Fiesp critica governo brasileiro e afirma que tarifaço dos EUA poderia ter sido evitado
Entidade industrial aponta falhas na condução diplomática, alerta para perda de competitividade e promete atuar pela reversão ou redução das sobretaxas

A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo emitiu nota oficial manifestando profunda preocupação com a nova sobretaxa imposta pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros. Além de criticar a decisão unilateral do governo norte-americano, a entidade atribuiu parte do agravamento da situação à forma como o governo brasileiro conduziu as relações diplomáticas com Washington.
Segundo a Fiesp, a aplicação da tarifa adicional é especialmente prejudicial porque atinge o Brasil de maneira diferenciada, reduzindo a competitividade dos produtos nacionais diante de concorrentes de outros países no mercado norte-americano.
A entidade também fez críticas diretas à política externa brasileira. Na avaliação da federação, ruídos diplomáticos desnecessários, críticas personalistas, discursos eleitorais e o desalinhamento político com os Estados Unidos contribuíram para enfraquecer uma relação bilateral construída durante mais de dois séculos.
“A Fiesp lamenta, com profunda preocupação, a aplicação de uma nova sobretaxa às exportações de produtos brasileiros ao mercado norte-americano. A decisão é especialmente prejudicial por se limitar de forma unilateral ao Brasil, o que reduz significativamente a competitividade do país perante concorrentes globais”, afirmou a entidade.
Na sequência, a nota acrescenta que, em um momento de elevada sensibilidade econômica mundial, a opção do governo brasileiro por uma postura diplomática mais conflituosa teria ajudado a minar os vínculos históricos entre os dois países.
A manifestação da Fiesp amplia um debate que vai além da responsabilidade dos Estados Unidos pela aplicação da medida. A decisão norte-americana é unilateral e afeta diretamente empresas e trabalhadores brasileiros. Entretanto, para a principal entidade industrial paulista, a condução do governo federal também precisa ser avaliada.
De acordo com a federação, a retaliação comercial poderia ter sido evitada por meio de uma atuação mais técnica, pragmática e concentrada na preservação dos interesses econômicos do país. A entidade lembrou que participou de audiências públicas nos Estados Unidos e manteve esforços de diplomacia empresarial ao longo do último ano.
O presidente da Fiesp, Paulo Skaf, destacou que o mercado norte-americano é o principal destino de diversos produtos brasileiros de alto valor agregado. São mercadorias que incorporam tecnologia, atividade industrial, empregos qualificados e maior retorno econômico para o país.
Por essa razão, a sobretaxa não atinge apenas os exportadores. Seus efeitos podem alcançar cadeias produtivas inteiras, fornecedores, trabalhadores, investimentos e municípios que dependem da atividade industrial.
A preocupação aumenta porque as empresas brasileiras já enfrentam dificuldades dentro do próprio país. A Fiesp menciona a elevada carga tributária, os juros reais entre os mais altos do mundo e outros fatores que comprometem a competitividade da produção nacional.
O novo “pedágio” imposto às exportações soma-se, portanto, ao chamado Custo Brasil. Uma indústria que já precisa conviver com tributação complexa, crédito caro, dificuldades logísticas, burocracia e insegurança regulatória passa a enfrentar também uma barreira adicional para vender em um de seus mercados mais importantes.
Embora parte relevante das atenções políticas esteja concentrada na troca de acusações entre os governos, quem efetivamente pagará a conta serão as empresas, os produtores, os trabalhadores e a economia brasileira. Governos podem transformar o conflito em discurso eleitoral, mas as consequências concretas recaem sobre quem produz e depende do comércio exterior.
A Fiesp informou que continuará trabalhando por meio da diplomacia empresarial junto a parceiros nos Estados Unidos. O objetivo será buscar a reversão das tarifas ou, pelo menos, ampliar a lista de produtos brasileiros isentos da nova cobrança.
“A Fiesp reafirma seu compromisso com a diplomacia empresarial e seguirá trabalhando de forma construtiva junto a parceiros nos EUA para que as tarifas sejam revertidas ou parcialmente mitigadas na ampliação da lista de isenções”, declarou a entidade.
O posicionamento deixa uma mensagem clara: relações internacionais precisam ser conduzidas com responsabilidade, especialmente quando envolvem mercados estratégicos, empregos e bilhões em exportações.
Diplomacia não significa submissão. O Brasil deve defender sua soberania, seus interesses e suas empresas. Mas essa defesa precisa combinar firmeza com capacidade de negociação, profissionalismo e compreensão das consequências econômicas de cada declaração ou movimento político.
Da mesma forma, os Estados Unidos precisam reconhecer que medidas unilaterais prejudicam uma relação comercial histórica e podem gerar efeitos negativos para empresas e consumidores dos dois países.
O momento exige menos discursos direcionados às campanhas eleitorais e mais esforços para encontrar uma solução. A divergência entre governos não pode ser transferida integralmente ao setor produtivo e aos trabalhadores.
A nota da Fiesp representa uma cobrança firme ao governo brasileiro, mas também uma condenação à sobretaxa norte-americana. A entidade pede que a relação entre os dois países volte a ser conduzida com pragmatismo, diálogo e atenção aos interesses econômicos.
O fato concreto é que o tarifaço foi confirmado. A partir de agora, o desafio será reduzir seus efeitos, preservar mercados, proteger empregos e reconstruir os canais diplomáticos necessários para evitar que a disputa política provoque danos ainda maiores à economia brasileira.
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