Competência não Tem Regime

exto reproduzido do livro “Histórias de Aprendiz” publicado pelo colunista.

Imagem gerada por IA

Na década 70, estourou em Portugal um movimento – liderado por militares – com o objetivo de depor o ditador Salazar. A Revolução dos Cravos foi além: instaurou o socialismo no país, estatizando a maioria dos empreendimentos.

Jaime Bernardes, dono da Nórdica, editora que na época publicava meus livros, era português e também um conservador empedernido, que defendia seus pontos de vista de forma veemente.

Eu era um jovem inexperiente. Também defendia meus pontos de vista de forma veemente, mas – nas discussões com Jaime –, sempre acabava acuado, sem conseguir fazer frente aos seus argumentos, sólidos, claros, oportunos.

Nos dias seguintes à Revolução dos Cravos, imaginei aborrecer o editor com minhas impertinências. Sem qualquer motivo urgente ou relevante, telefonei para ele. Disse-lhe que tinha sorte de “ter seu negócio” no Brasil e não em Portugal.

Quis saber o porquê da minha afirmação.

– É claro – expliquei meu raciocínio. – Se a Nórdica estivesse em Portugal, ela seria estatizada e você acabaria um funcionário como outro qualquer…

– Engano seu –– respondeu, taxativo. E continuou: – Num regime capitalista, sou empresário. Num regime comunista, seria chefe do mesmo jeito.

Uma vez mais, me encontrava acuado. Sem dar tempo para que eu buscasse outros argumentos, finalizou:

– O motivo disso? Simples… Sou competente e sou empreendedor. E isso nenhum regime tira de mim…

Lembro de ter me recolhido à minha condição de aprendiz, desligando o telefone todo desenxabido e sem graça.

O jornalista e mestre Jaime Bernardes, português de nascimento e brasileiro por adoção,

esteve à frente da Editorial Nórdica por mais de três décadas.

Sobre o autor

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