QUANDO O CANDIDATO MAIS COMPETITIVO NÃO É A NOTÍCIA

A pesquisa presidencial divulgada pela Real Time Big Data deveria ter produzido uma discussão relativamente simples. Luiz Inácio Lula da Silva (PT), atual presidente da República, aparece com 38% das intenções de voto. Flávio Bolsonaro (PL-RJ), senador da República, registra 31%. Ronaldo Caiado (União Brasil-GO até o início do ano e agora no PSD), ex-governador de Goiás, alcança 6%. Romeu Zema (Novo-MG), ex-governador de Minas Gerais, permanece abaixo desse patamar.

Qualquer observador que tivesse acesso apenas aos números, sem manchetes, comentários ou filtros interpretativos, concluiria que a disputa presidencial permanece concentrada entre Lula e Flávio Bolsonaro.

Não foi essa, contudo, a percepção transmitida por parcela expressiva da cobertura jornalística.

O motivo pelo qual considero esse episódio relevante vai muito além do levantamento em si. Os dados divulgados não revelam uma ruptura. Não indicam o surgimento de uma alternativa capaz de reorganizar o campo conservador. Tampouco apontam para uma migração significativa do eleitorado bolsonarista em direção a outros nomes. A fotografia capturada pelo instituto reproduz, em linhas gerais, o mesmo cenário registrado por diferentes levantamentos ao longo dos últimos meses.

Lula permanece na liderança. Flávio Bolsonaro segue como principal adversário do presidente. Caiado e Zema continuam distantes de ambos.

Mais importante do que isso, os cenários de segundo turno continuam apontando para uma disputa equilibrada entre Lula e Flávio Bolsonaro, exatamente como já vinha sendo observado em pesquisas anteriores. Mesmo após semanas de intensa exposição negativa envolvendo Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, a estrutura central da corrida presidencial permanece essencialmente a mesma.

Esse aspecto deveria ter ocupado posição de destaque no debate público.

Se a tese predominante nas semanas anteriores era a de que o episódio Vorcaro produziria enfraquecimento eleitoral relevante, a primeira grande pesquisa realizada após toda essa repercussão deveria ser observada justamente sob essa ótica. Ocorre que os números não revelam uma alteração estrutural do cenário.

Ao contrário.

O levantamento sugere que o senador do PL continua ocupando isoladamente o espaço de principal liderança oposicionista e permanece como o único nome fora do campo governista que demonstra densidade eleitoral compatível com uma disputa presidencial competitiva.

É justamente por isso que chama atenção a ênfase conferida aos cenários hipotéticos envolvendo os ex-governadores Ronaldo Caiado e Romeu Zema.

Antes de disputar um segundo turno, é preciso chegar a ele.

Parece uma observação elementar, mas boa parte da análise política brasileira passou a dedicar enorme atenção ao que ocorreria depois da travessia sem explicar adequadamente quem possui condições reais de alcançar a outra margem.

Quando um candidato aparece com 31% das intenções de voto e outros registram 6% ou menos, a questão central não é imaginar como seria uma eventual disputa entre Lula e o candidato de 6%. A questão central é compreender por que aquele que aparece com 31% continua concentrando a preferência do eleitorado oposicionista enquanto os demais permanecem tão distantes.

A hipótese de um segundo turno entre Lula e Caiado ou entre Lula e Zema somente se torna plausível diante de uma mudança estrutural da dinâmica eleitoral ou da retirada do principal nome da oposição da disputa. Sem isso, o debate corre o risco de transformar-se em exercício teórico desconectado da realidade retratada pelos próprios números.

O contexto em que o levantamento foi realizado torna essa constatação ainda mais relevante.

Durante semanas, consolidou-se em determinados ambientes políticos e midiáticos a expectativa de que o episódio envolvendo Daniel Vorcaro abriria espaço para uma reorganização do campo conservador. Multiplicaram-se análises sobre o enfraquecimento de Flávio Bolsonaro. Ampliou-se o espaço destinado a possíveis alternativas. Voltou a circular a ideia de que o eleitorado bolsonarista estaria pronto para migrar em direção a nomes considerados mais aceitáveis por parcelas do establishment político, econômico e midiático.

Os dados divulgados não confirmam essa hipótese.

Naturalmente, isso não significa que o episódio tenha sido irrelevante. Nenhum agente político atravessa semanas de exposição negativa sem sofrer algum tipo de desgaste. O que o levantamento sugere é que esse desgaste não foi suficiente para alterar a posição relativa dos principais atores da disputa.

Existe, entretanto, uma dimensão temporal frequentemente ignorada nas análises produzidas a partir da pesquisa.

Enquanto os possíveis custos políticos decorrentes do episódio Vorcaro provavelmente já aparecem refletidos nos números, os acontecimentos posteriores dificilmente foram integralmente assimilados pelo eleitorado.

Quando Flávio Bolsonaro anunciou sua agenda nos Estados Unidos, parte da imprensa e da esquerda reagiu com evidente ceticismo. Questionou-se a relevância da viagem. Minimizaram-se os encontros anunciados. Em alguns momentos, transmitiu-se ao público a impressão de que a iniciativa possuía mais valor simbólico do que importância concreta.

Os acontecimentos posteriores alteraram significativamente esse cenário.

A reunião com Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, efetivamente ocorreu na Casa Branca, em encontro realizado fora da agenda pública. Entre os temas tratados estavam segurança pública, crime organizado e a atuação do PCC e do Comando Vermelho.

Dias depois, Marco Rubio, secretário de Estado norte-americano, anunciou a classificação das duas facções como organizações terroristas estrangeiras. A decisão provocou repercussão internacional e gerou reação pública do governo Lula.

Não é necessário estabelecer uma relação direta de causa e efeito para perceber a mudança de contexto.

Antes da viagem, discutia-se se ela possuía relevância política.

Depois dela, a pauta defendida pelo senador passou a integrar o debate internacional e tornou-se tema de repercussão nacional.

A cronologia importa porque sugere que a pesquisa talvez esteja capturando com maior intensidade os efeitos negativos das semanas anteriores do que os possíveis reflexos eleitorais dos acontecimentos subsequentes.

Existe ainda uma segunda camada dessa discussão.

Em artigo anterior, intitulado Pureza, Poder e o Futuro do Brasil, sustentei que parte da classe política continua interpretando de forma equivocada o eleitorado bolsonarista. Durante anos acreditou-se que bastaria reproduzir determinadas pautas para herdar automaticamente esse eleitorado.

A experiência prática demonstrou algo mais complexo.

O eleitor bolsonarista não escolhe apenas programas de governo. Observa trajetória. Observa coerência. Observa lealdade. Observa disposição para assumir custos políticos em defesa de determinadas posições.

Em outras palavras, atribui enorme importância à legitimidade de quem pretende representá-lo.

Sob essa perspectiva, torna-se mais fácil compreender por que Caiado e Zema continuam encontrando dificuldades para converter notoriedade em densidade eleitoral.

Ambos governaram estados relevantes da Federação. Ambos construíram carreiras respeitáveis. Ambos acumulam experiência administrativa significativa.

Ainda assim, permanecem muito distantes do eleitorado que pretendem conquistar.

Talvez porque uma parcela expressiva dos bolsonaristas não os enxergue como continuidade de um projeto político, mas como tentativa de substituição desse projeto.

É justamente nesse ponto que a forma de apresentar a pesquisa passa a ter relevância própria.

Narrativas não alteram números.

Mas influenciam percepções.

E percepções influenciam alianças, candidaturas e expectativas de poder.

Em Santa Catarina, por exemplo, a eventual candidatura de Carlos Bolsonaro (PL-RJ), vereador do Rio de Janeiro e potencial candidato ao Senado pelo estado, está inevitavelmente associada à percepção de força do projeto nacional ao qual se vincula. A possibilidade de o eleitor catarinense eleger para o Senado o irmão de um eventual presidente da República possui evidente valor político.

Por essa razão, a maneira como a viabilidade presidencial de Flávio Bolsonaro é percebida produz efeitos que ultrapassam a disputa pelo Palácio do Planalto. Afeta alianças estaduais, estratégias partidárias, candidaturas proporcionais e disputas senatoriais.

Ao final da leitura, a conclusão parece difícil de contornar.

O episódio Vorcaro não produziu a reorganização do campo oposicionista que muitos previam. Os nomes apresentados como alternativas permanecem distantes da disputa efetiva pelo poder. O senador do PL preserva a condição de principal contraponto eleitoral ao atual presidente da República.

Se haverá mudanças adiante é uma questão em aberto.

O que os números registram hoje é algo mais simples: a estrutura fundamental da corrida presidencial permanece praticamente intacta.

Talvez por isso a notícia mais relevante produzida pelo levantamento não esteja nos candidatos que aparecem com 6% das intenções de voto, mas naquele que, mesmo após semanas de desgaste, permanece muito à frente deles e segue dividindo com Lula o centro da disputa política nacional

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