Mostrar apenas o primeiro turno é suficiente para explicar a eleição?
Em uma disputa polarizada e com segundo turno provável, divulgar somente a fase inicial pode oferecer ao eleitor um retrato parcial do verdadeiro equilíbrio eleitoral

Alguns institutos de pesquisa têm optado por divulgar levantamentos da corrida presidencial concentrados exclusivamente nos cenários de primeiro turno.
Essas pesquisas possuem valor e não devem ser desconsideradas. São importantes para identificar a força inicial de cada candidatura, medir o grau de fragmentação da disputa e verificar se algum concorrente possui condições de alcançar mais da metade dos votos válidos e encerrar a eleição ainda na primeira etapa.
Entretanto, diante do cenário político brasileiro de 2026, surge uma pergunta legítima: divulgar somente o primeiro turno é suficiente para que a população compreenda a real situação da disputa presidencial?
Até o momento, os principais levantamentos nacionais indicam uma eleição polarizada entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro, mas com a participação de outros candidatos ligados principalmente à direita e ao centro-direita.
No primeiro turno, essa multiplicidade de nomes divide parte do eleitorado oposicionista. Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Renan Santos e outros possíveis concorrentes retiram percentuais que, em uma eventual decisão direta, poderão migrar para um dos dois finalistas.
Essa dinâmica ajuda a explicar por que Lula frequentemente apresenta uma vantagem mais visível nas simulações de primeiro turno, enquanto a distância diminui de forma expressiva quando o levantamento testa uma disputa direta contra Flávio Bolsonaro.
A pesquisa BTG/Nexus divulgada em 3 de agosto oferece um exemplo claro. No principal cenário de primeiro turno, Lula apareceu com 41% e Flávio Bolsonaro com 37%. No confronto direto, os percentuais passaram para 46% e 45%, respectivamente, caracterizando empate técnico.
Outras rodadas do mesmo instituto também apresentaram equilíbrio semelhante no segundo turno. Em abril, Lula tinha 46% e Flávio Bolsonaro 45%. Em julho, o presidente marcou 47%, diante de 44% do senador, novamente dentro da margem de erro.
Os números demonstram que primeiro e segundo turnos respondem a perguntas diferentes.
A primeira etapa mede como o eleitor distribui sua preferência entre todos os candidatos disponíveis. A segunda revela como essa mesma população se comportaria diante de apenas duas alternativas.
Quando existem várias candidaturas próximas ideologicamente, o primeiro turno pode mostrar uma vantagem que não se repete com a mesma intensidade na decisão direta.
Isso é natural e faz parte do sistema eleitoral brasileiro.
Os eleitores de candidatos eliminados não desaparecem. Eles podem migrar para um dos finalistas, votar em branco, anular ou não comparecer. Por essa razão, conhecer os cenários de segundo turno é fundamental para compreender o potencial de transferência dos votos e a competitividade real dos principais nomes.
Não há irregularidade no fato de um instituto decidir quais cenários pretende testar. As pesquisas precisam ser registradas na Justiça Eleitoral, com informações sobre contratante, metodologia, amostra, questionário e período de realização, mas a legislação não obriga que todo levantamento presidencial apresente simulações de primeiro e segundo turnos simultaneamente. O TSE mantém o sistema PesqEle para consulta pública das pesquisas registradas.
A questão, portanto, não é jurídica. É informativa.
Em uma eleição na qual todos os sinais apontam para a possibilidade de segundo turno, a publicação exclusiva da primeira etapa mostra apenas uma parte do cenário.
Também existe um componente psicológico que não pode ser ignorado. Pesquisas não apenas medem a opinião pública; sua divulgação pode influenciar a percepção de viabilidade das candidaturas.
Estudos acadêmicos identificam o chamado efeito de adesão ao vencedor, conhecido como bandwagon effect. Ele ocorre quando parte dos eleitores se aproxima de quem aparece liderando, influenciada pela percepção de que aquele candidato possui maiores possibilidades de vitória. Um experimento publicado no International Journal of Public Opinion Research encontrou aumento médio de apoio às opções apresentadas como majoritárias após a exposição dos participantes a resultados de pesquisas.
Isso não significa que toda pessoa mude seu voto ao conhecer uma pesquisa, nem que todos os levantamentos produzam esse efeito. Eleitores ideologicamente definidos tendem a manter suas escolhas. Mas, entre aqueles com menor identificação partidária ou ainda indecisos, a imagem de liderança pode adquirir peso.
Por essa razão, a forma como uma pesquisa é divulgada importa.
Apresentar apenas o primeiro turno pode transmitir a impressão de que determinada candidatura possui uma vantagem consolidada, mesmo quando as simulações de segundo turno realizadas por outros levantamentos mostram uma disputa praticamente empatada.
Isso não autoriza acusar um instituto de manipulação sem provas. Cada pesquisa possui objetivos, contratantes, custos e questionários próprios. Também existem levantamentos voltados especificamente à definição das candidaturas, à rejeição, ao potencial de voto ou à disputa inicial.
Entretanto, é legítimo cobrar transparência sobre as escolhas metodológicas e editoriais.
Se o objetivo declarado é mostrar ao eleitor o cenário completo da eleição presidencial, o segundo turno não pode ser tratado como informação secundária.
O primeiro turno indica quem poderá chegar à decisão.
O segundo mostra quem possui condições de vencê-la.
Em uma disputa ainda aberta, os dois cenários precisam ser analisados em conjunto. Separadamente, podem produzir interpretações incompletas e conclusões precipitadas.
O eleitor também precisa compreender que liderança no primeiro turno não significa vitória garantida no segundo. Da mesma forma, empate técnico em uma simulação direta não assegura que os dois candidatos chegarão à etapa final.
Pesquisas são retratos do momento, construídos a partir das perguntas apresentadas, da amostra entrevistada e do período de coleta. Quanto mais completos forem os cenários divulgados, melhores serão as condições para que a população interprete o processo eleitoral.
Por isso, diante da atual polarização e da forte possibilidade de uma decisão em duas etapas, causa estranheza que alguns levantamentos apresentem apenas o primeiro turno.
Não porque esse cenário seja irrelevante.
Mas porque ele, sozinho, não mostra toda a eleição.
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