Milei leva críticas à ONU para dentro da própria ONU e chama organização de “inútil”
Presidente argentino faz duro discurso na Assembleia Geral, acusa organismo de fracassar em segurança, direitos humanos e cumprimento de suas próprias resoluções e reacende debate sobre a eficácia das Nações Unidas.

As críticas à Organização das Nações Unidas não são novas.
Há anos, diferentes governos, especialistas e setores da sociedade questionam a capacidade da ONU de produzir resultados concretos diante de guerras, conflitos internacionais, violações de direitos humanos e crises que atravessam fronteiras.
Nesta quarta-feira (23), entretanto, o presidente da Argentina, Javier Milei, decidiu levar essas críticas diretamente ao principal palco da própria organização.
E não utilizou meias palavras.
Durante seu discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, Milei afirmou que a ONU “se tornou uma organização inútil” e acusou a estrutura internacional de sustentar aquilo que classificou como uma “casta de parasitas” disfarçada de burocracia bem-intencionada.
A frase concentrou a parte mais dura do discurso.
Mas Milei não parou nela.
Segundo o presidente argentino, organismos que deveriam garantir segurança coletiva e direitos humanos fracassaram em sua missão e permitiram, em suas palavras, a expansão do caos, da violência e do terrorismo internacional.
O discurso colocou no centro da própria Assembleia Geral uma discussão que normalmente ocorre do lado de fora dela:
a ONU ainda consegue cumprir de maneira efetiva as funções para as quais foi criada?
Milei utilizou diferentes exemplos para sustentar sua crítica.
Um deles foi a disputa histórica entre Argentina e Reino Unido pelas Ilhas Malvinas.
O presidente argentino afirmou que existem resoluções das Nações Unidas relacionadas ao tema, mas questionou a capacidade da organização de fazê-las produzir efeitos concretos.
Segundo Milei, quando países que seguem determinadas regras não recebem qualquer resultado e aqueles que as descumprem não sofrem consequências, a própria credibilidade do sistema internacional passa a ser colocada em dúvida.
Ele também criticou a atuação internacional durante a pandemia de Covid-19 e manifestou oposição a iniciativas de maior controle estatal sobre inteligência artificial.
A crítica à ONU ganhou ainda mais dimensão nos últimos anos por causa das controvérsias envolvendo a Agência das Nações Unidas para os Refugiados Palestinos, a UNRWA.
Em 2024, autoridades israelenses acusaram funcionários da agência de participação nos ataques realizados pelo Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023.
A própria ONU abriu investigação sobre 19 funcionários.
Em um caso, não foram encontradas evidências que sustentassem a acusação. Em outros nove, as provas foram consideradas insuficientes.
Nos nove casos restantes, a investigação concluiu que as evidências, se autenticadas e corroboradas, poderiam indicar participação nos ataques. Os contratos desses funcionários foram encerrados pela UNRWA.
Uma revisão independente realizada posteriormente também afirmou que Israel havia apresentado acusações mais amplas sobre vínculos entre funcionários da UNRWA e organizações armadas, mas que não fornecera evidências suficientes para sustentar todas elas.
O episódio ampliou os questionamentos sobre mecanismos de controle, neutralidade e fiscalização dentro das estruturas ligadas às Nações Unidas.
E ajuda a explicar por que discursos críticos como o de Milei encontram espaço no debate internacional.
A ONU foi criada em 1945 com objetivos ambiciosos: preservar a paz, promover cooperação entre países, defender direitos humanos e criar mecanismos para enfrentar conflitos internacionais.
O problema é que o mundo atual apresenta situações em que a organização frequentemente encontra grandes dificuldades para transformar decisões políticas em resultados concretos.
Parte dessa limitação está na própria estrutura institucional.
O Conselho de Segurança, por exemplo, concede poder de veto aos cinco membros permanentes — Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido. Em conflitos que envolvem diretamente interesses dessas potências, decisões importantes podem ser bloqueadas.
Há também uma diferença fundamental entre aprovar uma resolução e conseguir fazê-la cumprir.
A ONU depende, em grande medida, da cooperação dos próprios Estados que a compõem.
Isso não significa que a organização não tenha importância.
Agências das Nações Unidas desenvolvem trabalhos humanitários, sanitários, alimentares, educacionais, de proteção a refugiados e de manutenção da paz em diferentes partes do mundo.
Mas essa contribuição não elimina os questionamentos sobre eficiência, burocracia, representatividade e capacidade de resposta política da instituição.
Foi exatamente nessa ferida que Milei tocou.
A diferença desta vez foi o local.
Não foi uma entrevista.
Não foi um comício.
Não foi uma declaração feita em Buenos Aires.
O presidente argentino fez sua crítica diante da própria Assembleia Geral das Nações Unidas.
Ao chamar a organização de “inútil” e atacar diretamente sua burocracia, Milei transformou seu discurso em um dos momentos mais contundentes da reunião deste ano.
Resta saber se terá alguma consequência.
A ONU já passou por diferentes ciclos de críticas e propostas de reforma.
Discute-se há décadas a composição do Conselho de Segurança, o poder de veto, a representatividade dos países emergentes, o tamanho da burocracia e a capacidade de transformar resoluções em ações efetivas.
Mudanças profundas, entretanto, são difíceis justamente porque dependem do acordo entre os próprios países que integram e controlam a estrutura.
Milei colocou novamente essas questões sobre a mesa.
Desta vez, de maneira particularmente direta.
A pergunta que fica depois do discurso não é apenas se suas palavras foram excessivamente duras ou adequadas.
É outra:
a ONU consegue responder, com resultados concretos, às críticas sobre sua própria capacidade de cumprir a missão para a qual foi criada?
A resposta não virá de discursos.
Virá da capacidade — ou não — de produzir resultados.
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