MANUEL E UM SORRISO EM VENEZIA

Chegamos a Venezia por Mestre, decisão que se revelou acertada desde o primeiro momento. Para quem viaja de carro ou de trem, hospedar-se na parte continental simplifica a logística sem retirar absolutamente nada da experiência de conhecer uma das cidades mais fascinantes do mundo. Escolhemos o Leonardo Royal Hotel Venice Mestre, localizado praticamente ao lado da estação ferroviária, um hotel moderno, pertencente a uma das maiores redes hoteleiras da Europa, cuja arquitetura e organização lembram muito mais um centro internacional de negócios do que a Veneza idealizada pelos cartões-postais. Durante alguns instantes tive a sensação de estar em Miami ou mesmo em São José dos Pinhais, na região metropolitana de Curitiba, onde grandes bandeiras internacionais se concentram para atender o intenso movimento de passageiros.
A primeira surpresa, entretanto, surgiu quando abri a cortina do apartamento. Depois de dias percorrendo Roma, a Maremma, a Toscana, a Emilia-Romagna e o Veneto, especialmente a região das Dolomiti, imaginava reencontrar vinhedos, colinas, pequenas igrejas ou cidades medievais. Em vez disso, a vista era dominada por um gigantesco complexo industrial.
Diante de nós estava a Fincantieri, um dos maiores grupos de construção naval do planeta e o maior da Europa. A empresa, herdeira da tradição marítima veneziana iniciada ainda nos tempos do lendário Arsenale da Sereníssima República, constrói embarcações militares, navios de alta complexidade tecnológica e alguns dos mais sofisticados navios de cruzeiro do mundo. Em seus estaleiros nasceram embarcações para Costa Crociere, Cunard, Princess Cruises, Holland America Line, Oceania Cruises, Regent Seven Seas e diversas outras companhias.
Confesso que aquela vista teve para mim um significado muito especial. Pela minha atuação profissional ligada ao Direito da Orla, à economia do mar, às marinas e à infraestrutura náutica, eu não enxergava apenas um estaleiro. Via um dos maiores símbolos mundiais da indústria naval contemporânea, responsável por transformar projetos em gigantes que, poucos anos depois, cruzariam oceanos transportando milhares de passageiros.
A própria Mestre passou a fazer sentido.
Não se trata apenas de um local onde hotéis custam menos do que na ilha histórica. Mestre funciona como a verdadeira retaguarda logística de Venezia. Pela estação Venezia Mestre passam diariamente centenas de trens e dezenas de milhares de passageiros. Em poucos minutos chega-se à estação Venezia Santa Lucia, já no coração da cidade histórica. Soma-se a isso o aeroporto Marco Polo, os terminais rodoviários, os ferries que cruzam o Adriático em direção à Croácia e à Grécia e a estrutura portuária responsável pelos embarques e desembarques dos cruzeiros.
Durante décadas Venezia consolidou-se como um dos maiores home ports da Europa. Mesmo após a retirada dos megacruzeiros da frente da Piazza San Marco, preservando uma das paisagens urbanas mais conhecidas do planeta, a atividade permaneceu intensa por meio das operações realizadas em Marghera, demonstrando que era possível compatibilizar preservação patrimonial e atividade econômica.
No dia seguinte descemos de trem na estação Venezia Santa Lucia e optamos por fazer exatamente aquilo que considero indispensável a quem visita Venezia pela primeira vez: caminhar.
Atravessamos o Canal Grande por suas pontes, percorremos as vielas estreitas, cruzamos pequenos canais, observamos fachadas desgastadas por séculos de maresia e deixamos que a cidade fosse se revelando lentamente, sem qualquer compromisso com roteiros rígidos. Tenho a impressão de que muita gente desembarca em Venezia apenas para fotografar a Piazza San Marco, fazer um passeio de gôndola e seguir viagem. Basta observar as filas. Em tempos de redes sociais, muitos destinos acabam resumidos a uma única fotografia.
Antes do almoço caminhamos pela elegante Calle Larga XXII Marzo, rua que concentra as principais grifes internacionais instaladas em Venezia. Foi impossível não perceber que esse mesmo padrão havia se repetido ao longo de toda a viagem. Em Roma, a referência é a Via dei Condotti; em Firenze, a Via de’ Tornabuoni; em Venezia, a Calle Larga XXII Marzo. Louis Vuitton, Gucci, Prada, Hermès, Dior, Cartier, Bulgari, Bottega Veneta e Ferragamo pertencem a diferentes conglomerados empresariais, mas compreenderam há muito tempo que o luxo também depende da localização. Quem procura uma dessas marcas normalmente percorre todas as demais, transformando essas ruas em verdadeiros destinos internacionais de compras.
Mantivemos em Venezia um hábito adquirido durante toda a viagem pela Itália: almoçar tarde. Muito tarde. Quase sempre nossas refeições começavam quando muitos restaurantes já encerravam o movimento tradicional do almoço. Foi nesse horário que encontramos o Bistrò 1473, escondido entre as vielas de San Polo, longe da agitação do Canal Grande.
Foi ali que conhecemos Manuel, o gentil garçom que nos atendeu.
Durante a conversa contou que sua família reunia raízes indianas e colombianas. Antes mesmo de abrirmos o cardápio perguntou apenas se gostaríamos de conhecer a verdadeira cozinha veneziana. Respondemos afirmativamente e, a partir daquele momento, todas as escolhas passaram a ser dele.
O almoço começou pelos tradicionais cicchetti, equivalentes venezianos das tapas espanholas, pequenas porções servidas há séculos nos antigos bacari. Vieram prosciutto crudo, salmão defumado, baccalà mantecato, alcachofras, azeitonas marinadas e outras especialidades da casa, acompanhadas por um Spritz.
Na sequência Manuel recomendou, com evidente entusiasmo, o tagliatelle alle vongole, finalizado com bottarga ralada. Explicou que tanto as vongole quanto a bottarga ocupam posição de destaque na gastronomia veneziana e que aquele era um prato do qual o restaurante muito se orgulhava. Para acompanhar, escolheu um excelente vinho branco produzido no Veneto.
Ao final do tagliatelle alle vongole, restava no fundo do prato um caldo extraordinário, resultado da emulsão natural formada pelo líquido liberado pelas vongole, pelo vinho branco utilizado no preparo, pelo azeite de oliva e pelo prezzemolo, a salsinha italiana. Resistir seria quase um desperdício. Peguei um pedaço de pão e fiz a tradicional scarpetta, gesto tipicamente italiano que consiste em aproveitar até a última gota do molho, passando o pão pelo prato. Quando Manuel voltou para retirar a louça, sorriu ao ver que não sobrara absolutamente nada e exclamou, satisfeito: “Piatto pulito!”, expressão que significa literalmente “prato limpo” e que, para um cozinheiro ou um bom garçom, representa talvez o mais sincero elogio que um cliente pode fazer.
Chamou-me a atenção o fato de que jamais mencionou preços. Também não abrimos o cardápio para procurá-los. Apenas quando o pedido já estava definido perguntei quanto custaria o prato. Manuel pareceu sinceramente incomodado com a pergunta e respondeu que eu não precisava me preocupar, porque não seria explorado. Acrescentou que, para ele, o dinheiro vinha em segundo plano e que o mais importante era a satisfação dos clientes.
Quando a conta chegou compreendi perfeitamente suas palavras. A refeição era extraordinária, o vinho harmonizava perfeitamente e o valor cobrado era absolutamente justo.
Ao final fizemos questão de elogiar seu atendimento e, claro, deixar uma boa e merecida gorjeta.
Foi então que Manuel respondeu com uma sinceridade que dificilmente esquecerei. Disse que sua vida era muito difícil, que as pessoas não imaginavam os problemas que enfrentava fora do restaurante, mas acrescentou que sabia que seus clientes estavam vivendo um momento feliz, de férias, e fazia questão de contribuir para que levassem uma boa lembrança de Venezia.
Poucas horas depois embarcamos na tradicional gôndola.
O próprio gondoleiro, sem saber onde havíamos almoçado, recomendou evitar os restaurantes localizados às margens do Canal Grande, afirmando que muitos oferecem uma vista melhor do que a comida. Sorri discretamente, porque, sem saber, apenas confirmava a impressão que já havíamos levado.
Também descobri que a parte mais interessante de Venezia começa justamente quando a gôndola abandona o Canal Grande e penetra nos canais estreitos e silenciosos, onde desaparece o intenso movimento de vaporetos e embarcações de serviço. Ali o gondoleiro deixa de ser apenas um remador e passa a exercer um excelente trabalho de receptivo turístico, identificando igrejas, palazzi, antigos armazéns, residências de mercadores e episódios da história da antiga República de Venezia.
Na volta fizemos uma escolha diferente.
Depois de muitas horas caminhando e do passeio de gôndola, retornamos utilizando o excelente sistema de transporte público aquaviário. Se na ida preferimos conhecer a cidade a pé, atravessando pontes e percorrendo suas ruelas, a volta permitiu descobrir outra Venezia. Embarcamos em um vaporetto, que alternava sucessivamente atracações nas duas margens do Canal Grande, embarcando moradores, trabalhadores e turistas em estações flutuantes perfeitamente integradas ao cotidiano da cidade. Mais do que um passeio, tratava-se de transporte coletivo de alta eficiência, demonstrando que, em Venezia, a água não representa apenas paisagem ou atração turística. Ela faz parte da infraestrutura urbana. Enquanto navegávamos em direção à estação ferroviária, desfrutávamos de novas perspectivas tanto da parte insular quanto do continente, percebendo como Mestre e Venezia formam, na prática, um único sistema urbano articulado pela ferrovia e pelo transporte aquaviário.
Foi justamente naquele trajeto que revi uma posição defendida durante muitos anos.
Sempre fui favorável à atração dos grandes fun ships para Florianópolis. Hoje acredito que nossa estratégia deva ser outra.
Venezia continua sendo um dos destinos mais extraordinários do planeta, mas também demonstra os efeitos do turismo de massa sobre uma cidade cuja população residente diminui enquanto o número de visitantes cresce continuamente.
Florianópolis talvez ainda tenha a oportunidade de fazer uma escolha diferente, posicionando-se no segmento ocupado por companhias como Silversea, Regent Seven Seas, Explora Journeys, Seabourn, The Ritz-Carlton Yacht Collection, Oceania Cruises, Viking e Azamara, cujos navios menores transportam hóspedes de elevado poder aquisitivo, que permanecem mais tempo nos destinos, utilizam hotéis antes e depois do embarque, frequentam bons restaurantes, contratam passeios personalizados e valorizam exatamente aquilo que nossa cidade possui de melhor.
Voltei de Venezia com centenas de fotografias, mas as lembranças mais importantes permaneceram na memória: a vista da janela voltada para a Fincantieri, símbolo maior da economia do mar; o profissionalismo de Manuel, que compreendia que hospitalidade se constrói pela confiança e não pela exploração do turista; e a certeza de que cidades verdadeiramente inteligentes não medem o sucesso apenas pelo número de visitantes que recebem, mas pela qualidade da experiência que oferecem e pela riqueza que conseguem gerar preservando a própria identidade.
