Farinha não Pára em Mão Fechada
Texto reproduzido do livro “Histórias de Aprendiz” publicado pelo colunista.

Seo Nonô fazia sucesso na novela das oito. Sovina, mesquinho, egoísta, era capaz de qualquer expediente – até mesmo pequenos ilícitos – para juntar uns trocados a mais. Seu sucesso decorria de duas circunstâncias: a brilhante interpretação do ator Ari Fontoura e os chistes hilários que envolviam a mesquinharia do personagem numa atmosfera de simpatia, criando couraça de cumplicidade e tolerância entre os espectadores.
Delvair não gostava de novelas. Entendia que elas tinham pouco a acrescentar à sua vida e consumiam horas preciosas. Preferia “gastar” seu tempo com atividades outras: livros, viagens, exercícios, namoros, passeios pelos parques e ruas da cidade.
Filho mais velho de mãe viúva, foi arrimo de família, ajudando a criar meia dúzia de irmãos menores. Começou a trabalhar como engraxate, vendedor de picolé, balconista. Na idade do serviço militar, resolveu seguir carreira nos quartéis, mais por segurança do que por vocação. A vida de dificuldades não lhe roubou a doçura nem pôs cadeado no coração generoso, sempre pronto a ajudar os próximos e os nem tão próximos. Desapegado de bens materiais, tinha pouco de seu: aposentadoria modesta, apartamento pequeno, carro popular…
Se já não gostava de novelas, tinha comichões de alergia quando o assunto era seo Nonô. Educado, ainda assim se mantinha quieto e respeitoso quando, de visita a amigo ou parente, a TV estivesse ligada no programa. Foi assim na casa da prima que tinha ido visitar, na serra, acompanhado do filho. Mesa posta, hora do jantar, atenções voltadas para a TV. Seo Nonô, uma vez mais, rouba a cena. A dona da casa não esconde sua admiração.
Normalmente arredio a discussões inúteis, Delvair contesta:
– Não é bem assim, prima. Esse sujeito não é bom exemplo.
– Que é isso? – argumenta a mulher. – Logo você que sabe o valor de cada tostão. Aliás, se não fosse tão “mão aberta”, principalmente com estranhos, teria juntado um bom patrimônio.
– Farinha não pára em mão fechada! – retrucou Delvair.
– Não entendi. Isso é indireta pra mim? – questiona a prima.
– Não. É o que eu penso. Imagine que Deus, todo dia, derrama dos céus um tanto de farinha pro pão nosso de cada dia. Se estiver com a mão fechada, farinha nenhuma vai parar na sua mão. No entanto, se estiver com a mão aberta, ainda que parte da farinha escape por entre os dedos entreabertos, outro tanto de farinha vai ficar na palma da mão.
Delvair Kaiser aproveitou a conversa com a prima
para passar a lição de vida ao filho, Jakzam.
