Os conflitos entre desenvolvimento turístico e preservação ambiental não são uma exclusividade de Florianópolis. Um dos casos mais emblemáticos da Europa ocorre atualmente na Sardenha e envolve uma empresa brasileira. A JHSF desenvolve o Fasano Sardegna, seu primeiro empreendimento no Mediterrâneo, um projeto que há anos vem sendo planejado para transformar Cala Finanza em um destino internacional de turismo de alto padrão.

O empreendimento está localizado no município de Loiri Porto San Paolo, na costa nordeste da ilha, em uma propriedade de aproximadamente 100 hectares, com cerca de um quilômetro de frente para o mar, seis enseadas naturais e vista para a Área Marinha Protegida Tavolara–Punta Coda Cavallo, criada em 1997. O masterplan prevê um hotel Fasano com cerca de 60 suítes, aproximadamente 30 vilas privativas entre 200 e 500 m², grandes propriedades residenciais (estates), marina, beach club, spa, centro esportivo com quadras de tênis, padel e squash, restaurantes, village comercial, praias estruturadas, serviços náuticos, heliponto e outras instalações voltadas ao turismo de luxo. Segundo a empresa, apenas uma pequena parcela da área total receberá edificações, preservando a maior parte da propriedade.

A implantação foi concebida em etapas. Em agosto de 2025, entrou em operação o Fasano Al Mare Beach Club, inaugurado em regime de soft opening. A estrutura já recebe hóspedes durante o verão europeu e oferece restaurante, spa, academia, piscina, quadras esportivas e serviços de praia, funcionando como a primeira fase do complexo. Em 2026, a JHSF lançou ainda o Fasano Yachts, serviço integrado de hospitalidade com uma frota de 12 embarcações destinada aos clientes do empreendimento. A conclusão integral do projeto está prevista para 2028.

Foi justamente quando as etapas seguintes avançavam que surgiu a controvérsia. Em fevereiro deste ano, o governo italiano concedeu ao empreendimento uma Autorização Única por meio do regime das Zonas Econômicas Especiais (ZES), criado em 2023 para acelerar investimentos produtivos no sul da Itália. A decisão provocou forte reação da Região Autônoma da Sardenha, do Ministério da Cultura, do Corpo Florestal, da Superintendência de Arqueologia, Belas Artes e Paisagem de Sassari, da Província Nordeste Gallura, de entidades ambientalistas e de movimentos locais, que sustentam que o procedimento simplificado não poderia afastar as restrições do Plano Paisagístico Regional, que limita novas construções na faixa costeira.

O caso rapidamente extrapolou a esfera técnica. Centenas de pessoas participaram de manifestações em Cala Finanza, uma petição pública superou 100 mil assinaturas e a crise atingiu a política local, culminando com a renúncia do secretário municipal de Turismo, Riccardo Biancu, irmão do diretor-executivo da Tavolara Bay, empresa responsável pelo desenvolvimento do projeto.

Sob intensa pressão, o município de Loiri Porto San Paolo revogou esta semana a deliberação urbanística que havia servido de fundamento ao licenciamento. Na sequência, o governo italiano também revogou, a Autorização Única concedida pela estrutura nacional da ZES. A decisão, contudo, não encerra a disputa. A JHSF e a Tavolara Bay afirmam que todo o processo observou rigorosamente a legislação italiana, que o empreendimento foi concebido com critérios de sustentabilidade, integração paisagística e respeito ao patrimônio ambiental, e informaram que analisam as medidas judiciais cabíveis para restabelecer a autorização e dar continuidade ao investimento.

Mais do que discutir um resort de luxo, a Itália debate os limites entre proteção ambiental, planejamento territorial, autonomia regional, segurança jurídica e atração de investimentos. O desfecho poderá criar um precedente relevante para futuros empreendimentos em áreas costeiras protegidas. É um debate sofisticado e complexo, que demonstra que os desafios enfrentados em Florianópolis também estão presentes em alguns dos destinos naturais mais valorizados do mundo.

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