ANTONOMÁSIA – UM CASO DE POLÍCIA

Antonomásia é uma figura de linguagem, uma variação da metonímia. Segundo a gramática, ela consiste em substituir o nome próprio de uma pessoa, divindade ou lugar por uma característica, título ou fato marcante que a torne facilmente identificável. Por exemplo, quando alguém diz que mora na “Ilha da Magia”, imediatamente vem à mente a cidade de Florianópolis. Se eu moro na “Cidade Maravilhosa”, todos identificam o Rio de Janeiro. Se eu disser que sou fã do “Rei do Futebol”, se não o mundo, mas com certeza os brasileiros sabem que nos referimos ao grande Pelé.

Ou seja, há o reconhecimento imediato do que se fala pela marcante característica da lembrança advinda ao pronunciar determinada palavra ou termo.

Agora, somente no Brasil, um substantivo/adjetivo pode se tornar um caso de polícia e, ao assim se tornar, se transforma em antonomásia. O ditado popular diz que se a carapuça serve é porque é verdade. Aliás, este dito popular tem sua origem na Santa Inquisição, onde os “condenados” eram obrigados a usar um chapéu longo e cônico chamado de “carapuça”. Nada mais apropriado à antonomásia, objeto desta rápida reflexão.

Pois no Brasil um substantivo, às vezes adjetivo, transmudou-se para uma antonomásia e virou caso de polícia: LADRÃO. Se não era, a partir da atuação policial, passou a ser. Muito mais do que impedir uma liberdade de expressão, que talvez pudesse significar uma crítica genérica, uma insatisfação generalizada aos casos, e descasos, à galopante corrupção no País, que chega a dar saudades de quando antigamente somente a inflação era galopante, a atuação da Gestapo — ops, escapou — da Polícia Federal merece registro. Ao visualizar uma faixa com o substantivo ladrão estampada no pano, a autoridade logo identificou um personagem político do País que, por ironia das coincidências, sempre está ao lado dos maiores escândalos de corrupção brasileira. Então, o que era apenas um substantivo destinado a designar aqueles que subtraíam mediante violência ou não (furto ou roubo na técnica penal), ou um adjetivo utilizado para designar aqueles que fraudaram, por exemplo, uma partida de futebol, passou a ser uma antonomásia. Por entendimento policial ladrão passou a ser LADRÃO. Vários textos já foram escritos sobre o tema e para não roubar ou plagiar as versões limito-me à gramática. Só no Brasil, onde as liberdades são jogadas às favas sob olhares atentos dos medrosos, um vocábulo passa a ter um dono e ser alvo da repressão estatal.

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