Da Proa para o Banco do Meio
Texto reproduzido do livro “Histórias de Aprendiz” publicado pelo colunista.

Synésio Ascêncio foi o responsável pelas primeiras publicações brasileiras pautadas na vida ao ar livre – hoje denominadas outdoor. Nas décadas de 60 e 70, a revista Troféu e o anuário Bíblia do Pescador alimentaram os sonhos de aventura de toda uma geração de brasileiros.
Bom jornalista, conhecedor dos sertões e rios brasileiros, Synésio Ascêncio era também exímio pescador, sempre à frente do seu tempo, trazendo para o Brasil conceitos inovadores, como a pesca esportiva com iscas artificiais.
Era particularmente apaixonado pelo Pantanal. Não passava ano sem visitar a região para encantar os olhos com a paisagem exuberante de vida e alegrar o coração com os causos revividos no anoitecer de estrelas, ao redor de fogo amigo. E para pescar: pacus, pintados, piraputangas, dourados…
Naqueles tempos, o peixe era farto; pescava-se perto dos acampamentos e dos hotéis, na verdade pousadas rústicas que asseguravam pouso e estrutura aos pescadores. Os barcos não passavam de “voadeiras” de alumínio, cinco metros de comprimento, 1,20 m de boca, calado pouco, quatro bancos (um na popa, dois no meio, outro na proa), motor de 15 hp. Bastava meia hora de navegação, rio acima ou rio abaixo, para descobrir um bom pesqueiro: remanso de águas calmas e profundas, próximo de barrancos, sombreado por árvores frutíferas e armadilhas de “unha-de-gato” à espera de novatos incautos e inexperientes.
Mateiro velho, Synésio tinha bom olho para descobrir novos pesqueiros. Apontava o local para o piloteiro e, mal o barco encostava no barranco, deslocava-se para a proa. Esgueirava-se por entre os galhos de unha-de-gato à procura de um ponto seguro onde amarrar o cabo de proa. Com a popa presa ao barranco por outro cabo, dava corda até deixar a voadeira perpendicular ao curso do rio. Barco posicionado, os três ou quatro amigos do grupo podiam pescar calmamente, sem que os lances de um atrapalhassem os demais. Foi assim, durante anos…
Imagino que Ascêncio tivesse por volta de 60 anos quando, pela primeira vez, mudou seu comportamento. Apontou, como sempre, o local de um novo pesqueiro. Mas cedeu o lugar na proa para companheiro mais jovem. Nas primeiras empreitadas, o novato apanhou das unhas-de-gato e teve dificuldade para calcular o tanto de corda a largar para deixar o barco na perpendicular. Mas acabou aprendendo a lição.
Tempos depois, recebo um telefonema do Synésio (eu era colaborador da Troféu). Explicou que estava passando o comando das revistas e da editora para antigos colaboradores. Perguntei-lhe a razão:
– É simples – explicou. – Está na hora de deixar a proa pra alguém mais jovem e disposto a enfrentar as unhas-de-gato. Vou continuar no banco do meio. Pra tudo na vida tem um tempo certo…
História de Synésio Ascêncio, homem de bem,
empresário empreendedor, jornalista experiente,mateiro dos bons, apaixonado pelos sertões do Brasil.
