Nada é gratuito: o Brasil sabe arrecadar, mas ainda precisa aprender a gastar

Saúde, educação e demais serviços públicos são financiados pela sociedade; o verdadeiro debate está na qualidade da gestão e no retorno entregue ao cidadão.

Estão propagando a ideia de que país de referência é aquele que oferece saúde gratuita, educação gratuita e uma extensa lista de outras gratuidades. Essa afirmação precisa ser analisada com honestidade: gratuidade absoluta simplesmente não existe.

Saúde e educação públicas podem ser gratuitas para o cidadão no momento em que ele entra em um hospital ou frequenta uma escola. Isso significa que não há cobrança direta pelo atendimento ou pela matrícula. Mas alguém financiou o prédio, os equipamentos, os medicamentos, os professores, os médicos, os servidores, a energia elétrica, a manutenção e toda a estrutura necessária para que o serviço exista.

Quem paga essa conta é a sociedade.

São trabalhadores, consumidores, empresários, produtores e famílias que financiam o Estado por meio dos impostos, das contribuições e das diversas formas de tributação incidentes sobre renda, consumo, patrimônio, produção e serviços. Até quem não entrega declaração de Imposto de Renda paga tributos todos os dias ao comprar alimentos, roupas, combustível, energia ou qualquer outro produto.

O governo não possui dinheiro próprio. O recurso público é dinheiro retirado da própria sociedade e administrado em nome dela. O Estado pode organizar, regular, contratar, investir e executar serviços. A estrutura governamental é sustentada pela arrecadação gerada pela atividade econômica.

Por isso, expressões como “o governo deu”, “o governo pagou” ou “o serviço é gratuito” podem criar uma percepção equivocada. O governo não presenteia a população com recursos particulares. Ele devolve, por meio de políticas e serviços, parte daquilo que arrecadou dos próprios cidadãos.

Isso não diminui a importância do Sistema Único de Saúde, da escola pública ou dos programas sociais. Ao contrário. Esses instrumentos são fundamentais para garantir direitos, reduzir desigualdades e proteger quem mais precisa. A questão não é discutir se o Estado deve oferecer serviços públicos. A discussão correta é avaliar a qualidade, a eficiência e o custo daquilo que entrega.

E é justamente nesse ponto que o Brasil encontra um dos seus maiores problemas.

O país arrecada uma parcela expressiva de toda a riqueza produzida, mas o retorno percebido pela população continua distante daquilo que seria aceitável. O brasileiro paga impostos elevados e, muitas vezes, ainda precisa contratar plano de saúde, escola particular, segurança privada, transporte alternativo e outros serviços que deveriam ser oferecidos de forma adequada pelo poder público.

É como pagar duas vezes. Primeiro, por meio dos tributos. Depois, diretamente, para conseguir o serviço que o Estado não conseguiu entregar com a qualidade, a agilidade ou a segurança necessárias.

Na educação, o Brasil permanece distante dos melhores resultados internacionais. Milhões de estudantes concluem etapas importantes sem domínio adequado de leitura, matemática e ciências. Isso limita oportunidades, reduz a produtividade e compromete o desenvolvimento econômico por várias gerações.

Na segurança pública, apesar de avanços registrados em alguns períodos, o país ainda convive com dezenas de milhares de homicídios por ano. Famílias alteram rotinas, empresas gastam mais com proteção e cidadãos vivem com medo em muitas cidades brasileiras.

Na saúde, o SUS realiza um trabalho gigantesco e indispensável, mas enfrenta falta de profissionais em determinadas regiões, dificuldades de gestão, hospitais sobrecarregados e longas esperas por consultas, exames e cirurgias especializadas. Para quem aguarda com dor ou diante de uma doença grave, a demora pode representar agravamento do quadro e até perda da oportunidade de tratamento.

Também é necessário discutir o custo e a eficiência da máquina pública. O problema não está apenas no tamanho do Estado, mas na qualidade daquilo que ele executa. Uma estrutura cara pode ser legítima quando oferece serviços excelentes. O inaceitável é manter despesas elevadas e entregar resultados insuficientes.

Cada real desperdiçado em obras abandonadas, privilégios, estruturas desnecessárias, contratos mal elaborados ou programas sem avaliação representa dinheiro que deixa de chegar ao hospital, à escola, à segurança, ao saneamento e à infraestrutura.

O cidadão não precisa de um Estado que apenas anuncie quanto pretende gastar. Precisa de um Estado capaz de demonstrar quanto entregou, qual resultado alcançou e como utilizou cada recurso arrecadado.

A discussão sobre políticas públicas também precisa abandonar a falsa escolha entre gastar ou não gastar. Países sérios investem em saúde, educação, proteção social e infraestrutura. A diferença é que estabelecem prioridades, avaliam resultados, corrigem erros e cobram responsabilidade de quem administra.

O Brasil já demonstrou que sabe arrecadar. Criamos impostos, contribuições, taxas e inúmeras obrigações para financiar uma estrutura pública ampla. O grande desafio agora é aprender a gastar melhor.

Isso significa reduzir desperdícios, melhorar a gestão, estabelecer metas, avaliar programas, digitalizar serviços, combater fraudes, eliminar privilégios e direcionar os recursos para aquilo que realmente transforma a vida das pessoas.

Serviço público não é favor de governante. É direito financiado pelo cidadão.

Portanto, quando um político disser que entregará algo gratuitamente, o eleitor deve fazer perguntas simples: quanto custará, de onde virá o dinheiro, quem executará, quais resultados serão esperados e como a sociedade poderá fiscalizar?

Não existe dinheiro público sem origem. Antes de entrar no orçamento, ele saiu do bolso de alguém.

O Brasil não precisa apenas arrecadar mais. Precisa respeitar mais quem paga. E a melhor forma de demonstrar esse respeito é transformar imposto em serviço público eficiente, digno e compatível com tudo aquilo que a população já entrega ao Estado.

Hashtags: #GestãoPública #Impostos #ServiçosPúblicos #Economia #Saúde #Educação #EficiênciaDoEstado #Brasil #DMANotícias

Sobre o autor

Compartilhar em: