Lição de Índio

Texto reproduzido do livro “Histórias de Aprendiz” publicado pelo colunista.

Parque Nacional do Xingu, fim dos anos 60, início dos anos 70. Nas últimas décadas, os irmãos Villas Bôas tinham contatado uma série de tribos indígenas pelos sertões do Brasil. Acreditavam que, no momento e nas circunstâncias, o melhor a fazer era convencê-los a migrar para o parque, ainda território seguro para a sobrevivência não apenas das gentes, mas também dos costumes, crenças e jeito de viver…

Além dos dois irmãos – Orlando e Cláudio – havia mais alguns caraíbas no parque: aprendizes de indigenista, antropólogos, enfermeiros.

A estação da seca avançava rapidamente. Corredeiras davam lugar a remansos, praias de areia fina e branca surgiam nos barrancos, braços de rio minguavam até se tornarem córregos de correnteza preguiçosa.

Aproveitando a época propícia, os índios resolveram pescar, utilizando antigos métodos, herdados dos antepassados. Maceravam o timbó, um cipó da região, e espalhavam o “veneno” nos remansos dos córregos. Demorava pouco para que os peixes, levados pela falta de oxigênio, “pranchassem”, boiando indefesos na superfície. A pescaria se revelava fácil e farta.

Um dos “caraíbas” viventes no parque, o mais jovem deles, reparou que entre os pescadores só havia índios adultos, na maioria velhos. Os curumins, indiferentes, brincavam longe dali. Mesmo sabendo que não lhe cabia “se intrometer em assunto de índio” – enfermeiro, ele estava ali apenas para casos de emergência ou contágio com doenças de homem branco –, aproximou-se.

– Por que vocês não chamam os curumins pra pescar com vocês? – perguntou.

Um dos índios – talvez o mais velho – limitou-se a encarar, com olhar interrogativo, o jovem caraíba que, por sua vez, apressou-se em explicar sua preocupação.

– Se eles não aprenderem a pescar com timbó, o conhecimento e a tradição acabam se perdendo.

– E quem disse que os curumins querem aprender? – filosofou o velho índio. – Se não querem aprender, não vale o esforço. O dia que precisarem, vão perguntar…

E sem mais conversa, continuou a recolher os peixes que se debatiam na superfície do rio.

História ocorrida no Parque Nacional do Xingu, num tempo em que ainda se dançavam quarups.

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