AGRITURISMO: UMA LIÇÃO ITALIANA DE HOSPITALIDADE

Foto: Ernesto São Thiago

A viagem que realizamos pela Itália entre os dias 12 e 23 de junho nasceu como uma celebração do Dia dos Namorados brasileiro. Curiosamente, na Itália a data dos apaixonados é comemorada em 14 de fevereiro, no tradicional San Valentino. Assim, desembarcamos em Roma na manhã do dia 12 e, já na primeira noite, celebramos a ocasião com um jantar no estrelado Mirabelle, um dos mais renomados restaurantes da capital italiana, com uma vista privilegiada sobre a Cidade Eterna. O que seria uma viagem romântica transformou-se também em uma extraordinária imersão cultural, gastronômica e territorial pela Itália. E, acima de tudo, revelou uma descoberta que acabou se tornando o grande tema da jornada: o agriturismo.

Ao longo de onze dias percorremos a Maremma, no litoral da Toscana, o Chianti, a Emilia-Romagna, o Veneto e a Umbria. Em cada uma dessas regiões encontramos paisagens, sabores e tradições distintas. Mas foi nos agriturismo que percebemos uma característica comum: a extraordinária capacidade dos italianos de transformar agricultura, gastronomia, patrimônio histórico e hospitalidade em uma única atividade.

Para muitos brasileiros, turismo rural ainda remete a propriedades adaptadas para receber visitantes. Na Itália, o conceito é diferente. O agriturismo surgiu como instrumento de preservação das atividades agrícolas e de combate ao abandono do campo. Com o passar das décadas, transformou-se em um dos modelos mais bem-sucedidos da hotelaria europeia, permitindo que pequenas propriedades complementassem sua renda sem abandonar sua vocação produtiva.

Nossa primeira experiência com o agriturismo ocorreu no Belvedere di San Leonino, em Castellina in Chianti. Até então, o conceito era para nós mais uma referência da vida rural italiana do que algo efetivamente conhecido.

Chegamos ali vindos de Porto Ercole, no Monte Argentario. O Mar Tirreno havia ficado para trás. Na costa da Maremma, os protagonistas eram os frutos do mar extraordinariamente frescos — peixes, camarões, lagostins e moluscos desembarcados diariamente pelos pescadores locais — acompanhados pelos elegantes vinhos Vermentino, cuja acidez, frescor e notas minerais refletem a proximidade do Mediterrâneo. Poucas horas depois, porém, a paisagem e a gastronomia mudavam completamente. Em lugar do mar surgiam as colinas do Chianti, dominadas por vinhedos, oliveiras e pela tradição secular dos grandes vinhos tintos toscanos.

O Belvedere ocupa antigas edificações rurais cuidadosamente restauradas junto à histórica igreja de San Leonino. Seu nome descreve exatamente aquilo que oferece: um verdadeiro mirante sobre uma das paisagens mais emblemáticas da Itália. Situado entre Firenze e Siena, encontra-se no coração do território do Chianti Classico.

Ali predominam os vinhedos de Sangiovese, base dos grandes vinhos da região, convivendo com oliveiras das variedades Frantoio, Leccino, Moraiolo e Pendolino. Em muitos trechos da Toscana, uma fileira de videiras é seguida por outra de oliveiras, formando uma paisagem agrícola harmoniosa construída ao longo de séculos. Os jantares ao pôr do sol tornaram-se um dos pontos altos da hospedagem. No verão italiano, a luz permanece até perto das nove da noite, criando um cenário extraordinário para refeições que celebram o território. À mesa, degustamos um Chianti Classico especialmente produzido para o hotel, reforçando a sensação de estarmos inseridos não apenas em uma hospedagem, mas em um dos mais importantes terroirs vinícolas do mundo.

A segunda experiência ocorreu no Cinque Cerri, na Emilia-Romagna. Se a Toscana impressiona pela beleza, a Emilia-Romagna impressiona pela produtividade. Ao redor da propriedade estendem-se áreas cultivadas de milho, trigo, alfafa, hortaliças e pomares. É dessa região que saem alguns dos produtos mais emblemáticos da gastronomia italiana, como o Parmigiano Reggiano, o Prosciutto di Parma, a Mortadella Bologna e o tradicional Aceto Balsamico.

Foi ali que aprendi uma receita territorial de ragù alla bolognese, muito distante das versões difundidas pelo mundo. O café da manhã servido diante da paisagem rural permitia compreender algo fundamental: a gastronomia italiana não nasce nos restaurantes. Ela nasce no campo.

Após uma passagem por Bologna seguimos para Belluno, nas portas das Dolomitas. No dia 19 de junho retornamos a Verona para assistir à monumental montagem de Aida na Arena di Verona.

Para muitos brasileiros, o nome pouco diz. Aida é uma das óperas mais famosas da história. Composta por Giuseppe Verdi e estreada em 1871, narra a história de amor entre a princesa etíope Aida e o general egípcio Radamès, tendo como pano de fundo guerras, disputas políticas e conflitos de lealdade. Sua célebre Marcha Triunfal tornou-se uma das passagens mais reconhecidas da música clássica mundial.

Assistir a essa obra na Arena di Verona representa algo especial. Construído no século I, o anfiteatro romano é um dos mais bem preservados do mundo e recebe, há mais de um século, algumas das mais importantes apresentações líricas internacionais. A grandiosidade da montagem, envolvendo milhares de espectadores, coro, orquestra, figurinos monumentais e centenas de artistas, justificaria sozinha uma viagem à Itália.

Seguimos depois para Venezia e, posteriormente, para Ravenna. Nesse trecho surgiu uma coincidência histórica fascinante. Havíamos passado por Firenze, cidade onde Dante Alighieri nasceu e viveu boa parte de sua vida. Dias depois chegávamos a Ravenna, cidade que acolheu o poeta durante seu exílio, onde concluiu a Divina Comédia, faleceu em 1321 e permanece sepultado até hoje. Também ali visitamos alguns dos mais extraordinários mosaicos bizantinos preservados no mundo ocidental.

A última etapa rural ocorreu na Corte del Lupo, em Nocera Umbra. Na Umbria encontramos uma paisagem diferente daquela observada na Toscana e na Emilia-Romagna. Bosques, colinas, vinhedos, olivais e áreas de coleta convivem em equilíbrio. A região é conhecida pelos vinhos de Montefalco, especialmente aqueles produzidos a partir da uva Sagrantino, pelos brancos elaborados com Grechetto e pela forte tradição ligada às trufas.

Foi ali que compreendemos de forma ainda mais clara a ligação entre agricultura e gastronomia. O azeite servido à mesa nasce das oliveiras da própria propriedade. As azeitonas são colhidas localmente e encaminhadas para prensagem em um frantoio, estrutura equivalente ao lagar português. Como os equipamentos são caros e altamente especializados, muitos produtores utilizam sistemas cooperativos, preservando a identidade de suas colheitas sem necessidade de investimentos individuais elevados.

Dependendo da época do ano, os hóspedes podem participar da busca por ervas silvestres, aspargos selvagens e da tradicional caça às trufas realizada com cães treinados. O resultado aparece depois à mesa, em uma cozinha profundamente conectada ao território.

Mas talvez a maior surpresa tenha sido perceber que o agriturismo italiano já ultrapassou os objetivos para os quais foi criado. Concebido originalmente para evitar o abandono do campo, o modelo acabou produzindo um efeito adicional e não previsto: atrair novamente pessoas das cidades para o meio rural. Em diversas regiões italianas, profissionais liberais, empresários e famílias urbanas passaram a restaurar propriedades históricas, recuperar construções rurais e construir novos projetos de vida ligados à agricultura e à hospitalidade.

Isso ajuda a explicar o padrão encontrado nas propriedades que visitamos. Em nenhuma delas tivemos a sensação de estar diante de uma hospedagem improvisada. Pelo contrário. Quartos confortáveis, mobiliário de qualidade, banheiros impecáveis, enxovais de primeira linha, atendimento profissional e gastronomia cuidadosa revelavam um padrão frequentemente superior ao encontrado em muitos empreendimentos de turismo rural brasileiros.

E existe um detalhe ainda mais surpreendente: frequentemente por diárias inferiores às praticadas por estabelecimentos de qualidade bastante inferior no Brasil.

Ao final da viagem, ficou claro que o agriturismo não é apenas uma forma de hospedagem. É uma forma de compreender a Itália. Não apenas a Itália dos monumentos, dos museus e das grandes cidades, mas a Itália produtiva, rural e autêntica. A Itália dos vinhos, dos azeites, das pequenas propriedades familiares e das paisagens que há séculos alimentam uma das culturas gastronômicas mais admiradas do mundo.


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