grandeza. É exercer legitimamente o direito de defender os interesses de Santa Catarina e de sua população. E isso continuará sendo feito, independentemente de quem esteja ocupando a Presidência da República.

Eleitor mais independente
Uma mudança importante vem marcando as eleições brasileiras nos últimos anos: muitos eleitores deixaram de seguir automaticamente as decisões partidárias e os acordos firmados pelas lideranças políticas. O voto passou a ser cada vez mais individual e menos condicionado às orientações das siglas.

Convicções acima dos partidos
Em Santa Catarina, esse comportamento já pode ser percebido em diferentes campos políticos. Há eleitores conservadores que demonstram resistência à candidatura de Carlos Bolsonaro (PL), militantes do MDB que manifestam dificuldade em apoiar Esperidião Amin (PP), adversário histórico do partido, e eleitores de esquerda que questionam o apoio ao pré-candidato Gelson Merísio (PSB) em razão de seu posicionamento em eleições anteriores.

Redes sociais ampliam o debate
Esse novo comportamento tornou-se ainda mais visível com o crescimento das redes sociais. O eleitor acompanha informações de diferentes fontes, debate política em tempo real e manifesta suas posições de forma muito mais ativa do que em eleições passadas.

Lideranças já não decidem sozinhas
As alianças partidárias continuam importantes, mas já não garantem a transferência automática de votos. O eleitor tornou-se mais crítico, mais informado e mais disposto a manter suas próprias convicções, mesmo quando elas divergem das decisões tomadas pelas lideranças políticas. Essa talvez seja uma das maiores transformações da democracia brasileira nas últimas décadas.

Lula em Itajaí
O presidente Lula esteve em Itajaí para participar da cerimônia de lançamento e batismo da Fragata Cunha Moreira, novo navio de guerra que será incorporado à Marinha do Brasil. Durante o evento, defendeu investimentos na área de defesa diante das instabilidades internacionais e da necessidade de proteger a soberania nacional.

Defesa e protagonismo
Em seu pronunciamento, Lula voltou a criticar Donald Trump, citando declarações envolvendo Groenlândia, Canadá e o Canal do Panamá. Polemizar com o líder da maior potência mundial é uma estratégia conhecida na política, capaz de projetar visibilidade e ampliar o protagonismo do debate.

Soberania no discurso
Em um momento em que pesquisas apontam dificuldades para o governo e para a avaliação presidencial, a pauta da soberania nacional tende a mobilizar parte do eleitorado e reposicionar o debate político. Cabe aos eleitores avaliar a eficácia dessa estratégia ao longo da campanha.

A dinâmica das alianças
A política é um processo essencialmente dinâmico. Companheiros de ontem podem se tornar adversários amanhã, assim como antigos adversários podem construir projetos em comum. As alianças são influenciadas pelo momento político, pelas circunstâncias eleitorais e pelas oportunidades que surgem ao longo do caminho.

Santa Catarina foge ao padrão
No cenário nacional, a tendência é de uma disputa marcada pela polarização entre os campos liderados pela direita e pela esquerda. Em Santa Catarina, porém, o quadro se desenhou de forma diferente. Além das candidaturas identificadas com esses dois polos, consolidou-se uma terceira aliança, liderada pelo ex-prefeito de Chapecó, João Rodrigues (PSD), reunindo partidos e lideranças com trajetórias distintas.

Passagens pelos governos
Essa composição ajuda a explicar por que o debate tende a ser mais moderado em alguns momentos. No plano federal, PSD, MDB e PP ocuparam espaços relevantes no governo Lula por meio de ministérios. Em Santa Catarina, MDB, PP e PSD também participaram da atual administração estadual, assumindo secretarias estratégicas. Esse histórico de participação em diferentes governos torna mais difícil a construção de discursos de oposição absoluta, já que muitos dos atuais protagonistas estiveram, em algum momento, dos dois lados da gestão pública.

Crítica com limites
Isso não significa que deixarão de existir críticas entre os grupos políticos. Elas fazem parte da democracia. Mas o histórico de alianças e de participação administrativa tende a limitar ataques mais contundentes, pois, de uma forma ou de outra, os principais partidos envolvidos também ajudaram a construir parte das políticas públicas que hoje estão em debate.

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