Os métodos de sempre: o medo volta à campanha eleitoral
Campanha de Lula pretende explorar entre beneficiários de programas sociais o temor de eventuais cortes em um governo Flávio Bolsonaro; estratégia volta a utilizar a insegurança de famílias vulneráveis como instrumento eleitoral.

A campanha presidencial entrou no segundo turno e alguns métodos conhecidos da política brasileira estão novamente sendo colocados em prática.
Segundo reportagem publicada pela Folha de S.Paulo, a campanha do presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva pretende apostar no medo da perda de programas sociais para aumentar a rejeição a Flávio Bolsonaro entre parcelas mais vulneráveis da população.
A estratégia deverá alcançar especialmente beneficiários de programas sociais, aposentados e trabalhadores de menor renda.
A mensagem que se pretende construir é simples: uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro poderia colocar benefícios e direitos sociais em risco.
Politicamente, é fácil compreender o objetivo.
Humanamente, a questão é bem mais delicada.
Estamos falando de milhões de brasileiros para quem benefícios sociais representam parte importante — e muitas vezes fundamental — da renda familiar.
Usar justamente essa dependência para provocar medo no eleitor significa atuar sobre uma das maiores fragilidades de quem já enfrenta dificuldades econômicas.
E existe ainda um aspecto objetivo.
Até agora, Flávio Bolsonaro não apresentou proposta para extinguir o Bolsa Família. Seu programa defende a manutenção do benefício, embora existam diferenças entre os dois candidatos sobre a forma de conduzir políticas sociais e sobre o tamanho e funcionamento do Estado.
Portanto, uma coisa é discutir diferenças entre projetos.
Outra é transformar possibilidades ou interpretações em ameaça concreta de retirada de benefícios.
O eleitor tem direito de conhecer aquilo que cada candidato realmente propõe.
Se Flávio pretende cortar determinada política, isso deve ser mostrado.
Se Lula pretende ampliar determinada política, também.
O que não deveria fazer parte de uma campanha é utilizar a vulnerabilidade econômica das pessoas para criar uma sensação de que, dependendo do resultado da eleição, sua sobrevivência estará ameaçada sem que exista uma proposta objetiva sustentando essa afirmação.
A própria Folha registra que a campanha pretende reforçar a ideia de que Lula seria o candidato capaz de garantir a preservação das conquistas sociais e explorar o temor de que políticas econômicas mais liberais possam produzir cortes.
É uma estratégia eleitoral.
Mas merece crítica.
Famílias que dependem de programas sociais já convivem com insegurança suficiente.
Não precisam receber também o peso de uma campanha construída sobre o medo de perder aquilo que garante sua subsistência.
E esse método não é novo.
Campanhas eleitorais brasileiras há décadas recorrem à tentativa de transformar adversários em ameaças.
O mecanismo é simples:
não basta convencer o eleitor de que sua proposta é melhor. É preciso fazê-lo acreditar que a vitória do outro poderá lhe causar algum dano.
Quanto maior a vulnerabilidade do público atingido, maior pode ser o efeito.
É justamente por isso que o método merece ser questionado.
O segundo turno deveria servir para comparar propostas, modelos econômicos, políticas sociais, segurança, saúde, educação e os caminhos que cada candidato pretende seguir.
Se determinado programa está ameaçado, apresente-se a proposta que demonstra isso.
Se haverá redução, mostre-se onde está previsto.
Se haverá corte, diga-se qual será.
O que não pode substituir fatos é o medo.
A população brasileira, principalmente aquela que mais depende do Estado, merece informação objetiva.
Não pânico eleitoral.
Não ameaça indireta.
Não a sensação de que votar no candidato errado poderá retirar de sua mesa aquilo de que sua família depende.
Vulnerabilidade social não deveria ser instrumento de campanha.
O eleitor precisa escolher entre dois projetos.
Não entre a esperança de um lado e o medo fabricado do outro.
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